Cientista ganha prêmio de R$ 500 mil ao decifrar canto de ave africana

18 de Out de 2026 - 15:30
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Cientista ganha prêmio de R$ 500 mil ao decifrar canto de ave africana
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  • 18/10/2026 às 15:00

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A cientista Julie Elie, da Universidade da Califórnia, ganhou um prêmio de US$ 100 mil (cerca de R$ 514 mil) após decifrar as 11 principais vocalizações da pequena ave tentilhão-zebra (Taeniopygia guttata), conhecida como mandarim no Brasil.

A descoberta mostrou como os pequenos pássaros anunciam quem são, o que fazem e como reconhecem uns aos outros, todos usando "assinaturas individuais".

A pesquisa de Julie também mostrou que, por vezes, as aves confundiam mais chamados com significados semelhantes do que aqueles que tinham sons parecidos.

Estudo revela que pássaros codificam informações complexas nas próprias vocalizações

Para o estudo que durou mais de uma década, ela observou e gravou milhares de vocalizações emitidas pela espécie e passou a classificá-las de acordo com a situação e a ave que as emitia.

Em seguida, utilizando técnicas de aprendizado de máquina, isto é, um método de inteligência artificial capaz de identificar padrões em grandes volumes de dados, começou a investigar como a informação estava codificada nos sons.

A partir daí, realizou testes que mostraram que os pássaros interpretavam as vocalizações da mesma forma que a classificação realizada indicava.

Por exemplo, em um dos testes, os pequenos pássaros ouviam diferentes vocalizações de seu próprio repertório sempre que pressionavam um botão. Alguns dos sons eram seguidos por uma recompensa de sementes, enquanto outros não ofereciam nada. Com o tempo, os pássaros aprenderam a identificar a vocalização que não dava as sementes e, numa tentativa de "pular" esse som, reapertavam o botão.

Julie explica ao The Guardian que optou por estudar os tentilhões-zebra porque eles são "muito vocais", ou seja, produzem muitos dados.  "A pergunta que me fiz ao ouvir esses pássaros canoros tagarelas foi: o que eles estão dizendo?", indaga a pesquisadora.

O professor Jonathan Birch, da London School of Economics, afirmou ao The Guardian que Julie realizou um trabalho “absolutamente fenomenal”, “não apenas compilando um dicionário com as 11 'palavras-chave' do vocabulário dos mandarins, mas também consultando os próprios pássaros, por meio de técnicas experimentais engenhosas, para verificar se ela havia identificado os significados corretamente".

"É um exemplo impressionante de como passar rigorosamente da gravação de milhares de vocalizações à compreensão de seus significados", destaca o professor.

A cientista recebeu o Prêmio Coller-Dolittle de 2026, uma competição internacional promovida pela Jeremy Coller Foundation em parceria com a Universidade de Tel Aviv.

Avanços na IA criam esperança da comunicação com animais

Avanços recentes na Inteligência Artificial dão esperança para que a humanidade possa, em futuro não tão distante, de forma coerente.

Os estudiosos, assim como Julie fez, usam as máquinas para tentar "decifrar" os sons emitidos por inúmeras espécies.

Uma das instituições na linha de frente na tentativa de fazer com que os seres humanos entendam os animais é o Earth Species Project. A ONG americana espera decodificar a comunicação de todas as espécies.

Embora os pesquisadores reconheçam uma chance maior de decodificação entre os (primatas, baleias e golfinhos), eles acreditam ser possível – com o auxílio da Inteligência Artificial – desenvolver ferramentas aplicáveis em todo o reino animal, dos vermes aos rinocerontes.

Os cientistas da Earth Species Project se espelham em um "precedente" já existente: o sistema de maching leraning já demonstrou ser capaz de traduzir línguas humanas distantes sem qualquer conhecimento prévio.

Para Jeremy Coller, o bilionário financiador do prêmio internacional vencido por Julie, com as novas tecnologias, entender os animais, agora é "inevitável".

"É inevitável, porque a IA está avançando muito rapidamente. Tenho absoluta convicção de que decifraremos o código até 2030, uma descoberta que beneficiará os humanos e os animais em todo o mundo", disse para a Jeremy Coller Foundation.

Microfones especiais ajudam a detectar ruídos inaudíveis para o ser humano

Além disso, outros avanços da tecnologia possibilitam adentrar o mundo animal de forma inédita.

Ano passado, uma equipe de pesquisadores americanos venceu o mesmo prêmio vencido por Julie Elie neste ano, ao identificarem que golfinhos emitiam certos assobios que podiam ter função similar às palavras humanas.

A conquista foi possível pela ampliação da tecnologia, que hoje nos permite escutar "novos sons" que antes eram inaudíveis.

Outro exemplo se refere aos morcegos. Um microfone especial desenvolvido pelos pesquisadores permitiu a identificação de sons ultrassônicos emitidos pelo animal, antes inaudíveis para o ouvido humano.

A professora de Ecologia e Biodiversidade Kate Jones, do University College de Londres, explica que os seres humanos conseguem escutar até cerca de 20 kHz, entretanto, alguns morcegos podem emitir ruídos "até 212 kHz".

"Eles usam o som como qualquer mamífero faria, para dizer aos demais que estão preocupados ou assustados, ou como chamado de acasalamento", disse Jones ao programa The Documentary, da BBC.

O mesmo vale para sons que os humanos não conseguem escutar por serem baixos demais, como alguns emitidos pelos elefantes.

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