A crise de identidade que ameaça ambição dos democratas em eleição crucial para Trump
- Author, Asma Khalid
- Role, Programa "The Global Story", Serviço Mundial da BBC
- Published Há 1 hora
- Tempo de leitura: 12 min
James Stevens se autodenomina um socialista democrata.
Estudante de cinema com 24 anos, ele é o tipo de democrata que lembra um comentarista de esquerda americano provocador, Hasan Piker, seis anos atrás, "antes que ele ganhasse relevância na política".
No ano passado, Stevens saiu da sua casa no Estado da Geórgia para Nova York, para trabalhar na campanha do atual prefeito da cidade, .
Sua mãe, Tamara, tem 56 anos e também é fiel aos democratas. Mas ela é diferente.
Ela era republicana quando jovem e passou a ser democrata ao assistir ao ex-presidente Barack Obama no programa de Oprah Winfrey na TV.
Atualmente, ela é leal ao partido, defende os direitos reprodutivos, participa dos comícios de campanha e faz doações aos candidatos locais.
Mãe e filho desejam que os democratas conquistem o controle do Congresso, nas (midterms, em inglês) de terça-feira (3/11). Mas eles não estão totalmente de acordo em relação ao que desejam para o seu partido.
"Estou muito cansada de ver como os democratas são flexíveis quanto às políticas dos republicanos que não beneficiam um grande grupo de pessoas", conta Stevens, sob o olhar de sua mãe. "É preciso haver uma visão corajosa entre os democratas."
Ele acredita que o partido deveria adotar políticas defendidas pelos Socialistas Democratas da América (DSA, na sigla em inglês), um grupo dissidente de esquerda. Para ele, isso significa antissionismo, retirada do financiamento corporativo da política e saúde pública gratuita administrada pelo governo.
A visão convencional em Washington é que os democratas se encontram em posição favorável para assumir o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, até do Senado, nas eleições de 3 de novembro.
As condições estruturais favorecem o Partido Democrata. Afinal, o índice de aprovação do republicano encontra-se no mínimo histórico para um presidente em meio de mandato. É um nível comparável ao do ex-presidente George W. Bush em 2006, durante seu segundo mandato.
A ainda não acabou e está se mostrando impopular junto ao eleitorado americano. E o conflito gerou aumento dos preços da gasolina, o que vem decepcionando um eleitorado já .
Tradicionalmente, as midterms são um referendo sobre o presidente que está no poder. O partido do governo perdeu assentos na Câmara em 18 das últimas 20 eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
Ainda assim, apesar de todas estas circunstâncias, o Partido Democrata também é impopular em todo o país.
A média das pesquisas do portal Real Clear Politics mostra que o público americano considera os democratas apenas um pouco melhores que os republicanos. E pesquisas recentes concluíram que o Partido Democrata ainda detém saldo desfavorável na sua avaliação pelos cidadãos americanos.
Analistas políticos afirmam que, se os republicanos conseguirem contrariar as tendências e sobreviver às eleições de novembro com liderança no Congresso, um dos principais motivos será porque a maioria dos eleitores americanos também não aprecia o Partido Democrata (ou a marca dos democratas).
Por trás das manchetes sobre qual partido ou quais candidatos irão vencer na terça-feira, há também uma história sobre a identidade democrata levantada por esta eleição. Existe uma luta entre os institucionalistas e os reformistas — as pessoas que querem mudanças paulatinas e as que exigem transformações profundas.
A questão é: quem irá vencer no longo prazo?
O partido que não é de Trump?
Cobri todas as eleições nacionais americanas dos últimos 12 anos. E este é um pleito incomum.
Entrevistei eleitores antes das midterms de 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump, e fiquei surpresa com a união de muitos eleitores democratas, em sua oposição ao presidente.
Desta vez, percebi que, sob a fachada da união, há uma luta em andamento.
Existem questionamentos sistemáticos sobre o papel do Partido Democrata. E estas divisões surgiram durante as primárias desta campanha eleitoral.
"A identidade do partido é bastante nebulosa", segundo o pesquisador Ruy Teixeira, do centro de estudos de centro-direita Instituto Empresarial Americano.
"Ele está todo concentrado na reação ao governo Trump e aproveitando o que é uma reação termostática ao governo... Fora disso, existem todas essas facções diferentes no partido."
Parte do motivo desta luta interna entre os democratas é que o partido nunca teve a possibilidade de ter esta disputa durante a corrida presidencial de 2024, com a súbita desistência de Joe Biden, meses antes da eleição, e a nomeação de Kamala Harris como candidata.
Os analistas concordam que, se os democratas tiverem grandes vitórias nesta eleição, o partido não irá solucionar questões não resolvidas mais profundas. Eles tentarão se manter coesos para reunir votos no Congresso ou ficarão de olho na campanha presidencial de 2028.
De forma simplista, a divisão do partido se dá entre a sua ala centrista, mais moderada, e seu grupo mais à esquerda.
Mas operadores e analistas afirmam que existe também uma divisão entre os institucionalistas e aqueles que querem subverter totalmente a instituição existente. E os dois lados acreditam ter melhor leitura do que os eleitores realmente querem.
Usamah Andrabi, do proeminente grupo de esquerda Democratas pela Justiça, culpa o establishment democrata pela eleição de um Congresso e de um presidente republicanos.
"Por isso, acho que as pessoas que nos trouxeram a este caos simplesmente não serão os que nos tirarão dele", segundo Andrabi.
"A crise do custo de vida... é imensa e não será resolvida com ajustes marginais." Ele defende que ela será resolvida com políticas como assistência médica e à infância universal e redistribuição do dinheiro, reduzindo o orçamento do Pentágono para pôr fim ao que ele chama de "guerras sem fim".
Sua organização foi criada em 2017 para recrutar e apoiar os membros do Congresso que ficaram conhecidos como "o Esquadrão", a ala mais à esquerda da Câmara dos Representantes, que inclui membros como as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez e Ilhan Omar.
A assistência médica será um dos principais cenários onde esta luta provavelmente será travada, segundo Carrie Dann, editora da newsletter apartidária The Cook Political Report, que prevê a competitividade das campanhas.
"Existe muita disposição, pelo menos, para mais transparência, maior compreensão dos motivos por que os custos da assistência médica são tão altos", explica Dann.
"Basta dar um passo em falso, quebrar uma perna e uma imensa parcela dos americanos terão sua vida virada do avesso, devido ao formato atual do sistema de assistência médica."
Diversos candidatos democratas nesta eleição divulgaram ideias para reduzir os custos diretos para as pessoas que já possuem seguro-saúde. Arcar com custos adicionais além dos pagamentos regulares de seguro é algo comum no sistema de saúde dos Estados Unidos.
Mas existe uma outra ala do partido que está cansada de mudanças graduais e quer um sistema nacional de saúde pública com serviços gratuitos: o Medicare para Todos.
Pesquisas recentes indicam que a maioria dos democratas é a favor deste tipo de sistema de saúde, que sofre oposição da maior parte dos republicanos. Mas alguns democratas afirmam que existem nuances a serem discutidas.
"As pessoas querem ter assistência médica universal e também poder manter seu seguro-saúde", afirma Neera Tanden, ex-consultora de política doméstica de Joe Biden e, agora, CEO (diretora-executiva) do centro de estudos liberal Centro para o Progresso Americano.
Os democratas comuns reconhecem que muitos consideram que a assistência médica é um direito, mas insistem que outras pessoas se opõem firmemente a um programa que seja totalmente gerido pelo governo. Elas receiam que os padrões de assistência sejam inferiores e defendem a opção de manter seu seguro-saúde particular.
Os custos de assistência médica subiram em toda a cadeia de serviços. O seguro-saúde, os gastos diretos, as despesas hospitalares e os preços dos remédios receitados dispararam nos últimos anos, acima dos índices de inflação.
Com o aumento das despesas médicas, pesquisas indicam que a ideia de saúde pública universal não é algo tão extravagante nos Estados Unidos como no passado. E esta campanha mostra que a defesa aberta deste sistema, por parte dos políticos, passou a ser um tabu muito menor.
Na Geórgia, Tamara e James Stevens estão de acordo nesta questão. Ambos querem saúde pública universal.
Mas sua principal discordância é em relação a . Tamara se denomina sionista.
"Meus filhos ficam malucos comigo quando digo isso", ela conta. E eles estão longe de serem os únicos democratas a discutir esta questão.
Para Dann, do The Cook Political Report, uma das maiores lições deste ciclo eleitoral é que os eleitores democratas não procuram apenas candidatos que possam desafiar Trump. Eles desejam candidatos dispostos a enfrentar o establishment.
Ela indica o importante Estado-pêndulo de Michigan. Nas primárias locais, Abdul El-Sayed (crítico ferrenho de Israel e de suas ações na Faixa de Gaza) venceu as objeções do establishment democrata.
"Acho que uma razão foi porque ele não falava apenas em enfrentar Donald Trump, mas o establishment democrata... o establishment de Washington como um todo", explica ela.
E parte deste posicionamento contra o establishment tem relação com o apoio americano a Israel.
A questão de Israel
As pessoas que saíram do partido em 2024 por acreditarem que Biden apoiava demais as ações de Israel em Gaza, agora, estão retornando, incentivadas pelo tom firme de El-Sayed.
"Minha linha vermelha tem sido Gaza", afirma a ativista árabe-americana Samraa Luqman, de Michigan. Ela votou em Trump na última eleição presidencial, por ter se sentido traída pelos democratas naquele ano.
"2023 e 2024 realmente ensinaram a esta comunidade uma lição de que não queremos mais ficar em cima do muro sobre esta questão. É Gaza ou nada", declarou ela.
"Se você não for bom sobre Gaza, Israel e a Palestina, não precisamos de você. Não precisamos de você no poder e não precisamos votar em você, não importa qual seja a sua filiação partidária."
Mas, da mesma forma que estimulou alguns eleitores, El-Sayed também afastou outros, particularmente os que consideram que o apoio a Israel estaria relacionado à segurança dos judeus nos Estados Unidos.
Estes eleitores acreditam que o antissemitismo no seu partido aumentou, depois dos ataques mortais do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Zach Nessel é um desses democratas. Ele receia cada vez mais que pode acabar ficando politicamente sem partido.
"Temos pessoas que acham que os sionistas não devem ter lugar no nosso partido, que devem ser expulsos", conta ele. "E, como sou sionista com orgulho, não quero ser expulso da coalizão democrata por esta única questão do Oriente Médio."
O apoio a Israel passou a ser uma prova de fogo em algumas eleições primárias dos democratas nesta campanha eleitoral. A questão fez crescer a resistência ao antigo e influente grupo de lobbyistas Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (Aipac, na sigla em inglês).
Teste ideológico
Mas Dann conta que Israel não a única prova de fogo. A campanha de El-Sayed, também.
"A teoria de Abdul El-Sayed é que ele pode concorrer como progressista inabalável em um Estado-pêndulo e vencer, porque as ideias progressistas não são apenas populares quando comunicadas corretamente, mas também estimulam os eleitores que não fazem necessariamente parte normal do processo político, particularmente os jovens", explica ela.
Se El-Sayed vencer, os candidatos da esquerda irão considerá-lo um modelo, segundo Dann. E, se perder, os democratas da ala mais centrista do partido acreditarão que esta é uma prova de que as ideias de esquerda estão fora do alcance dos eleitores comuns.
Mas existem outros que acreditam que Michigan não deve ser o foco, como Jim Kessler, do centro de estudos Terceira Via, de tendência centrista.
Ele indica que, se os democratas assumirem o controle do Senado, será devido aos candidatos mais de centro: Roy Cooper na Carolina do Norte, Mary Peltola no Alasca, James Talarico no Texas, Josh Turek em Iowa e Adam Hamilton em Kansas.
Estes, para ele, são os candidatos que estão fazendo crescer as possibilidades dos democratas nesta eleição.
"Por isso, quanto maior for a vitória democrata, mais provável parece ser a eleição de democratas de centro, não dos candidatos do DSA", segundo Kessler.
Os candidatos apoiados pelo DSA obtiveram ganhos durante as primárias neste ciclo eleitoral, mas suas ideias ainda são polêmicas para muitas pessoas.
"Não acho... que a ampla maioria das pessoas da classe trabalhadora americana seja formada por uma espécie de minissocialistas", afirma Tanden. Ele indica relatos que indicam que a maior parte dos apoiadores do DSA são eleitores com formação universitária.
"As pessoas da classe trabalhadora são bastante moderadas em questões como criminalidade e imigração", destaca ela.
Ainda assim, se os democratas conquistarem a maioria no Congresso americano, seus líderes precisarão enfrentar um grupo de democratas no qual, provavelmente, haverá um aumento das vozes mais veementes à esquerda.
"O maior desafio dos democratas é descobrir como realmente conduzir melhor a economia e reduzir o custo de vida, pois eles disseram muitas vezes, em alto e bom tom, que é o que eles irão fazer", afirma Teixeira.
Aproveitar o momento
Muito provavelmente, as pessoas começarão a pensar seriamente sobre o próximo candidato à Presidência no dia seguinte às midterms.
Mas de quem é o momento, na verdade? Da esquerda ou do centro?
"Acho que, depois da eleição, observaremos muita luta entre as facções reivindicando o crédito", avalia Teixeira. "E isso, naturalmente, aumentará a disputa pela indicação presidencial para 2028."
De volta à Geórgia, Tamara e James Stevens podem discordar em alguns pontos, mas ambos desejam que os democratas tenham uma grande vitória na terça-feira.
"Sou muito pragmático quando o assunto é a política progressista", afirma James Stevens. Ele quer deixar claro que não concorda com todos os pontos defendidos pelos membros do DSA.
Por isso, grande parte da campanha destas eleições de meio de mandato se resumiu à qualidade dos candidatos. Não apenas à mensagem, mas ao mensageiro.
Por isso, perguntei a mãe e filho quem seria o seu democrata "ideal".
Tamara respondeu instantaneamente Jon Ossoff, o senador democrata que concorre à reeleição na Geórgia.
E os dois estão de acordo. Ambos realmente gostam do seu senador.
Muitos consideram Ossoff uma estrela em ascensão no seu partido. The Cook Political Report classifica sua cadeira como "provavelmente democrata" na eleição, o que os analistas consideram uma conquista impressionante em um Estado-pêndulo que votou em Trump em 2024.
"Ele sabe falar com os republicanos moderados, com os democratas moderados e com os membros do DSA", segundo Tamara. "Ele não tem medo de pegar leve... Gosto do quanto ele fala sobre corrupção."
Na noite de quarta-feira passada (28/10), ela e milhares de outras pessoas compareceram a um comício perto da cidade de Atlanta, para aplaudir o senador ao lado do ex-presidente Barack Obama, em campanha pelos democratas.
Quando Ossoff pegou o microfone, ele falou longamente sobre o que considera "corrupção" no governo Trump e na política americana, assistência médica e dinheiro corporativo.
Ouvi esta preocupação de eleitores da Geórgia na semana passada. Não só no comício de campanha, mas nos locais de votação antecipada em condados republicanos e democratas.
"Temos uma crise de corrupção", disse Richard Schosky enquanto saíamos da cabine de votação no norte de Atlanta. Ele depositou seu voto antecipadamente.
Este é um problema que parece repercutir profundamente entre os eleitores, embora a Casa Branca tenha negado repetidamente todas as acusações de irregularidades.
De fato, para Dann, do The Cook Political Report, "a corrupção se tornou uma das questões centrais desta eleição".
"Os democratas seriam ingênuos se acreditassem que uma noite muito boa para eles daria poder ao Partido Democrata", prossegue ela. "Eles são quase tão impopulares quanto os republicanos e o presidente."