Saída de Flávio do Brasil com ação de agentes internacionais é linha de investigação da PF
A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasilpode ser interpretada, na avaliação de especialistas em segurança, como uma operação de "extração internacional". Essa também é uma das linhas de investigação do relatório que a Polícia Federal está fazendo sobre a saída do senador do Brasil com destino aos Estados Unidos após o segundo turno da eleição presidencial.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou que o governo americano tenha participado da saída de Flávio do Brasil e disse que ele pôde entrar no país por ter um visto válido. Já o advogado mexicano Simón Levy, próximo do presidente Trump, disse que uma operação teria sido arquitetada por Rubio. Ele disse que o episódio foi chamado de "Operação Alba".
O especialista em segurança e investigador aposentado das forças federais na fronteira sul, Sérgio Gomes, explica que extração organizada é uma operação previamente planejada para retirar uma pessoa de determinado local ou país de forma coordenada, com logística, transporte, intermediários e definição de rotas e destino. “Há indícios de que pode ter acontecido isso com Flávio”, afirma.
Dependendo do contexto, explica Gomes, a ação pode envolver o uso de veículos, aeronaves, empresas de transporte e contatos locais para facilitar o deslocamento, reduzir a exposição pública e evitar possíveis obstáculos. “Sobre a hipótese levantada sobre Flávio, o termo se refere à suspeita de que sua saída do Brasil não teria sido apenas uma viagem particular, mas resultado de uma articulação prévia para viabilizar sua retirada do país”, segue.
O veterano das forças especiais Fernando Montenegro, em análise divulgada em seu perfil nas redes sociais Kid Preto, também identifica possíveis características de uma retirada planejada, ao considerar etapas terrestres e aéreas, uso de transporte privado, intermediários e mecanismos de dissimulação. "Eu garanto a vocês que não existe improviso quando se fura o bloqueio de vigilância de um Estado soberano como o Brasil", afirmou Montenegro na publicação.
O especialista descreve o cenário como uma “recuperação assistida não convencional”: uma operação organizada para retirar alguém de determinado território em circunstâncias de risco ou restrição.
Segundo ele, os responsáveis pela operação fizeram uma "finta tática", fazendo a inteligência brasileira olhar para o lado errado para que Flávio pudesse cruzar a fronteira em segurança, fazendo movimentações falsas de veículos e fazendo declarações públicas de forma estratégica.
Ela fala ainda em uso de forças não oficiais, como membros da divisão terrestre e outras unidades da CIA ou veteranos da força Delta com contratos privados para criar uma negabilidade plausível. Tudo pode ter sido preparado com meses de antecedência.
A hipótese levantada pelos especialistas chama atenção porque a viagem ocorreu depois de o senador ser submetido a medidas cautelares que incluíam a proibição de deixar o país e a entrega de passaportes. As decisões partiram do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Flávio chegou aos Estados Unidos acompanhado de familiares após um percurso internacional cuja primeira parte, dentro do Brasil, ainda não foi inteiramente esclarecida. O senador não é foragido e não há condenações contra ele no Brasil.
Por ora, as análises de Montenegro e Gomes não apresentam documentos, dados de radar, registros completos de voo ou testemunhos que comprovem a existência de um plano com esse nome. Mas ambos apontam fortes indícios conectando elementos conhecidos da viagem a conceitos de inteligência, segurança e operações encobertas. “É justamente a diferença entre a hipótese e os fatos que torna o caso um destaque e pode se tratar de uma extração”, explica Gomes.
Além dessa hipótese, a PF investiga as circunstâncias da saída do senador do Brasil, o possível descumprimento das determinações judiciais e a participação de terceiros na logística. A corporação quer estabelecer como o senador saiu de Brasília, chegou à fronteira argentina e embarcou no avião que o levou aos EUA.
Também tenta identificar quem contratou os serviços de transporte e quem financiou os deslocamentos. “Muito disso tem característica específica de uma operação coordenada para retirada do parlamentar do Brasil”, completa Gomes.
Uma possível operação em etapas
Tanto Gomes quanto Montenegro avaliam que a viagem apresenta características compatíveis a extração organizada com deslocamento dividido em etapas, com alternativas de transporte e pontos de encontro que dificultassem identificação do trajeto. “Isso por si só não é ilegal”, explica Gomes.
Entre elementos que Montenegro associa à possível operação estão: travessia terrestre pela região de Foz do Iguaçu, passagem pela Ponte Tancredo Neves, ligando Brasil à Argentina, utilização de jatos executivos e participação de agentes privados.
Segundo ele, a “finta tática” foi uma estratégia para produzir informações contraditórias sobre o percurso e dispersar autoridades. O material do especialista cita destinos alternativos, movimentações de veículos e possíveis pistas falsas plantadas para confundir a Polícia Federal.
Vale destacar que, por enquanto, não há comprovação de que reservas de voos tenham sido falsificadas, que veículos tenham sido empregados deliberadamente ou de que tenha existido uma estratégia coordenada de desinformação.
Três registros na Argentina em menos de 40 minutos
Uma das frentes na reconstrução da viagem está em registros migratórios argentinos. Documentos apresentados pelo programa Fantástico, da Globo, no domingo (1º), confirmados pela Gazeta do Povo, indicam três entradas atribuídas a Flávio na Argentina em menos de uma hora na terça-feira (27).
Uma das hipóteses é de que Flávio tenha chegado a Porto Iguaçu (Argentina) de avião, vindo de Buenos Aires, e então aguardou a chegada da família, esposa e duas filhas.
A investigação também precisa considerar uma particularidade da fronteira, lembra Gomes. Enquanto o sistema argentino registra a passagem de pessoas, a aduana brasileira entre Foz e Porto Iguaçu não segue o mesmo procedimento.
Assim, a ausência de um roteiro brasileiro definido não permitiria determinar o caminho percorrido pelo senador.
Duas vans e um israelense
Registros argentinos apontam que duas vans da mesma empresa de turismo atravessaram a fronteira em direção à Argentina. Uma associada à passagem da esposa e das filhas de Flávio. O senador consta em registros relacionados ao veículo, embora essa hipótese esteja praticamente descartada pela polícia.
A outra van cruzou a fronteira sete minutos antes com motorista, um advogado que atuou anteriormente para o ex-presidente Jair Bolsonaro e um israelense, ex-integrante do serviço de inteligência de Israel.
O israelense entrou no Brasil em outubro pelo Aeroporto de Guarulhos (SP). A presença dele está entre os pontos de interesse na reconstrução do percurso.
Ainda não seria possível precisar se ele atuou na segurança ou em uma operação de extração, mas a hipótese não é descartada.
A PF tenta identificar a presença dele no Brasil e as relações com os demais passageiros.
De Brasília à fronteira e as lacunas
Uma das versões sob análise aponta que o senador teria deixado Brasília às 5h05 de terça (27), em um jato do advogado e amigo Willer Tomaz. A aeronave teria pousado às 8h40 em San Fernando, região de Buenos Aires. Dali, o senador teria seguido em outro avião particular para Porto Iguaçu, onde aguardou a família.
Isso será analisado em registros de voo, identificação dos passageiros, operadores e eventual troca de aeronave antes da chegada à fronteira.
Tomaz negou que sua aeronave ou de empresas vinculadas a ele tenha sido utilizada por Flávio ou familiares para deixar o Brasil.
A hipótese de rota terrestre também é uma possibilidade avaliada pela PF que apura se Flávio e a família fizeram o percurso, de cerca de 1.600 quilômetros, via terrestre, de Brasília à fronteira com a Argentina.
Jato e um pagador desconhecido
O trecho internacional é mais evidente, realizado em um Gulfstream G400 da argentina Baires Fly com escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para a Flórida na manhã de quarta (28), onde pousou no aeroporto de Opa-Locka, na região de Miami.
A companhia disse à Agence France-Presse (AFP) que o voo custou US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil). O pagamento foi feito por um intermediário de aviação nos EUA, com transferência de conta empresarial americana para um banco argentino. A empresa declarou não saber quem era o contratante final.
A imprensa americana apontou Jason Miller, assessor de Donald Trump, como possível responsável por providenciar a viagem. A imprensa argentina mencionara a presença de agentes americanos e de segurança argentina no aeroporto de Porto Iguaçu para apoio à saída de Flávio.
Mas o secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou que o governo Trumptenha participado. Rubio disse que Flávio tinha visto e a presidência americana autorizou sua entrada.
Preservação de imagens de segurança
A Justiça argentina determinou a preservação de imagens de câmeras da fronteira e do aeroporto de Porto Iguaçu para ajudar a identificar veículos naquela noite, passageiros no terminal e acompanhamentos.
A imprensa argentina mencionou a existência de comitiva no aeroporto e circulação de veículos de segurança, incluindo uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária. Entre os veículos, um teria placa diplomática.
Fontes a par das apurações reforçam que não deve ser uma tarefa fácil essa análise conjunta, pois os governos da Argentina e dos EUA são oposição ao governo brasileiro e não devem colaborar.
“A preservação das imagens na Argentina seria importante porque permitiria confrontar relatos com registros objetivos”, descreve Gomes. Lá, opositores cobram Javier Milei sobre eventual participação ou facilitação à rota de viagem de Flávio.
Flávio fala em perseguição
Nos EUA, Flávio divulgou uma “Nota ao Brasil”. Afirmou que decidiu deixar o país diante do que considera perseguição política e questionou medidas judiciais após o resultado eleitoral.
“Não saí do Brasil, saí pelo Brasil!”, escreveu. Ele afirmou que a decisão de apreensão dos passaportes e impedimento de sair do Brasil, determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, ocorreu sete minutos após anúncio do resultado e que foi intimado 12 horas depois, ao deixar a residência do pai, Jair Bolsonaro.
Flávio prometeu uma série de entrevistas a partir desta semana. Sua defesa rejeita o deslocamento como “fuga”. A viagem não comprova crimes contra Flávio.
Ele é investigado em dois inquéritos no STF e o objeto específico da apuração sobre sua saída do país é esclarecer as circunstâncias do deslocamento e eventual descumprimento das medidas cautelares.
O que a PF busca
Fontes a par das apurações avaliam que, para sustentar a hipótese de uma operação previamente planejada, seria necessário identificar elementos que demonstrem coordenação entre envolvidos, comunicações, contratos, pagamentos, registros de deslocamento, planejamento logístico e depoimentos independentes.
Especialistas interpretam a sequência como potencialmente compatível com extração organizada. A PF ainda precisa demonstrar o que efetivamente ocorreu, identificar envolvidos e se houve violação das determinações judiciais.
Flávio não é foragido e não há condenações contra ele. O senador é alvo de duas investigações. Uma com Moraes e apura a ligação do senador com o advogado Willer Tomaz e a suposta lavagem de dinheiro a partir das bets. A outra, sob relatoria de André Mendonça, apura a destinação de recursos de Daniel Vorcaro ao financiamento do filme Dark Horse, que conta a história de Jair Bolsonaro. Até o momento, não há pedidos de indiciamentos. Flávio não é réu.
Semana passada a defesa do senador pediu que Moraes seja declarado impedido de julgar o caso envolvendo o parlamentar e solicitou que a remessa seja encaminhada a Mendonça. Não há definição sobre o pedido enviado ao presidente do STF, Edson Fachin.