Despatologiza: “O cuidado verdadeiro não recusa o alívio, mas se recusa a parar nele”
Com quase 250 mil seguidores só no Instagram, a psicóloga Flávia Albuquerque transformou seu canal Despatologiza em um ponto de encontro e debate sobre a saúde mental e o paradigma vigente que tende a estabelecer rótulos psiquiátricos a características e traços de personalidade que não se encaixam naquilo que se convencionou chamar de “normal”.
Imbuída desse espírito, e munida de aparato teórico e senso aguçado sobre a realidade brasileira, agora ela publica o livro de mesmo nome, que lança um convite — e uma provocação — a examinar e desconstruir a lógica que medicaliza diversos aspectos da vida.
Em Despatologiza (clique aqui para comprar), sua estreia nas livrarias, Albuquerque examina como chegamos a uma sociedade que convive com “epidemias” de diagnósticos como TDAH, TOD e companhia e defende por que mudar esse modus operandi é uma via possível e mais humana se quisermos acolher as diferenças e superar o sofrimento.
VEJA SAÚDE: TDAH, autismo nível 1, ludopatia… Qual transtorno melhor representa a patologização denunciada por seu livro?
Flávia Albuquerque: Se eu tivesse de eleger o que melhor simboliza esta era, não apontaria um transtorno isolado, mas o próprio campo da atenção e do neurodesenvolvimento.
Não porque seja mais real que os demais, mas porque é nele que a nossa época deposita, hoje, suas angústias em torno de produtividade, adequação e desempenho.
O rótulo que se destaca em cada tempo é menos um espelho da biologia e mais um retrato das exigências que aquele tempo faz aos seus sujeitos.
Há pessoas e famílias que se sentem aliviadas após um diagnóstico psiquiátrico. Como avalia essa questão?
Eu começaria reconhecendo que esse alívio é real, e não tenho nenhum interesse em minimizá-lo. Numa sociedade que ainda trata o sofrimento psíquico e a diferença com muito preconceito, receber um diagnóstico pode ser a primeira vez que a dor de alguém é levada a sério.
Aquilo que a pessoa ouviu a vida inteira como preguiça, frescura ou falta de esforço ganha, enfim, um nome e deixa de ser uma falha moral. Mas eu diria que o diagnóstico, nesses casos, funciona como um alívio que se volta contra o próprio sujeito.
Ele acolhe num primeiro instante, mas, ao localizar a origem de tudo dentro da pessoa, acaba por isolá-la, inclusive da possibilidade de perceber que boa parte da sua dor é compartilhada com outros e tem raízes que estão fora dela.
O cuidado verdadeiro, a meu ver, não recusa o alívio, mas se recusa a parar nele: ele devolve à pessoa a pergunta sobre o que, nas condições concretas da sua vida, está produzindo aquele sofrimento.

Essa é a pergunta central, e eu gostaria de começar desfazendo um risco de mal-entendido: despatologizar o cuidado não significa abolir toda linguagem diagnóstica e deixar um vazio no lugar.
Aliás, seria até nocivo fazer isso, porque hoje, em um Estado que condiciona o acesso a direitos à existência de um laudo, tirar o diagnóstico das pessoas sem mudar as estruturas apenas as deixaria desamparadas.
O problema não está apenas no CID [sigla para Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde] ou no DSM [manual da Associação Americana de Psiquiatria] enquanto documentos. Está no dispositivo que os transformou na única porta de entrada para o cuidado e para a cidadania.
Isso fica claro num paradoxo perverso que descrevo no livro: hoje, sem o CID, o sofrimento é invisibilizado; e, com o CID, ele é patologizado. Quem não tem um rótulo válido corre o risco de ser tratado como fraco, indisciplinado ou mal-ajustado; quem tem, vê a complexidade da própria experiência reduzida a uma categoria.
O que a despatologização propõe é romper esse falso dilema, construindo um paradigma de cuidado que não dependa de um diagnóstico para operar.
É possível viabilizar essa transformação no Brasil?
Sim, na prática, isso não é uma utopia abstrata. O Brasil construiu, a partir da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica, a Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS.
É uma rede pública, feita de serviços como os CAPS, que trabalham com uma lógica radicalmente diferente da manicomial: cuidado no território, em liberdade, com foco no vínculo e na reinserção social, e não no isolamento e na tutela.
Fortalecer e financiar adequadamente essa rede, em vez de esvaziá-la, como se tem feito, já seria um passo enorme.
Um exemplo do desvio atual: enquanto a RAPS carece de verba, recursos públicos massivos são destinados à criação de serviços segregados e a um mercado privado, como as comunidades terapêuticas, que faturam com o diagnóstico e o sofrimento. Cuidar de forma despatologizante é reverter essa prioridade.
Conseguimos esboçar qual seria a linha a partir da qual um sofrimento ou característica psicossocial se tornam uma doença?
Esta é, para mim, a pergunta mais basilar de todas, e a minha resposta pode parecer provocativa, mas vou justificá-la: essa linha de fronteira não existe de forma objetiva. Ela não é dada pela natureza. É traçada, e traçada por alguém, a partir de um parâmetro de normalidade que é histórico, cultural e, muitas vezes, atravessado por classe, raça e gênero.
É por isso que, no livro, eu insisto numa distinção que considero fundamental: a diferença entre sofrimento e transtorno. O sofrimento é real, concreto, inegável, as pessoas sofrem, e esse sofrimento merece ser levado a sério. O “transtorno”, por outro lado, não é o sofrimento em si, é uma leitura, uma interpretação que se faz dele.
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