Rejeição a data centers vira aposta de democratas em eleições nos EUA

19 de Set de 2026 - 12:30
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Rejeição a data centers vira aposta de democratas em eleições nos EUA

Nenhuma empresa anunciou planos para um centro de dados em Defiance, uma cidade de 17 mil habitantes cercada por plantações de soja no noroeste de Ohio, nos Estados Unidos.

Mas os moradores dessa comunidade não estão dispostos a correr riscos.

Após descobrirem que o grupo de desenvolvimento econômico do condado havia recebido consultas de empresas de tecnologia, os residentes passaram meses coletando assinaturas para uma proposta de emenda constitucional, que será votada em 3 de novembro, com o objetivo de proibir todos os centros de dados, exceto os menores.

Autoridades municipais anunciaram uma moratória de seis meses para a aprovação de novos projetos.

A luta em Defiance faz parte de uma reação política mais ampla em Ohio — e em todo o país — onde a crescente preocupação pública com a IA e a infraestrutura de computação em nuvem transformou a construção de centros de dados, antes uma história de sucesso econômico, em uma questão controversa nas eleições de meio de mandato.

Muitos na cidade já estavam preocupados com os impactos do desenvolvimento da IA nas terras agrícolas, na demanda por eletricidade e no consumo de água.

As preocupações aumentaram neste verão após a divulgação de registros fiscais estaduais que mostraram que Ohio deixou de arrecadar mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,2 bilhões) em receita de impostos sobre vendas devido a incentivos para data centers em 2024 e 2025, beneficiando empresas como Amazon e Meta.

Cerca de 71% dos habitantes de Ohio agora apoiariam uma proibição temporária da construção de novos data centers, de acordo com uma pesquisa de 31 de agosto da Bowling Green State University.

“A maioria das pessoas se sente explorada pelas grandes empresas”, disse Becca Rupp, fundadora da Citizens for Responsible Development – efiance.

A crescente onda de protestos contra data centers durante o período eleitoral abriu uma nova oportunidade para os candidatos democratas no Meio-Oeste rural dos EUA, onde eles têm enfrentado dificuldades para competir durante a presidência de Donald Trump.

Ohio é um dos poucos estados com disputas acirradas que devem decidir o controle do Congresso.

O governador republicano de Ohio, Mike DeWine, suspendeu novos pedidos de isenção fiscal para centros de dados enquanto aguarda reformas legislativas, mas os parlamentares estaduais não tomaram nenhuma providência antes do recesso de verão, deixando o futuro do desenvolvimento de IA em Ohio incerto — e propício a ataques políticos.

Conflito sobre incentivos fiscais

A deputada democrata Marcy Kaptur enfrenta uma das disputas de reeleição mais difíceis de sua carreira de quatro décadas no Congresso, em um distrito recém-redesenhado que inclui Defiance e outras áreas rurais conservadoras.

Ela tem apostado fortemente em uma estratégia de comunicação focada na questão dos centros de dados, veiculando anúncios de televisão que acusam seu oponente republicano, Derek Merrin, de apoiar incentivos fiscais impopulares.

Em um comunicado, Kaptur associou os centros de dados ao aumento dos custos de serviços públicos e a preocupações mais amplas sobre a influência corporativa.

“Políticos estão permitindo que essas empresas repassem os custos de suas enormes demandas de energia e serviços públicos aos consumidores de Ohio e, em seguida, concedem-lhes bilhões em isenções fiscais para tornar o negócio mais atraente”, disse ela.

As contas de eletricidade residencial em Defiance subiram entre 10% e 15% em junho em relação ao ano anterior, segundo a concessionária FirstEnergy.

Merrin não respondeu aos pedidos de comentário.

Em uma publicação no Facebook na semana passada, ele afirmou que Kaptur estava “me culpando por uma isenção fiscal para centros de dados que foi aprovada ANTES mesmo de eu ser eleito para a legislatura de Ohio”.

A questão também ganhou destaque na disputa pelo Senado dos EUA no estado — uma corrida muito acompanhada — que coloca frente a frente o republicano Jon Husted e o senador democrata Sherrod Brown (que busca a reeleição).

Com pesquisas recentes mostrando Brown à frente, grupos republicanos investiram US$ 14 milhões em publicidade em Ohio apenas na última semana, na esperança de aumentar as chances de Husted.

Brown tem criticado repetidamente seu oponente por promover o desenvolvimento de infraestrutura de IA e incentivos fiscais, descrevendo-o como o “melhor amigo dos centros de dados”.

“Os habitantes de Ohio, e não Jon Husted e seus amigos bilionários, devem decidir se centros de dados serão construídos em suas comunidades”, afirmou a campanha de Brown em um comunicado.

A campanha de Husted rejeitou as críticas, ressaltando que ele patrocinou uma legislação que exigiria que as operadoras de centros de dados arcassem com os custos de construção de novas capacidades de geração e transmissão de eletricidade.

“Sherrod Brown teve três décadas no Congresso para liderar essa questão”, disse a porta-voz da campanha, Amy Natoce, em um comunicado. “Em vez disso, ele não fez nada e, de repente, finge se importar em pleno ano eleitoral.”

Divulgação de subsídio fiscal mobiliza ativistas

Lyn Cox, líder da organização de defesa local Conserve Ohio, afirmou que a divulgação da dimensão dos subsídios fiscais transformou o que antes era uma série de disputas isoladas sobre zoneamento em uma questão política de âmbito estadual.

“Acho que foi um grande ponto de virada”, disse Cox, que mora na área rural de Waterville Township, a cerca de 64 km de Defiance.

Ela relatou que candidatos de ambos os partidos foram forçados a dialogar com ativistas e a elaborar políticas formais sobre o desenvolvimento de centros de dados.

O candidato republicano ao governo, Vivek Ramaswamy — que anteriormente havia manifestado apoio à atração de investimentos em tecnologia —, divulgou uma proposta para centros de dados chamada “Ohioans First” (habitantes de Ohio em primeiro lugar).

A medida eliminaria abatimentos locais de impostos sobre a propriedade para esses centros, direcionaria receitas para descontos aos proprietários de residências e exigiria que os projetos arcassem com os custos adicionais de eletricidade para as casas.

Sua oponente, a democrata Amy Acton, propôs restringir incentivos fiscais, exigir que os desenvolvedores paguem pela própria infraestrutura de energia e tornar obrigatórios padrões trabalhistas sindicais.

Ambos os candidatos também defenderam a limitação de construções em terras agrícolas produtivas.

Cox mantém-se cética em relação às promessas de campanha de ambos os partidos.

“São apenas palavras”, disse ela. “Ambos criaram uma política porque estão começando a entender que essa é uma questão que estava latente, mas que ganha força silenciosamente.”

A Conserve Ohio busca aprovar uma emenda à constituição estadual em 2027 que proibiria a construção de centros de dados que consumam mais de 25 megawatts de energia, ao mesmo tempo em que apoia iniciativas locais semelhantes em todo o estado.

Ativistas também pressionam por mais transparência por parte das autoridades estaduais, que não divulgaram quanto em receita os governos locais deixaram de arrecadar devido aos seus próprios acordos fiscais com operadores de centros de dados.

As empresas que impulsionam o “boom” da IA ​​defenderam suas trajetórias.

A Amazon afirma ter investido quase US$ 40 bilhões (aproximadamente R$ 205,6 bilhões) em Ohio desde 2015; a Meta aponta investimentos de mais de US$ 2,3 bilhões (cerca de R$ 11,7 bilhões) no estado desde 2018.

Ambas as empresas dizem que suas instalações geraram receitas fiscais, empregos e outros benefícios de desenvolvimento econômico.

Para moradores como Rupp, no entanto, o debate agora vai além dos centros de dados — trata-se de saber se os representantes eleitos estão dispostos a defender o interesse público frente às gigantes da tecnologia.

“Há, sem dúvida, uma ruptura entre o que o governo deveria ter feito pela ‘América das pequenas cidades’ e o que ele falhou em fazer por ela”, disse ela. “Acredito que os centros de dados estão no centro dessa questão.”

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