Street Fighter é um espetáculo divertido de ação — e não espere mais do que isso
O eterno confronto entre Street Fighter e Mortal Kombat alcançou um ringue diferente em 2026: as salas de cinema. Com um lançamento marcado para meses após a divertida jornada de Johnny Cage e companhia em , a expectativa e a pressão acerca do reboot de Ryu, Ken e Chun-Li sempre foram grandes. Será que o novo filme superaria a concorrência, ou o infame caso de 1994, com Van Damme, estaria fadado a se repetir? A resposta é que Street Fighter até consegue ofuscar o grande rival em termos de ação, mas acaba nocauteado por um roteiro limitado demais à sua dupla de protagonistas.
Isso é tão Camp!
Os visuais de Street Fighter são um deleite absoluto. Ambientado nos anos 90, o novo filme é o puro suco da estética Camp — brilhante, colorida e exagerada — no melhor sentido possível. Em tempos onde a saturação está cada vez mais tímida nos cinemas, é revigorante assistir a uma obra que não tem medo de brincar com o excesso, seja em explosões de cor, figurinos, cenários ou no próprio tom da trama.
Aliás, minha parte favorita do filme são, justamente, os figurinos. É difícil adaptar um universo como Street Fighter sem que o resultado pareça caricato (basta olhar para o topetão inabalável de Guile e imaginá-lo na vida real) e até barato. Felizmente, a figurinista Kym Barrett (também por trás de Matrix) e o time de cabelo e maquiagem fizeram um trabalho impecável aqui, replicando a estética de SF e seus peculiares personagens de uma forma refinada, mas sem perder a essência tão marcante da franquia. O topete de Guile continua absurdo, é claro, mas casa bem com o restante do filme.
As cenas de luta são outro ponto de destaque. O diretor Kitao Sakurai (que já havia se aventurado no universo das adaptações de games com alguns episódios de Twisted Metal) brinca muito bem com a construção da atmosfera nesses momentos, usando e abusando de artifícios como névoa e luzes neon para entregar combates visualmente interessantes e frenéticos à la John Wick. Isso, claro, coroado pelas coreografias de alto nível dos combates. Anthony Rinna, Brayden Rodrigues e Jon Valera, responsáveis pelas lutas e pela equipe de dublês, fizeram um ótimo trabalho.
Há também uma excelente surpresa logo no início do filme — e que se repete em outros momentos — que me conquistou completamente. Para que você tenha a chance de se maravilhar tanto quanto eu, não entrarei em detalhes, mas já adianto que não tem a ver com participações especiais ou easter eggs…
Um filme feito para Ryu e Ken
Ainda que o filme brilhe nas lutas, a superficialidade da história me fez sair da sessão com um sentimento agridoce. Para sermos justos, ninguém assiste a uma adaptação de Street Fighter esperando um show de profundidade. Os fãs querem ação, combates alucinantes e ver seus personagens favoritos em carne e osso. Mas nada disso consegue mascarar o fato de que, com exceção de Ryu e Ken, cada personagem que vemos aqui é um mero artifício para servir à trama que envolve a dupla. E digo que a ação acentua ainda mais esse desequilíbrio: nos dá um gostinho do potencial de cada figura vista nas quase duas horas de filme, mas nunca vai muito além disso.
E é uma pena, já que o elenco — que inclui Noah Centineo (Ken), Andrew Koji (Ryu), Callina Liang (Chun-Li), David Dastmalchian (M. Bison), Cody Rhodes (Guile) e até 50 Cent (Balrog) — claramente se entregou de corpo e alma à excentricidade deliciosa de SF, mas não teve o espaço que merecia. E não é como se não houvesse algumas cenas sem propósito que poderiam muito bem ter ficado de fora para dar lugar ao desenvolvimento de outros personagens…
MK2 pode até estar ligeiramente abaixo em termos de ação, mas, pelo menos, conseguiu dar espaço a cada um dos personagens que escolheu trazer à história — ainda que ela também seja simples.
Fica evidente em cada cena e detalhe que Street Fighter foi feito com carinho por fãs da franquia. E, se acontecer com esse universo o mesmo que com Mortal Kombat, é provável que estejam planejando mais filmes para expandir a história (o próprio final já deixa isso encaminhado). Mas é decepcionante perceber que algo bem melhor poderia ter sido entregue já desta vez: primeiro, eles testam a temperatura da água, e só então mergulham de cabeça — se as bilheterias permitirem…
O Veredicto
Com um lançamento marcado para meses após Mortal Kombat 2, a expectativa e a pressão acerca de Street Fighter sempre foram grandes. E o reboot até consegue ofuscar o grande rival em termos de ação, mas acaba nocauteado por um roteiro limitado demais à sua dupla de protagonistas.