Rabdomiólise após spinning: entenda o problema que deixa xixi escuro e sua relação com o treino

22 de Out de 2026 - 09:50
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Rabdomiólise após spinning: entenda o problema que deixa xixi escuro e sua relação com o treino

Quando decidiu experimentar uma aula de spinning na rede Velocity, Juliana Krauss não imaginava que a experiência terminaria em uma internação hospitalar.

A editora de arte da revista Superinteressante estava há cerca de três anos sem praticar exercícios físicos regularmente, mas tinha o hábito de percorrer longas distâncias de bicicleta pela cidade de São Paulo. Por isso, acreditava que os 45 minutos de pedalada em uma bike parada seriam relativamente tranquilos.

Ao chegar ao estúdio localizado na Vila Olímpia, o professor não conversou com ela para explicar o funcionamento da atividade ou orientar sobre os cuidados necessários, ainda que fosse sua primeira aula. Como contou à VEJA SAÚDE, ela e um amigo eram os únicos iniciantes da turma e receberam pulseiras que os identificavam. Mas não houve qualquer atenção especial ou abordagem individualizada.

Durante a experiência, ela já percebeu que havia algo estranho: as pernas começaram a ficar pesadas e doloridas. A designer passou a maior parte do tempo sentada, sem acompanhar os movimentos rápidos e em pé propostos pelo professor, mas aumentou a resistência da bicicleta tentando compensar a intensidade menor.

“Quando acabou a aula e eu desci da bike, percebi que tinha alguma coisa muito errada, porque não estava conseguindo mais andar”, conta. “Realmente não conseguia ficar com a perna estendida. Ela meio que falhava.”

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Nos dias seguintes, a situação piorou. A dor nas pernas, especialmente nas coxas, era tão forte que atividades simples, como sair da cama, sentar em uma cadeira ou usar o banheiro passaram a ser um desafio. Na sexta-feira, três dias após a aula, ela percebeu que sua urina estava escura, com uma coloração de Coca-Cola.

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“Na hora, eu pensei que tinha dado muito ruim, que tinha afetado os meus rins“, relatou. “Não fazia ideia que o exercício físico podia fazer meu corpo chegar nesse estado“, lembra.

Dada a situação, ela resolveu ir ao pronto-socorro. E logo veio a suspeita: rabdomiólise. Krauss nunca havia ouvido falar da condição. Assim que os exames de sangue revelaram níveis muito elevados de creatinoquinase (CPK), enzima que pode indicar lesão muscular, veio a confirmação do diagnóstico e ela precisou ser internada.

“A rabdomiólise tem relação com a intensidade e duração do exercício, mas o ponto chave é a capacidade física da pessoa“, pontua o médico do esporte Cadu Viterbo. “Há gente que corre uma maratona por dia e não vê problema, porque tem o corpo preparado para aquilo, mas outras podem desenvolver a condição após uma aula mais intensa”, completa.

Krauss passou cinco dias e meio no hospital. Mesmo após a alta, ela ainda enfrentou dificuldades para caminhar e realizar atividades cotidianas por um tempo.

Ainda não há dados concretos no país sobre a frequência de ocorrência da rabdomiólise, porém notificações dessa condição tem sido impulsionadas pelo aumento do número de treinos físicos intensos (como crossfit e corridas) e uma maior vigilância médica sobre o problema.

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Mas, afinal, a rabdomiólise pode acontecer com qualquer pessoa que pratique exercícios físicos intensos? Como saber quando a dor muscular deixa de ser uma resposta normal ao esforço e passa a representar um sinal de alerta? E quais cuidados ajudam a prevenir o problema? A seguir, entenda o que acontece no organismo durante um episódio de rabdomiólise, quem está mais suscetível e quando é necessário procurar atendimento médico.

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O que é?

A rabdomiólise é uma condição caracterizada pela destruição das fibras musculares, que liberam seu conteúdo na corrente sanguínea. Entre as substâncias liberadas estão a mioglobina, proteína presente nos músculos, e a creatinoquinase (CPK), enzima utilizada como marcador de lesão muscular.

Todo exercício físico gera algum grau de dano no músculo, o problema surge quando esse processo é excessivo e ultrapassa a capacidade de adaptação do organismo.

“As pessoas que estão mais condicionadas ou já estão acostumadas a determinados exercícios têm fibras mais fortes, mais resistentes àquele padrão de movimento”, explica Viterbo.

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Segundo ele, o risco aumenta quando a intensidade ou a duração do exercício supera aquilo a que o corpo está habituado. Isso pode acontecer tanto com pessoas sedentárias, que começam uma atividade muito intensa, quanto com indivíduos treinados que se submetem a esforços excessivos que não faziam antes.

“Se você realiza um exercício mais intenso, muito mais longo, em uma condição diferente de temperatura, ou de duração prolongada, isso pode ultrapassar a capacidade do seu corpo e a lesão de fibras ser maior”, explica.

Quando uma grande quantidade de fibras é destruída, o conteúdo liberado pode prejudicar o funcionamento dos rins. “Isso pode levar a uma lesão renal aguda, principalmente porque o paciente também desidrata por causa do exercício”, alerta o médico.

Em casos graves, o comprometimento renal pode exigir internação hospitalar e até diálise.

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Quais são os sintomas da rabdomiólise?

Primeiro é preciso diferenciar os sinais da rabdomiólise da dor muscular comum após a prática de exercícios. Afinal, sentir algum desconforto depois de um treino intenso, especialmente quando o corpo não está acostumado à atividade, é normal e frequente.

Na rabdomiólise, no entanto, os sintomas podem ser muito mais intensos. Dor muscular acentuada, fraqueza e dificuldade para realizar movimentos simples, como caminhar ou subir escadas, estão entre os principais sinais de alerta. Também podem ocorrer inchaço muscular, mal-estar, dor de cabeça e cansaço extremo.

“A pessoa fica mais letárgica e isso pode acontecer quase que imediatamente após o exercício”, explica Viterbo. “Já as dores normais costumam aparecer de 24 a 72 horas após o treino, e são bem localizadas”, completa o médico.

Outro sintoma importante é a alteração na cor da urina, que pode ficar avermelhada, marrom ou muito escura, semelhante à Coca-Cola. Isso pode acontecer devido à eliminação de mioglobina pelos rins e exige avaliação médica imediata.

“A grande diferença para a dor muscular comum é que a rabdomiólise tem um comprometimento sistêmico, principalmente renal, o que é o mais preocupante”, destaca o médico.

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Por isso, dores musculares desproporcionais ao esforço, fraqueza acentuada, inchaço importante ou alterações na urina devem levar a procura imediata por atendimento médico. O diagnóstico da doença é feito por avaliação clínica e exames laboratoriais, especialmente pela dosagem de creatinoquinase (CPK) no sangue.

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Como reduzir o risco de rabdomiólise?

A principal recomendação é o básico: começar uma nova modalidade de forma gradual e respeitar os limites do corpo.

O cuidado vale para sedentários e também para quem já pratica atividades físicas. Afinal, estar bem condicionado não significa estar preparado para qualquer modalidade ou intensidade de treino.

“Estar fisicamente ativo não te protege 100%. Diminui o risco, sim, mas não elimina a chance de ter”, alerta o médico do esporte.

Manter uma hidratação adequada, observar as condições de temperatura e evitar exercícios extenuantes, especialmente em ambientes muito quentes, também ajudam. Ter a orientação de um profissional de educação física seria o ideal.

Segundo Viterbo, a valorização da superação constante de limites também pode aumentar o risco de lesões, incluindo a rabdomiólise. “A gente tem que abandonar a ideia de que o treino só é eficiente quando a pessoa está exausta, quando ela supera seus limites”, defende.

Ele lembra que exercícios moderados também promovem adaptações positivas no organismo e que os benefícios da atividade física dependem, acima de tudo, da regularidade. “O mais importante é consistência, ter adesão a longo prazo”, conclui.

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O que diz a Velocity

Procurada por VEJA SAÚDE, a Velocity afirmou que possui protocolos específicos para prevenir e acompanhar intercorrências de saúde, incluindo casos de rabdomiólise.

Em caso de diagnóstico comunicado à unidade, a empresa diz que o gestor responsável deve entrar em contato com o aluno ou seus familiares e investigar as circunstâncias do episódio, considerando condicionamento físico, hidratação e intensidade do exercício.

A empresa não informou quantos casos da condição já foram registrados entre seus alunos, alegando questões de privacidade, mas afirmou que situações assim são pontuais. Apesar disso, há diversos relatos em redes sociais e até no site Reclame Aqui acerca de casos parecidos com o de Krauss.

Ainda segundo a rede, os professores são orientados a conversar com os alunos iniciantes antes da primeira aula, para conhecer seu histórico de atividade física e explicar o funcionamento da bicicleta e as possibilidades de intensidade. Durante o treino, também devem oferecer orientações individualizadas sobre carga, velocidade, postura e respiração.

Isso, no entanto, contraria o depoimento de Krauss, que afirma não ter recebido qualquer acompanhamento individualizado em sua primeira aula.

Questionada sobre a possibilidade de criar turmas específicas para iniciantes, com progressão mais leve de carga e intensidade, a Velocity defendeu seu modelo misto atual, onde todos fazem a mesma aula. Segundo a empresa, sua metodologia permite que pessoas com diferentes níveis de condicionamento participem juntas, já que a intensidade pode ser ajustada individualmente.

A Velocity informou também que todos os alunos preenchem um questionário de triagem de saúde (PAR-Q) antes da primeira aula, mas afirmou não possuir um termo de consentimento específico sobre os riscos de rabdomiólise.

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