A Apple cabe em um organograma mais enxuto?

1 de Nov de 2026 - 11:40
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A Apple cabe em um organograma mais enxuto?

Em menos de um mês, a engenharia de hardware da Apple dispensou vários gerentes de programa, entre eles cerca de meia dúzia de diretores. A informação é da Bloomberg, publicada no dia 29 de setembro.

Esses profissionais receberam algumas semanas para encontrar outra vaga dentro da empresa, e quem não conseguir deverá sair até o fim do ano. Novos cortes são esperados. A mesma reportagem diz que John Ternus, CEO 1Chief executive officer, ou diretor executivo. desde 1º de setembro, quer eliminar parte dos cargos de gerência para reduzir as camadas entre os engenheiros e a alta liderança, depender menos do calendário tradicional de lançamentos e colocar produtos na rua mais depressa.

A Apple não comentou o assunto, claro, e tudo o que se sabe vem de fontes ouvidas pela Bloomberg. Ainda assim, para uma empresa de cerca de 166 mil funcionários que quase nunca fala em cortes, a mudança de tom chama atenção.

O que mais interessa nessa história é o tipo de cargo atingido. A Apple tem um organograma diferente de quase todas as empresas do seu tamanho, e os gerentes de programa cumprem nele uma função específica: coordenar áreas que, pelo desenho da empresa, só se encontram no topo.

Uma empresa, um resultado

Em 2020, Joel Podolny e Morten Hansen publicaram na Harvard Business Review o artigo “How Apple Is Organized for Innovation”, que segue entre as descrições públicas mais detalhadas de como a empresa se organiza (Podolny foi reitor da Apple University, a escola interna de gestão da companhia).

O texto começa em 1997. Ao voltar à Apple, Steve Jobs encontrou uma empresa dividida em unidades de negócio, cada uma com seu gerente geral e sua própria conta de lucros e perdas. Ele demitiu todos esses gerentes gerais no mesmo dia, passou a empresa inteira para uma única demonstração de resultados e juntou os departamentos de cada unidade em uma só organização funcional.

Já comentei por aqui que Jobs estava longe de ser um bom líder (não era esse o seu papel, e sim o de gênio), e uma demissão coletiva em um dia combina com essa avaliação. O desenho que começou nesse momento continua em uso quase 30 anos depois.

A maioria das grandes empresas faz o caminho inverso. À medida que cresce, divide-se por produto ou por região, e cada divisão ganha um executivo responsável pelo próprio resultado. Na Apple, os vice-presidentes seniores respondem por funções (design, engenharia de hardware, software, operações, marketing, etc.). Não existe um “presidente do iPhone” com orçamento próprio. Segundo os autores, a única posição do organograma em que design, engenharia, operações, marketing e varejo de um produto se encontram é a do CEO.

Podolny e Hansen descrevem a Apple como uma empresa em que especialistas lideram especialistas. Quem decide sobre câmeras é quem mais entende de câmeras. Para isso funcionar, eles apontam três exigências feitas aos líderes:

  1. Domínio técnico profundo da própria área;
  2. Imersão nos detalhes;
  3. Disposição para debater com as outras funções na hora das decisões coletivas.

O modelo resistiu a um crescimento enorme. Em 1997, a Apple tinha 8 mil funcionários e receita de US$7 bilhões; em 2019, eram 137 mil pessoas e US$260 bilhões.

Alguém tem que juntar as peças

Henry Mintzberg, em “Criando Organizações Eficazes”, ajuda a entender por que esse desenho é raro. Para ele, existem basicamente duas formas de agrupar pessoas em uma organização: por função ou por mercado. O agrupamento por função concentra competência e evita duplicação de esforço. O custo é a coordenação entre as áreas, já que nenhuma delas enxerga o produto inteiro. Por isso, empresas grandes e diversificadas costumam migrar para o que ele chama de forma “divisionalizada”, em que cada divisão cuida do próprio mercado e os gerentes intermediários ganham força.

Quem insiste na estrutura funcional precisa resolver a coordenação de outro jeito. Mintzberg chama esses recursos de mecanismos de ligação, entre eles as forças-tarefa, os comitês permanentes e os gerentes integradores. O gerente de programa de engenharia da Apple se encaixa bem nessa última categoria. Cabe a ele fazer com que chip, câmera, bateria e software, cada um a cargo de uma área diferente, fiquem prontos na mesma data.

O artigo da Harvard Business Review traz dados que ajudam a medir esse trabalho. Entre 2006 e 2019, o quadro de funcionários da Apple cresceu cerca de 8 vezes, enquanto o número de vice-presidentes só dobrou, de 50 para 96. Alguém teve de absorver a coordenação adicional. O artigo não diz quem, mas é razoável supor que parte dela tenha ficado com as camadas que agora estão sendo revistas.

Prós e contras

Camadas de coordenação tendem a se multiplicar. Cada nível colocado entre o engenheiro e quem decide aumenta o tempo de resposta e filtra a informação que sobe. Se a proposta da empresa é ter especialistas liderando especialistas, faz pouco sentido obrigar o especialista a atravessar vários intermediários para ser ouvido.

Ternus também tem o perfil que o modelo exige. É engenheiro, fez carreira na engenharia de hardware e conhece os produtos em detalhe. Uma fonte interna citada na cobertura da Bloomberg disse que tudo ficou muito mais “mão na massa” do que costumava ser, e que o ambiente está agitado. A intenção de lançar mais rápido e experimentar mais responde também à crítica, frequente nos últimos anos, de que a Apple ficou lenta diante do avanço da inteligência artificial.

Por outro lado, é importante ter em mente que o trabalho de coordenação não desaparece com a saída de quem o fazia. Sem o gerente integrador, a tarefa sobe para os líderes das funções, de quem já se esperava conhecimento detalhado das suas próprias áreas. O mais interessante é que isso acontece em um momento de grande expansão de linhas de produtos: , , um novo MacBook Pro com tela sensível ao toque, além das atualizações do HomePod, da Apple TV e do iPad mini. Segundo a reportagem da Bloomberg, a lista de 2027 está ainda mais ousada, com os primeiros óculos inteligentes da Apple, AirPods com câmera e um iPhone redesenhado para os 20 anos do aparelho.

Nem todo corte avançou. A Apple chegou a estudar, no meio do ano, a eliminação de cerca de 5 mil postos de atendimento no AppleCare, com agentes de IA assumindo parte do trabalho, mas o plano foi deixado de lado. Fora a gerência de engenharia, os cortes relatados até agora são menores e atingem equipes da Siri, do Vision Pro, de software de IA e do Fitness+, além de projetos considerados menos essenciais.

Colocados lado a lado, os prós e contras mostram que a contradição de Ternus é aparente, mas depende de uma condição. Ele corta quem coordena justamente quando a empresa precisa de mais coordenação, e isso só faz sentido se a intenção for devolver essa tarefa a quem o modelo original a atribuía: os líderes das funções. Se esses líderes assumirem essa integração, a empresa fica mais próxima do modelo descrito por Podolny e Hansen. Caso contrário, as decisões tendem a se acumular na mesa do CEO. No design, elas já estão lá. Segundo Mark Gurman, as equipes de design industrial e de interface, que respondiam a Jeff Williams até a aposentadoria dele como diretor de operações, hoje têm Ternus como responsável final pelas decisões — ele passa pelo estúdio várias vezes por semana, diferentemente do que Tim Cook fazia.

No desenho descrito por Podolny e Hansen, a integração entre áreas acontece no debate entre líderes que dominam os detalhes da própria área. Vistos assim, os gerentes de programa foram uma resposta ao crescimento, uma solução que permitiu à Apple multiplicar o quadro sem multiplicar na mesma proporção os vice-presidentes. Quanto maior e mais diversificada a organização, maior a carga de coordenação, e a estrutura funcional só se sustenta enquanto alguém dá conta dela. Se os líderes das funções não conseguirem absorver o trabalho, restam duas alternativas: recriar os coordenadores com outro nome ou aproximar a empresa da organização por produto que Jobs desmontou em 1997.

Conclusão

A Apple cabe em um organograma mais enxuto, desde que a coordenação volte a fazer parte do trabalho de quem lidera cada função. Ternus parece apostar nisso, e o comportamento dele dá uma pista de como pretende fazer isso acontecer: passou a responder diretamente pelo design e vai ao estúdio várias vezes por semana, em um grau de envolvimento comparável ao de Jobs.

Mas nesse ponto, a aposta fica frágil. Jobs exercia esse tipo de presença em uma empresa menor e com uma linha de produtos mais curta. Se cada líder de função fizer o mesmo com a sua área, o modelo de Podolny e Hansen volta a operar como foi descrito. Se o envolvimento ficar concentrado no CEO, o corte de camadas apenas transfere a sobrecarga para a mesa dele, e os próximos lançamentos vão mostrar qual dos dois cenários prevalecerá.

Para os fãs da Apple, a pergunta que importa é: teremos avanços tecnológicos disruptivos com mais frequência? Já para os acionistas, a questão é outra: isso será sustentável financeiramente? O tempo (breve) responderá a ambas.

Referências

Carneiro, F. “Equipes de design da Apple deverão ser prioridades de John Ternus”. MacMagazine, 05/10/2026.
Gurman, M. “Apple’s John Ternus Leads Design; Touch-Screen OLED MacBook Pro Gets Lighter”. Bloomberg, newsletter Power On, 04/10/2026.
Gurman, M. “What Is Ternus’ Strategy for Apple? Running Faster and Leaner”. Bloomberg, 29/09/2026.
Mintzberg, H. “Criando organizações eficazes: estruturas em cinco configurações”. 2. ed. Atlas, 2008.
Podolny, J. M. e Hansen, M. T. “How Apple Is Organized for Innovation”. Harvard Business Review, nov-dez. 2020.
Ribeiro, L. G. “John Ternus quer lançar novos produtos mais rapidamente e eliminar gastos, aponta Mark Gurman”. MacMagazine, 29/09/2026.

Notas de rodapé

  • 1
    Chief executive officer, ou diretor executivo.