2º turno: canal pró-Lula e programa "mudo" de Flávio mantêm TSE sob pressão
A menos de duas semanas do segundo turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) voltou a ser um campo de batalha entre as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).Nos próximos dias, a Corte precisa decidir o futuro do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, ao mesmo tempo em que apura o que fez um programa eleitoral de Flávio ser exibido sem áudio, nessa segunda-feira (12/10).Após a exibição do programa “mudo”, Flávio sugeriu que a falha poderia não ter sido acidental e contrapôs o problema à transmissão normal da propaganda de Lula.No entanto, não há qualquer elemento que relacione o governo Lula ou a campanha petista com o problema. O próprio TSE informou que houve um “problema técnico no Pool de Mídias” responsável pelos programas.Já Lula fez críticas sobre a decisão do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, de derrubar o canal criado pelo deputado André Janones (Rede-MG) sobre a campanha de reeleição do petista.“Para ele [Nunes Marques] achar que ele tem que cortar [o canal de WhatsApp], tem que mostrar qual a ilegalidade que tem. O que não pode é o presidente da Suprema Corte eleitoral ter lado na política. O lado dele tem que ser o da igualdade de comportamento. Da igualdade de procedimento”, disse Lula, após participar de missa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, no Alvorada, na segunda.Retirada de postagens do arNa segunda, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, determinou que Flávio e aliados apagassem um vídeo que associava uma manifestante aparentemente usando drogas com o ato pró-Lula realizado na Avenida Paulista.A gravação, na verdade, havia sido feita em um protesto no Chile, realizado no sábado (10/10).Para o ministro, houve “grave manipulação por descontextualização”, com reutilização de uma imagem anterior para dar aparência de prova a um fato que não ocorreu naquele evento.O conteúdo foi postado em um canal criado pela campanha de Flávio. Segundo o magistrado, a liberdade de expressão dos candidatos não permite a disseminação de notícias falsas.O PT acionou a Corte contra Flávio, os deputados federais Rony Gabriel (Podemos-RS), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) e o empresário Pablo Marçal (PRTB-SP) pela divulgação do conteúdo.A representação acusa o candidato e os aliados citados de disseminar desinformação de “segunda geração”, difamação e propaganda eleitoral irregular por meio de vídeos manipulados.Canal de JanonesO “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), foi alvo de um pedido de suspensão da campanha de Flávio.Nunes Marques determinou a retirada do canal do ar no domingo (11/10), mas o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, restabeleceu o funcionamento horas depois e levou o caso ao plenário.A divergência se deu porque o pedido de suspensão já estava sob análise de Cueva em uma ação de investigação judicial eleitoral.Às 15h43 de sábado (10/10), o corregedor determinou a complementação das provas.Quarenta e um minutos depois, às 16h24, a campanha de Flávio apresentou à Presidência do TSE um novo pedido para retirar o mesmo canal do ar.Cueva escreveu que a sequência gerava “preocupação quanto à preservação da competência jurisdicional previamente estabelecida”.Nessa segunda, uma análise da área técnica do próprio TSE não encontrou, entre 2 e 11 de outubro, as fake news específicas apontadas pela campanha de Flávio.O relatório, no entanto, identificou “evidências de atuação coordenada e centralizada para inflar conteúdos digitais” e ressaltou que mensagens anteriores haviam sido apagadas, o que impede uma conclusão definitiva sobre todo o histórico do canal.O campo de Flávio também adotou a mesma ferramenta. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) criou a “Tropa do Flávio”, canal de WhatsApp que chegou a cerca de 1,4 milhão de seguidores.Programa “mudo”Horas depois, outro episódio levou a campanha de Flávio novamente ao TSE. O programa do candidato exibido por volta das 13h foi ao ar com imagem, mas sem áudio. A propaganda de Lula, transmitida na sequência, não apresentou falhas no som.Flávio aproveitou o episódio para questionar publicamente nas redes sociais se a falha teria sido acidental.“Você acredita em coincidência? Cara, não. Não acredito, não existe coincidência”, afirmou. Depois, disse: “Eles acham que vão calar minha voz”.O candidato, contudo, não apresentou provas de interferência política na transmissão. O TSE informou depois que, durante a finalização, os áudios das duas campanhas não foram carregados.O problema foi corrigido antes da propaganda de Lula, e o programa de Flávio será reexibido.A Abert e a Associação Brasileira de Televisões e Rádios Legislativas (Astral) também disseram que o arquivo enviado pela campanha de Flávio chegou em “perfeitas condições” e que a falha ocorreu no processamento da mídia.A ocorrência foi comunicada ao TSE, que mantém a apuração para esclarecer todos os passos do erro.EBC não provocou a falhaA EBC, vinculada ao Ministério das Comunicações, veio à público informar que não teve participação no erro que fez a propaganda de Flávio ser exibida sem som.Por meio de nota, a estatal afirmou que “toda a operação de exibição da propaganda presidencial é de responsabilidade do pool de emissoras”, formado pelas emissoras de rádio e televisão e organizado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), nos termos do art. 64 da Resolução TSE nº 23.610/2019.A EBC informou que não tem acesso antecipado aos arquivos enviados pelas campanhas. “Somente o pool tem acesso à mídia e faz a conferência do material. Por razões de segurança da informação, as emissoras não recebem os arquivos com antecedência. A EBC não tem acesso aos arquivos das campanhas e, portanto, não tem meios de interferir no áudio ou em qualquer outro elemento da propaganda”, ressaltou.