Por que uma nova onda de soldados norte-coreanos pode lutar na guerra da Rússia contra a Ucrânia

18 de Set de 2026 - 16:40
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Por que uma nova onda de soldados norte-coreanos pode lutar na guerra da Rússia contra a Ucrânia
    • Author, Quentin Sommerville
    • Role, Correspondente em Seul (Coreia do Sul), BBC News
  • Published Há 21 minutos
  • Tempo de leitura: 11 min

Um inimigo que invadiu o campo de batalha em grandes grupos e, sob ataque, parece alheio aos perigos dos drones e disparos de armas automáticas.

Um corpo de elite de soldados fantasmas que preferem o suicídio à rendição. Eles lutam e morrem aos milhares, aparentemente desaparecendo do front.

A enviou soldados próprios para lutar ao lado das forças da , buscando repelir uma ofensiva ucraniana em território russo no final de 2024. Eles pagaram um alto preço, com até 3 mil mortos em ação, dentre os 13 mil soldados destacados para o combate.

Eles acabaram adaptando suas táticas e, ao lado da Rússia, retiraram as forças ucranianas da região russa de .

Em termos de combate, pouco se ouviu falar deles desde então. Mas, segundo o presidente , Volodymyr Zelensky, forças norte-coreanas e suas armas devem fazer em breve um dramático retorno à .

Em agosto, Zelensky alertou que até 50 mil militares norte-coreanos serão destacados para a Rússia, revisando uma estimativa anterior de 30 mil soldados. Ele convocou a Coreia do Sul a fornecer apoio à defesa aérea do seu país.

Mas por que, depois de tantas baixas, a Coreia do Norte enviaria mais soldados para lutar pela Rússia? E o que aconteceu com seus soldados destacados inicialmente?

"Eles ainda estão lá", segundo o pesquisador Yang Uk, do Centro de Política Externa e Segurança Nacional do Instituto Asan em Seul, na Coreia do Sul.

"Eles estão defendendo o território russo contra um novo contra-ataque da Ucrânia. E acreditamos que parte das equipes de engenheiros ou trabalhadores possa estar na [ocupada pela Rússia], mas não as tropas de combate."

A Diretoria Central de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia (HUR, na sigla em ucraniano) calcula que 8,5 mil militares norte-coreanos ainda estejam em território russo.

Eles são organizados em quatro brigadas, que operam como parte do Grupo de Forças "Norte". Sua missão é proteger a fronteira da Federação Russa na região de Kursk contra as incursões da Ucrânia.

"Eles não participam de operações ativas de combate", explicou a HUR, em declaração à BBC. "Não foram observadas unidades do Exército Popular Coreano em territórios ucranianos temporariamente ocupados."

Acontecimento inédito para a Coreia do Norte

Para o líder da Coreia do Norte, , o destacamento em Kursk foi uma aposta — a maior força de combate norte-coreana já enviada para o exterior na história do país.

Em 1973, a Coreia do Norte destacou 1,5 mil militares e instrutores para o Egito, durante a contra Israel. E, nos anos 1960, calcula-se que 87 pilotos norte-coreanos tenham lutado pelo Vietnã do Norte contra as forças dos Estados Unidos.

Apesar do banho de sangue, a aposta foi vencedora.

O combate rendeu incontáveis benefícios para o país, isolado e empobrecido, transformando sua economia e seu exército. E poderá servir de modelo para cooperações militares ainda mais profundas.

Os norte-coreanos "agora sabem o que é o combate moderno", segundo Yang.

Extremamente isolada, a Coreia do Norte é um Estado totalitário, militarizado e fortemente doutrinado.

Inicialmente, nem a Rússia, nem a Coreia do Norte, . As forças ucranianas lutaram contra eles pela primeira vez em novembro de 2024 e os primeiros prisioneiros de guerra norte-coreanos vivos foram capturados apenas em janeiro de 2025.

A Rússia só reconheceu a participação da Coreia do Norte na guerra na Ucrânia em abril do ano passado, quando o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, Valery Gerasimov, descreveu seu "heroísmo" no campo de batalha.

Os militares destacados para lutar na Rússia são do Storm Corps, a tropa de elite das forças armadas norte-coreanas.

"Os soldados norte-coreanos são muito corajosos, especialmente os do Storm Corps", prossegue Yang. "Eles estão dispostos a morrer pelo seu país."

"Mas o problema é que a paixão não significa técnicas de combate eficientes... [Eles sofreram] um grande banho de sangue na primeira fase da campanha de Kursk, mas aprenderam as lições da guerra moderna com drones."

"Bucha de canhão": é assim que o soldado "Sultão", da 95ª Brigada de Ataque Aéreo da Ucrânia, descreveu as tropas norte-coreanas. Ele as enfrentou na batalha de Kursk, no final de 2024.

"Eles começavam com um grande grupo de ataque, depois mais 15 a 20 homens eram enviados para a mesma posição e mais depois daqueles", descreveu ele, na capital ucraniana, Kiev.

"Os norte-coreanos operavam de forma diferente. Eles ficavam se movimentando o tempo todo. Aquilo oferecia a eles uma certa vantagem, mas que não era decisiva."

A comunicação entre eles e seus aliados russos parecia ser fraca, segundo ele. E i equipamento dos seus soldados era inadequado.

Após o combate, Sultão e seus homens revistavam os corpos inimigos em busca de documentos e informações de inteligência. Entre os mortos russos, eles encontravam pertences pessoais, identificações e equipamentos.

"Mas, quando revistávamos especificamente os norte-coreanos, tudo o que encontrávamos era munição. Verificamos absolutamente todos os bolsos pequenos e não havia documentos, nada", ele conta.

Outros soldados ucranianos relataram que os norte-coreanos não tinham coletes de proteção, nem roupas de inverno, nem capacetes.

Em um vídeo assustador de um ataque ucraniano, um soldado norte-coreano ferido aparece de bruços sobre o solo coberto de neve em um bosque.

À medida que os ucranianos se aproximam, ele detona uma granada sob seu queixo. Em suas últimas palavras, ele clamou o nome do seu líder, Kim Jong-un.

Em abril de 2025, durante uma cerimônia memorial no recém-criado Museu de Operações Militares Estrangeiras, Kim elogiou os heróis que optaram pelo suicídio, em vez da captura.

Em discurso aos parentes dos soldados, ao lado do ministro da Defesa da Rússia, Andrey Belousov, ele os descreveu como "heróis que preferiram, sem hesitar, a autodetonação e ataques suicidas, para defender a honra maior".

O museu fica na capital norte-coreana, Pyongyang.

A Coreia do Norte nunca reconheceu oficialmente a contagem de mortos da operação em Kursk. Mas uma feita pela BBC News Coreia calculou que 2,3 mil soldados norte-coreanos tenham sido mortos lutando pela Rússia.

O braço de inteligência da Ucrânia, HUR, estima em 3 mil mortos e 1,5 mil feridos.

Mas, além da experiência de combate, por que a Coreia do Norte sacrificou tantos dos seus melhores soldados em uma guerra no exterior?

Vantagens econômicas

O deslocamento do exército norte-coreano trouxe que eram muito necessárias para o país, além de uma vitória geopolítica, segundo o pesquisador sênior Lim Soo-ho, do Instituto de Estratégias de Segurança Nacional em Seul, na Coreia do Sul.

Ele calcula que as vendas de armas para a Rússia e o destacamento de tropas tenham gerado para o país empobrecido cerca de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,5 bilhões).

"O PIB anual da Coreia do Norte é calculado em cerca de US$ 30 bilhões", cerca de R$ 155 bilhões, segundo Lim.

"Isso significa que eles ganharam um terço do PIB anual em dois anos e meio de exportações de armas e destacamento de tropas, o que, para uma economia pequena como a da Coreia do Norte, é muito significativo."

Em troca dos soldados, a Coreia do Norte recebe alimentos, petróleo e moeda estrangeira.

A China afirma que respeita as sanções impostas a Pyongyang, ao contrário da Rússia. E a cooperação com Moscou fez com que Pyongyang reduzisse sua longa dependência de Pequim, o que é igualmente importante.

Em setembro do ano passado, Kim Jong-un conseguiu ficar lado a lado em Pequim com o líder chinês Xi Jinping e o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Foi a .

Kim não era exatamente um igual, mas não dependia mais exclusivamente da China.

Este fato é significativo, segundo Lim. "É uma importante mudança geopolítica."

"Sempre que tudo ficava difícil devido ao isolamento, a Coreia do Norte se voltava, em primeiro lugar, à Coreia do Sul, ao Japão ou, especialmente, aos Estados Unidos, para tentar normalizar as relações. Este era o padrão da diplomacia na península coreana.

"Mas, agora, com os laços mais próximos com a Rússia, Kim Jong-un defende que o mundo vive uma nova Guerra Fria, um sistema multipolar", explica o pesquisador.

O acordo com a Rússia começou como uma oportunidade econômica e militar. Agora, ele parece estar se desenvolvendo para se tornar algo .

Durante o nono Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, neste ano, Kim Jong-un falou entusiasticamente sobre feitos nunca antes realizados pelo seu avô, Kim Il-sung (1912-1994), nem pelo seu pai, Kim Jong-il (1941-2011).

Mas existem perigos mais à frente.

Até agora, nenhum soldado norte-coreano lutou em território ucraniano, mesmo nas regiões ocupadas pela Rússia. Se isso acontecesse, haveria consequências diplomáticas pelo menos na Coreia do Sul, aliada da Ucrânia, que forneceu apenas assistência "não letal" até agora.

O presidente Zelensky destacou este ponto ao pressionar Seul em busca de equipamento militar avançado, incluindo sistemas de defesa aérea.

Ele declarou que, desde junho, existem preparativos em andamento na região russa de Voronezh para receber novos soldados norte-coreanos. Zelensky afirma que Pyongyang estaria se preparando para transferir novas armas balísticas para a Rússia.

"A Rússia está ajudando a Coreia do Norte a aprender sobre equipamentos bélicos modernos, melhorar suas armas e ganhar experiência real em combate", declarou ele, em julho. "Isso representa uma ameaça para todos os países da Ásia que se encontram dentro do alcance dos mísseis norte-coreanos."

Apenas dois soldados da Coreia do Norte foram capturados vivos em batalhas contra forças ucranianas. É um número surpreendentemente baixo, já que 11 mil a 14 mil militares do país combateram na campanha de Kursk.

Um terceiro soldado norte-coreano foi capturado vivo, mas morreu devido a lesões relativas aos combates, segundo o Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul.

Como seus colegas que preferiram o suicídio à captura, nenhum dos homens pretendia ser levado vivo.

"Para os soldados de Joseon [Coreia do Norte], ser prisioneiro de guerra, por si só, é crime. Simplesmente não é uma opção. Não podemos ser prisioneiros de guerra", declarou um dos homens capturados à equipe de produção de um documentário da rede pública sul-coreana MBC, em entrevista na prisão ucraniana.

Baek Pyeong-gang (nome fictício) foi atingido por um ataque de drone e permaneceu quatro dias ferido até ser capturado. Ele foi levado a se render ao confundir soldados ucranianos com seus aliados russos.

O segundo prisioneiro, Lee Kang-eun (outro nome fictício), declarou à jornalista Kim Young-mi que se sentia culpado por ainda estar vivo. Ele mal estava consciente quando soldados ucranianos o encontraram no campo de batalha, com extensas lesões em um dos braços e na mandíbula.

"Eu não tinha granada nem facas para pôr fim à minha vida", contou ele.

Lee descreveu que muitos dos seus colegas foram mortos por drones no início da guerra. O campo de batalha "cheirava a sangue", segundo ele.

Nenhum dos homens deseja retornar à Coreia do Norte. Lee afirmou acreditar que seus familiares seriam "eliminados", como punição pela sua captura.

Ambos declararam que querem ser enviados para a Coreia do Sul, que está disposta a recebê-los.

Apenas a Rússia pediu o retorno dos soldados, não Pyongyang.

Mas a Ucrânia ainda tenta pressionar Seul em busca de auxílio militar. Por isso, o país não se comprometeu a entregá-los às autoridades sul-coreanas.

Kiev declarou que irá cumprir com suas obrigações com base nos direitos humanos internacionais, que impedem a repatriação forçada de prisioneiros de guerra.

O destino dos dois soldados ainda não foi decidido. Mas o que parece certo é que outros norte-coreanos ainda irão participar da guerra, ao lado da Rússia.

A importância política e econômica dos seus serviços para Pyongyang é imensa, mas Moscou também precisa deles desesperadamente. Quatro anos e meio depois da invasão da Ucrânia, a Rússia enfrenta imensa falta de combatentes.

Agências de inteligência ucranianas e ocidentais calculam que Moscou venha perdendo mensalmente cerca de 6 mil soldados a mais do que consegue recrutar. E, para preservar seu contingente, a Rússia foi forçada a , vindos da Colômbia, Quênia, Camarões e Coreia do Norte.

Para Moscou e Pyongyang, o relacionamento é mutuamente benéfico: uma coalizão que tem um preço.

Por isso, a Coreia do Norte continuará enviando seus soldados para lutar na guerra da Rússia, mas só enquanto a colaboração for lucrativa.