Quem será favorecido nas urnas com abstenções que podem passar de 30 milhões de eleitores

2 de Out de 2026 - 22:10
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Quem será favorecido nas urnas com abstenções que podem passar de 30 milhões de eleitores

Aproximadamente 30 milhões de eleitores podem deixar de votar no primeiro turno das eleições de 2026, caso a abstenção repita o patamar registrado em 2022. Em uma disputa acirrada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), esse contingente pode ser decisivo para o resultado do pleito do próximo domingo (4). Mas os analistas ouvidos pela reportagem divergem sobre qual dos candidatos tende a ser mais favorecido pela ausência desses eleitores nas urnas.

Para o cientista político Murilo Oliveira, há uma corrente de análise segundo a qual uma abstenção mais elevada poderia prejudicar Lula, beneficiando Flávio, porque parte do eleitorado petista ou de esquerda está concentrada em segmentos que historicamente apresentam taxas maiores de não comparecimento às urnas: idosos e pessoas com menor escolaridade. “O cenário é incerto, mas existe essa tendência de o mesmo perfil ir menos às urnas em 2026”, afirma.

Para o cientista político Gustavo Alves, uma base eleitoral mais mobilizada e engajada pode ser beneficiada quando cresce a ausência de eleitores menos motivados, o que poderia favorecer Flávio Bolsonaro. “Assim, antes mesmo de se conhecer a taxa efetiva de comparecimento, a abstenção se transforma em uma das principais variáveis para compreender a fotografia das urnas e de qual eleitor é mais fiel”, destaca.

Em contrapartida, o constitucionalista e comentarista político Alessandro Chiarottino tem outra análise. Na visão dele, uma taxa elevada de abstenção tende a favorecer Lula no atual cenário eleitoral. “Não tenho dúvida em dizer que as abstenções favoreceriam Lula”, afirma. Segundo ele, parte do eleitorado que deixará de votar pode estar concentrada no centro político neste ano, mais precisamente entre aqueles que poderiam votar em Flávio Bolsonaro.

Para ele, a depender do comportamento do eleitorado neste domingo, o número alto de abstenções pode contribuir para uma definição da disputa já no primeiro turno.

Além disso, Chiarottino considera preocupante o crescimento das abstenções entre uma eleição e outra e relaciona parte desse fenômeno ao ambiente de polarização política.

Já o analista político Leandro Gabiati, doutor em Ciência Política, avalia que uma abstenção acima do esperado pode ter impacto importante numa eleição competitiva, mas não acredita ser possível afirmar previamente que ela favoreça ou prejudique um candidato específico. “O ponto central não é apenas quantos eleitores deixam de votar, mas quem são esses eleitores e onde estão concentrados”.

Opinião semelhante tem o especialista em Direito Eleitoral Alexsander Beilner. Na avaliação dele, embora se trabalhe com a possibilidade de a abstenção crescer, isoladamente, esse dado não permitiria em sua análise determinar qual candidato seria beneficiado. “Quem decide efetivamente as eleições é quem comparece às urnas”, observa.

Beilner considera que as abstenções representam, naturalmente, o eleitor que opta por não participar da dinâmica eleitoral e que acaba aceitando o resultado produzido pelos que compareceram. Por isso, tecnicamente, não identifica um beneficiário direto ou flagrante da ausência às urnas. “Não vejo um beneficiário flagrante, mas sim um grande prejudicado, que é o próprio eleitor faltante”, afirma.

A interpretação de que a alta abstenção poderia favorecer Flávio

Existe uma linha de análise de que uma taxa elevada de abstenção poderia favorecer a oposição representada por Flávio Bolsonaro (PL), porque a ausência não seria distribuída de maneira uniforme entre os diferentes segmentos do eleitorado.

Gabiati avalia que existe a hipótese de que Lula possa estar mais exposto a uma abstenção concentrada nos segmentos socioeconômicos mais vulneráveis, justamente porque historicamente concentra a maior parte do voto dos eleitores de menor escolaridade e renda, que acabam sendo mais afetados pela dificuldade de mobilidade.

“Mas isso é uma hipótese dentro da composição total da abstenção, e não uma previsão de quem será favorecido. As pesquisas não têm como antecipar esse movimento”. O argumento se baseia principalmente no perfil socioeconômico dos eleitores que apresentam maior propensão histórica à abstenção.

E é isso que sustenta a avaliação de que uma abstenção maior poderia reduzir proporcionalmente a votação de Lula e, consequentemente, alterar a distribuição dos votos válidos entre os candidatos.

“Há cenários em que a abstenção poderia representar redução na votação de Lula, e a explicação está justamente na maior propensão histórica à ausência entre eleitores de baixa renda e escolaridade, segmentos nos quais Lula apresenta desempenho superior ao de Flávio”, reforça o constitucionalista André Marsiglia. 

O especialista destaca que se trata de uma estimativa sobre o possível descolamento entre intenção declarada e efetivamente depositado.

A hipótese de que uma abstenção maior beneficiaria Lula

Outra leitura de parte dos analistas considera que uma alta generalizada dos faltantes pode não necessariamente retirar votos de Lula em proporção maior que os de seu adversário.

Essa interpretação parte da hipótese de que o eleitorado lulista teria uma parcela identificada com o candidato e, por isso, estaria mais disposta a comparecer às urnas mesmo diante de fatores que poderiam estimular a ausência.

“Se a abstenção crescer entre eleitores menos mobilizados politicamente, vejo que votos dos segmentos mais engajados poderiam representar uma parcela maior do total de votos válidos, podendo favorecer Lula. O engajamento do seu eleitor poderia estimular a ir à votação”, avalia Rui São Pedro.

É uma hipótese que precisa, entretanto, ser diferenciada de uma conclusão sobre o resultado eleitoral. “Não há como determinar previamente qual eleitor deixará de votar e, portanto, qual candidatura será beneficiada apenas a partir da taxa nacional de abstenção, mas, se for o eleitor de centro, acredito que o impacto seja mais favorável a Lula”, descreve Chiarottino.

O fator demográfico por trás da discussão

Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a questão não seria apenas quantos eleitores faltarão, mas quem serão esses eleitores. Se a abstenção crescer de maneira proporcional entre os diferentes grupos, o impacto sobre a disputa tende a ser diferente daquele observado se o aumento estiver concentrado em segmentos específicos.

“Esse é um dos motivos pelos quais os institutos de pesquisa enfrentam dificuldades para estimar o chamado eleitor provável, aquele que declara intenção de voto e, ao mesmo tempo, apresenta maior probabilidade de comparecer”, lembra Rui São Pedro.

Ele argumenta que, no fim, quem pode definir a eleição serão os indecisos. “Os próprios institutos de pesquisa reconhecem que a abstenção representa um desafio metodológico e quem está indeciso pode definir o pleito”, completa.

Isso porque os institutos se baseiam em padrões históricos, mas uma mudança no comportamento pode produzir diferenças entre o que aparece nos levantamentos e o resultado das urnas. 

As pesquisas, isoladamente, não permitem transformar em previsão do resultado, porque, para analistas, além da margem de erro, existe uma diferença fundamental entre intenção de voto e voto efetivamente depositado. É justamente nessa distância que a abstenção ganha importância.

Uma diferença pequena entre candidaturas significa que alterações relativamente modestas na composição do eleitorado que comparece às urnas podem ter impacto sobre a distribuição final dos votos.

Uma eventual elevação da abstenção reduz o número absoluto de votos. Se essa redução atingir determinadas bases eleitorais mais do que outras, a composição percentual dos votos válidos também muda.

Por isso, alertam os especialistas, campanhas eleitorais acompanham a intenção de comparecimento com atenção especial nesses últimos dias. “Em uma disputa equilibrada, mobilização pode ser tão relevante quanto convencimento. Um eleitor que já decidiu seu candidato, mas não comparece, não transforma sua preferência declarada em voto”, lembra Blinder.

Também será necessário saber como esse percentual se distribuiu territorial e demograficamente. Uma abstenção nacional de 20%, por exemplo, pode ter consequências diferentes de outra taxa de 20% caso os eleitores ausentes estejam concentrados em grupos distintos. É por isso que os dados oficiais do TSE serão fundamentais à análise posterior.

“Base eleitoral mais fiel e mobilizada pode manter sua participação mesmo quando o comparecimento geral diminui. Nessa hipótese, a redução da participação de eleitores menos engajados pode alterar a composição dos votos válidos e temos visto duas bases bem engajadas e antagônicas”, avalia Alves. Ou seja, o perfil de quem deixará de votar pode modificar a fotografia final dos votos válidos.

158 milhões estão aptos a votar em 2026; 32 milhões não votaram em 2022

Neste ano, o Brasil tem quase 158,8 milhões de eleitores aptos a votar, segundo o TSE. “Se mantiver a abstenção da última eleição, isso representaria mais de 30 milhões. É muito eleitor para uma disputa tão acirrada”, afirma o economista e analista estatístico Rui São Pedro.

Para analistas, nas eleições de 2026, a ausência pode ser mais elevada entre eleitores de menor renda e escolaridade, homens e pessoas com 60 anos ou mais. Entre os eleitores com 70 anos ou mais, grupo para o qual o voto é facultativo, a abstenção se aproximou dos 60% na eleição anterior.

Em uma corrida eleitoral com elevada competitividade entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), Chiarottino salienta também que pode haver diferença entre o eleitor que declara preferência por um deles e aquele que efetivamente comparece para votar, e isso tem um peso no resultado do pleito.

Diante disso, pequenas diferenças de comparecimento podem ter consequências relevantes. “Por isso, a capacidade das campanhas de mobilizar seus próprios eleitores na véspera da eleição passa a ser tão importante quanto conquistar novos votos”, alerta Gabiati.

O ponto de partida para as projeções é a eleição anterior. No segundo turno de 2022, o TSE registrou pouco mais de 156,4 milhões de aptos a votar. Desse total, 124,2 milhões compareceram, enquanto 32 milhões não votaram. A taxa de abstenção foi de 20,59%. 

No primeiro turno daquele ano, a abstenção havia sido ainda maior: 20,95%. O histórico também chama atenção para diferenças significativas entre grupos demográficos.