Gaslighting médico: por que tantas pacientes com dor são desacreditadas

18 de Out de 2026 - 11:50
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Gaslighting médico: por que tantas pacientes com dor são desacreditadas

Quase todo profissional da saúde conhece a resposta para a pergunta: “Por que você escolheu essa profissão?”

Cuidar. Ajudar. Aliviar o sofrimento. Fazer diferença na vida das pessoas.

Mas existe uma pergunta mais difícil e talvez mais necessária: Será que os profissionais estão fazendo isso?

Quero te convidar a refletir comigo sobre uma cultura de cuidado que ainda permite que pacientes sejam desacreditados, tratados com indiferença, julgados e, algumas vezes, discriminados justamente no lugar onde deveriam encontrar acolhimento.

Fibromialgia: uma dor que muitos ainda não enxergam

A fibromialgia é um exemplo contundente. Uma doença predominantemente feminina, marcada por dor generalizada, fadiga e outros sintomas, frequentemente invisíveis aos exames convencionais.

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Uma condição reconhecida pela medicina, mas que ainda enfrenta resistência, desconhecimento e estigma dentro dos próprios serviços de saúde.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 identificou preconceitos, estereótipos e questionamentos sobre a credibilidade de pessoas com fibromialgia entre diferentes profissionais da saúde.

Outros estudos descrevem um estereótipo particularmente perverso: o da mulher que “reclama demais”, que procura excessivamente os serviços, que não sabe explicar o que sente ou cuja dor seria predominantemente psicológica.

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É aqui que precisamos falar de gaslighting médico. Já ouviu o termo?

Não se trata simplesmente de um diagnóstico errado ou de um exame que não encontrou alterações. Trata-se da invalidação sistemática da experiência do paciente: quando sua dor é minimizada, sua narrativa é colocada em dúvida ou seus sintomas são atribuídos automaticamente à ansiedade, ao estresse ou a uma suposta fragilidade emocional.

“Está tudo normal.” “Você não tem nada.” “Isso é psicológico.” “Você precisa parar de prestar tanta atenção no seu corpo.” “Se fosse realmente grave, apareceria no exame.”

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Depois de ouvi-las repetidamente, uma pessoa pode começar a duvidar de si mesma. Pode passar a questionar a própria dor. Pode sentir vergonha de procurar ajuda. Pode acreditar que está exagerando. Isso é cuidado?

A medicina baseada em evidências nos diz, que precisamos das melhores evidências científicas disponíveis para tratar as pessoas. Mas também precisamos ouvir o relato de cada um, entender o histórico da pessoa, suas experiências pessoais e orientá-las da melhor forma possível. Evidência não é sinônimo de exame.

A própria definição clássica de medicina baseada em evidências pressupõe a integração da melhor evidência disponível com a experiência clínica e os valores e preferências do paciente.

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Portanto, escutar o paciente não é abandonar a ciência. Escutar é fundamental e indispensável. O relato de quem sente a dor não é um ruído que precisa ser eliminado para que o diagnóstico aconteça. É uma fonte de informação clínica preciosíssima.

O problema começa quando aquilo que não conseguimos medir facilmente passa a ser tratado como aquilo que não existe. A dor não precisa aparecer em uma ressonância para ser real. A fadiga não precisa ter uma imagem.

O sofrimento não precisa de uma alteração laboratorial para merecer atenção. E uma paciente não deveria precisar provar que está sofrendo para ser tratada com respeito.

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Por que tantas dessas histórias envolvem mulheres

Há ainda uma questão que não podemos ignorar: por que tantas dessas histórias envolvem mulheres?

Durante muito tempo, sintomas femininos foram interpretados à luz de estereótipos sobre emocionalidade, exagero, ansiedade e fragilidade.

Na fibromialgia, a invisibilidade da dor se soma ao preconceito de gênero, criando uma combinação perigosa: a mulher sente, relata, insiste — e justamente por insistir pode passar a ser considerada uma “paciente difícil”. Estudos sobre as experiências de pessoas com fibromialgia descrevem exatamente esse ciclo de descrédito, invalidação e estigma.

Mas existe uma diferença fundamental entre não saber explicar completamente uma dor e não acreditar na pessoa que sente essa dor. Os profissionais de saúde poderiam dizer:

“Eu ainda não sei exatamente por que você está sentindo isso.” “Precisamos investigar outras possibilidades.” “Esse exame não explica sozinho a intensidade dos seus sintomas.”

Tudo isso é ciência. O que não é ciência é transformar a ausência de uma explicação imediata em uma sentença contra o paciente.

Perguntas incômodas para quem escolheu cuidar

Talvez esteja na hora de fazermos uma pergunta incômoda às profissões da saúde. De que adianta falar tanto em cuidado centrado na pessoa se não estamos dispostos a escutar a pessoa?

De que adianta defender medicina baseada em evidências se descartamos a experiência do paciente antes mesmo de compreendê-la? De que adianta aprender a tratar doenças se esquecemos de tratar pessoas?

Talvez precisemos olhar menos para o paciente como alguém que “não colabora”, “exagera”, “reclama demais” ou “tem muitos sintomas” e perguntar:

O que essa pessoa está tentando me dizer que eu ainda não consegui compreender? Por que será que essa pessoa está agindo assim? Como posso ajudá-la?

Afinal, quase todos nós escolhemos uma profissão da saúde porque queríamos ajudar pessoas.

Quando um paciente sai do nosso consultório, ele se sente mais cuidado ou mais desacreditado? Talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer com mais frequência. Porque não basta dizer que escolhemos cuidar. É preciso que o paciente consiga sentir que está sendo cuidado.

*Mariana Schamas-Esposel, BSc em Cinesiologia, pós-graduada em dor, coordenadora do curso Dor e Movimento – HCX-USP

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