Produtor rural deixa a cidade e transforma terra do pai em negócio da família
Por Valeska Macedo, especial para a Gazeta do Povo
30/10/2026 às 20:50
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Quando Victor da Silva Machado deixou Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, para morar no campo, o Rancho Chão Parado, em Jaraguari, ainda dava os primeiros passos. Dezessete anos depois, a chácara de 10 hectares se tornou uma das principais fontes de renda do produtor, com cultivo de hortaliças, criação de animais e aproveitamento de frutas do cerrado.
O trabalho, que começou como uma forma de dar continuidade ao projeto do pai, hoje também envolve os filhos e já tem planos para as próximas gerações.
A ida para o Assentamento Estrela, próximo à BR-262, mudou os planos de Victor, hoje com 48 anos. O pai, trabalhador rural, havia recebido um lote no local e queria construir a própria vida no campo. Morou na área por cerca de um ano, mas faleceu de câncer. Para não deixar a terra sem continuidade, o produtor assumiu a chácara e levou adiante o projeto do pai.
À Gazeta do Povo, Victor conta que também tinha o desejo de viver no campo, mas não imaginava que isso fosse acontecer tão cedo – o produtor foi morar na propriedade rural em 2009, com 31 anos. Até então, sua rotina era na cidade, onde trabalhava com pequenas reformas, pintura e serviços de elétrica.
No sítio, a pouca experiência vinha das vezes em que acompanhou o pai nas fazendas onde trabalhou. Com a mudança, precisou aprender a conduzir a própria propriedade e buscar formas de gerar renda.
“Significou demais para mim continuar o projeto do meu pai, porque ele queria morar na área rural. As coisas aconteceram muito rápido e foi muito boa a decisão de virmos para cá”, conta o produtor rural.
Um ano sem luz e dez anos até construir a própria casa
Em 2009, Victor se mudou para o assentamento com a esposa e os filhos. Na época, a família tinha uma poupança, mas o dinheiro acabou em um ano. A estrutura também era bastante diferente da atual: a primeira casa era de madeira e tinha apenas dois cômodos.
“Não foi fácil. Largamos tudo que tínhamos na cidade, no caso, o conforto. Não tinha nem energia quando viemos para cá. Ficamos um ano sem luz”, relata.
A propriedade também não tinha poço. A água vinha de uma nascente do assentamento e era usada pelos animais, enquanto a família precisava comprar água mineral para consumo. Cinco anos depois da mudança, Victor começou a construir uma casa maior, obra que se estendeu por dez anos.
A formação da estrutura atual também passou pelo plantio. Segundo Victor, todas as árvores que existem na propriedade foram plantadas pela família, entre palmeiras, coqueiros e árvores frutíferas. Ele estima já ter plantado mais de 3 mil árvores.
O próprio nome do negócio carrega uma referência ao início da propriedade. O “Rancho Chão Parado” surgiu de uma brincadeira com o pai, lembra Victor. Quando perguntava como estavam as coisas na chácara, ouvia como resposta: “O nome desse negócio é Chão Parado. Não tem movimento nenhum aqui, tudo parado”.
Da horta à diversificação com tilápia, porcos e carneiros
A primeira estratégia para gerar renda foi apostar nas hortaliças. Tomate, abobrinha, cheiro-verde e alface estavam entre os produtos cultivados pela família, que levava a produção para vender na cidade. Naquele período, Victor também começou a criar porcos.
Atualmente, ele mantém hortaliças, mas em menor escala, e implantou um sistema hidropônico. Segundo ele, a estrutura permite produzir, em média, mil pés de alface por mês. Dependendo do período, a produção é dividida com outras culturas, como o agrião.
Além das hortaliças, o Rancho Chão Parado tem criação de 15 carneiros, dois porcos e 2 mil tilápias. Parte da área é destinada à pastagem. Uma vez por ano, o produtor rural também coleta frutas do cerrado para produzir licor, vendido na feira de agricultura familiar no fim do ano.
Apesar da diversificação, as hortaliças são o principal produto na geração de renda da família. A comercialização também mudou: no início, Victor precisava ir até a cidade atrás de pequenos mercados e clientes. Agora, ele aproveita o mercado existente na própria região rural. Segundo ele, há cerca de 300 propriedades na área, além de uma feira de agricultura familiar realizada aos domingos.
Mão de obra familiar
Victor e a esposa, Ana Paula, são a principal mão de obra da propriedade. O produtor concentra o trabalho no manejo dos animais, na alimentação, nas cercas e na manutenção da propriedade. A esposa cuida das atividades domésticas e também participa do trabalho rural quando necessário.
A filha mais velha, Joianne, continua morando na propriedade, e o caçula, João Victor Pereira Machado, de 19 anos, trabalha em uma empresa de reflorestamento e ajuda no rancho principalmente aos fins de semana.
João começou a trabalhar com o pai aos 13 anos. Para ele, a rotina no campo foi parte importante da infância e também da formação profissional. “O serviço tem que ser realizado todo dia e não pode procrastinar. Depende de você estar ali, envolvido diariamente”, conta.
Além de contribuir com as despesas, João já pensa em continuar a atividade rural no futuro. “Eu pretendo seguir trabalhando no sítio. Aqui é o lugar onde eu cresci e o que eu mais dou valor. Quero seguir os passos do meu pai, conseguir gerar renda e deixar as manutenções em dia”, destaca.
Victor conta que a filha decidiu permanecer na propriedade mesmo depois de se casar e que os dois filhos já conversaram sobre a possibilidade de assumir o negócio no futuro. João, por exemplo, pretende juntar dinheiro com o trabalho atual para investir na chácara.
A atividade também passou a contar com o apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) do MS. Victor já produzia hortaliças antes da assistência, mas precisava adquirir conhecimento sobre atividades como o controle de pragas.
A família também recebe assistência na ovinocultura. O produtor rural conta que tem estrutura para embarcar os carneiros e comercializa os animais para um frigorífico que realiza a compra. Para o produtor, o apoio chegou em um momento importante da atividade.
“Quando nós viemos para cá tivemos que aprender a plantar, criar animais e cultivar. Mas tivemos um parceiro do nosso lado, o Senar.”
Planos para o futuro
A família já tem novos planos para ampliar as possibilidades de geração de renda. Como os produtores já trabalham com produção de alimentos e gostam de cozinhar, Victor pretende começar a vender peixe frito nos fins de semana e receber pessoas da cidade para passar o período na propriedade, oferecendo também carneiro assado.
A ideia ainda divide espaço com investimentos na própria estrutura produtiva. Entre os planos, está reformar a pastagem e cercar o perímetro da propriedade com tela para evitar a fuga dos animais.
Enquanto pensa nos próximos passos, o produtor rural vê no trabalho construído ao longo de 17 anos uma atividade capaz de manter a família no campo. “A propriedade representa uma renda que dá para a gente sobreviver bem aqui”, afirma.
Já para João, a continuidade do negócio também passa pelo reconhecimento do que foi construído pelo pai desde a chegada ao assentamento. “Ver o que ele construiu me faz dar valor a tudo que tenho e ao que meu pai faz por mim e pela minha família. Quero ser igual a ele, alguém que persevera, corre atrás e quer sempre se aprimorar”, finaliza.
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