Inveja no trabalho: alavanca para o desempenho ou armadilha para a saúde mental?

13 de Out de 2026 - 01:20
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Inveja no trabalho: alavanca para o desempenho ou armadilha para a saúde mental?

Sentir uma pontada ao ver o colega subir na carreira não faz de você uma má pessoa nem faz, necessariamente, mal à saúde mental. A questão é o que você faz com a inveja. E muitas empresas, sem perceber, estão alimentando o lado ruim dessa história na busca de engajamento, lealdade, motivação.

O LinkedIn, entre outras redes, é um grande laboratório para esse tipo de situação. Seja honesto: quando aquele colega da sua turma anunciou nessa rede que assumiu um cargo de diretor, qual foi a primeira coisa que você sentiu? Provavelmente não foi alegria.

Foi um aperto rápido no peito, um incômodo na “boca” do estômago, tudo logo disfarçado por um “parabéns, merecidíssimo!” nos comentários da postagem.

Pois é… Bem-vindo ao clube. Do ponto de vista da neurociência, a inveja é uma emoção social, um estado afetivo disparado na interação com os outros. Também é uma das mais comuns no trabalho e uma das menos confessadas ou das mais recalcadas, diria Freud. Ninguém escapa dela.

A diferença entre quem escolhe fazer dessa emoção uma alavanca motivacional e quem cai na armadilha do recalque está no direcionamento dessa energia psíquica. E isso não é novidade para a psicanálise, que discute há mais de um século o incômodo de nos compararmos com os outros.

Todo mundo já foi o menor do grupo um dia

A explicação começa no berço. Nascemos absolutamente frágeis, dependentes de gente maior e mais forte para tudo. Essa sensação de pequenez deixa traços profundos em nossa memória e volta sempre que alguém parece estar acima de nós. Alfred Adler, um dos dissidentes do círculo de Freud, chamou isso de “sentimento de inferioridade”.

O chefe, o colega mais bem pago, o amigo que comprou o apartamento primeiro ou trocou de carro… Cada uma dessas situações reacende o velho incômodo. É a criança que fomos, com medo de ficar para trás numa disputa qualquer, ainda que seja só numa brincadeira, numa relação simbólica.

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Ou seja: sentir inveja não é defeito de caráter. É a expressão de quanto é desagradável nos sentirmos menores, potencialmente desamparados. É humano. Mas, diante desse sentimento, existe um amplo espaço para escolhas. É como adultos que temos que lidar com o que vem da infância.

Para o cérebro, perder status significa perigo à vista

Não é exagero dizer que o sucesso alheio dói. Pesquisas com primatas e com seres humanos associam a posição de destaque no grupo à serotonina, um neurotransmissor ligado à autoconfiança, àquele sentimento de “eu posso, eu consigo”.

E pouco importa se o desafio diante de nós é a montagem de um quebra-cabeça, um jogo de tabuleiro ou um projeto relevante no trabalho.

Estudos de neuroimagem sugerem, inclusive, que um elogio público ativa no cérebro as mesmas regiões de recompensa que um bônus em dinheiro.

Um status de destaque, portanto, tende a ser fonte de prazer. Um status de perdedor, de quem ficou para trás, faz o oposto: está associado a níveis mais baixos de serotonina e tende a ser processado pelo cérebro como ameaça, acionando os mesmos sistemas de alarme que nos protegem do perigo físico.

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A mera expectativa de que vamos ser elogiados ou promovidos é prazerosa. Nesse caso, quem entra em ação é outro neurotransmissor: a dopamina.

É aqui que neurociência e psicanálise se encontram: esse circuito é a base neuroquímica da pulsão freudiana, da busca pelo prazer que move nossas ações de uma forma nem sempre consciente.

A escada ou o atalho

Há dois destinos para a tensão que situações de assimetria de poder geram, duas direções para a energia que estamos chamando de inveja.

O primeiro é a escada, a alavanca: estudar, se preparar, correr atrás da própria promoção. A frase interna é “se ele ou ela tem, eu também posso ter”.

O segundo é o atalho que leva a uma armadilha comportamental: lidar com as assimetrias tentando nivelar os outros por baixo. Aí a frase mental se torna “se tudo der errado, a diferença entre nós será menor”.

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Não é por outro motivo que há tantos sabotadores nos ambientes de trabalho. É o comentário ácido na reunião, a fofoca no café, a crítica desproporcional ao projeto do colega, o clássico “esse sucesso é daqueles que dura pouco”.

A armadilha surge porque a crítica ou a sabotagem são relativamente “baratas” frente ao esforço de tentar fazer da inveja uma alavanca.

Construir uma carreira leva anos; atacar a reputação de alguém leva segundos, principalmente quando isso se faz no padrão passivo-agressivo e nas redes sociais. E o cérebro premia a via rápida: cada risada cúmplice, cada curtida num comentário maldoso gera uma pequena dose de prazer que pede repetição.

Reduzir a distância para o outro, ainda que seja pelo rebaixamento do colega bem-sucedido, gera em nós um tipo mórbido de satisfação. Essa é uma pequena amostra da pulsão de morte freudiana, aquela energia que nos faz ter prazer em destruir, não em construir, em nivelar por baixo, não em subir também.

Só que essa satisfação dura pouco. A distância para o colega continua lá, e o alarme do cérebro segue ligado. Quem vive no modo armadilha passa os dias em estado de alerta e o organismo responde liberando cortisol, o hormônio do estresse.

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Em doses pontuais, ele nos prepara para reagir. Quando a sensação de ameaça vira rotina, a conta chega: sono ruim, irritabilidade, dificuldade de concentração e mais risco de ansiedade e depressão. O que foi recalcado cobra seu preço no corpo, como também sabia Freud. O atalho que prometia alívio acaba cobrando juros altos.

Nas redes sociais, onde o sucesso alheio desfila sem parar, a via fácil virou “esporte coletivo” e combustível para o ódio online. E, nas plataformas em que, ao contrário do LinkedIn, ninguém precisa mostrar nome e cargo, o quase anonimato favorece imensamente o retorno do sentimento recalcado, as expressões de ódio, o hate.

A culpa também é da empresa

Mas seria injusto jogar toda a responsabilidade no indivíduo. O ambiente pesa muito na escolha sobre o que fazer com o sentimento de inveja. Rankings expostos no mural, comparações constantes entre equipes, promoções sem critério claro: tudo isso empurra as pessoas para o caminho da armadilha.

Empresas que mantêm certos grupos em desvantagem permanente — mulheres longe dos cargos de chefia, por exemplo — produzem o mesmo efeito. Quando a escada parece bloqueada, só sobra o atalho.

É difícil escolher a opção da inveja como alavanca motivacional se o caminho para o “eu também posso chegar lá” está cheio de obstáculos.

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O antídoto, diria o velho Adler, é o senso de pertencimento. Em uma equipe de alta performance, é preciso haver o “craque artilheiro”, mas também é preciso ter quem “construa a jogada”. Quando o sucesso é visto como resultado do esforço coletivo, as assimetrias de poder naturalmente se tornam menos importantes.

Líderes que explicam por que alguém foi promovido e reconhecem contribuições concretas, grandes ou pequenas, diretas ou indiretas, desarmam a inveja antes que ela leve ao caminho fácil das atitudes passivo-agressivas.

Como fazer da inveja um combustível

A boa notícia: o cérebro aprende padrões de reação. Cada vez que você escolhe a alavanca em vez do caminho fácil que leva à armadilha, a escolha fica um pouco mais fácil. Algumas atitudes ajudam:

  • Dê nome ao que sente. Admitir para si mesmo “senti inveja” ajuda a evitar reações impulsivas;
  • Pergunte o que a inveja está dizendo. Ela costuma apontar exatamente o que você quer: um cargo, uma habilidade, um reconhecimento. Então, faça dela a alavanca. Foque no objetivo desejado, não no fato de que alguém próximo já chegou lá;
  • Troque a comparação por um plano. Em vez de medir a distância até o outro, defina o seu próximo passo concreto. Pergunte-se: “De que eu preciso para ter o mesmo?”;
  • Aproxime-se de quem você inveja. Parabenizar de verdade e aprender com a pessoa transforma o rival em referência. A empatia é um diluidor afetivo da inveja;
  • Dê uma pausa nas redes. O desfile infinito de conquistas alheias mantém o alarme ligado o dia inteiro. O excesso de telas gera muitos males. E a comparação compulsiva e neurótica é um deles.

Em resumo, sentir uma pontada de inveja é normal: é uma reação involuntária, a lembrança da criança frágil que fomos. O desafio é encará-la como o adulto que somos hoje e transformá-la em ambição, usá-la como um elemento propulsor de nossas carreiras.

*Robson Gonçalves é psicanalista, economista comportamental e professor da FGV, especialista em comportamento humano, saúde mental e alta performance.

(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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