Como a militância da esquerda usa jovens para convencer idosos e indecisos a votar em Lula
Nos últimos dias antes do segundo turno das eleições, a militância da esquerda intensificou a mobilização nas redes sociais e nas ruas em busca de votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A estratégia aposta no engajamento especialmente de jovens para convencer familiares idosos, eleitores indecisos e pessoas que não compareceram às urnas ou votaram em outros candidatos fora Lula e Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.
A mobilização combina apelos emocionais, argumentos políticos e ações práticas para estimular a votação. Ela acontece em paralelo à campanha oficial "Lula + 1", impulsionada por ativistas e figuras como o deputado André Janones (Rede-MG). O desafio consiste em assumir a responsabilidade de garantir ao menos um voto adicional para Lula e reverter o resultado do primeiro turno.
A instrução transmitida por ativistas da esquerda é engajar parentes, vizinhos e conhecidos em diálogos cotidianos para romper resistências ao petismo. Manuais e postagens pendem que militares até providenciem transporte para possíveis eleitores de Lula.
Nas plataformas digitais, os ativistas também ensinam que o jovem tem a confiança dos parentes e pode desmontar rejeições sem criar atritos familiares.
Táticas com os idosos envolvem notícias falsas sobre Farmácia Popular e pandemia
Um dos focos principais são os idosos. Eleitores com 70 anos ou mais têm voto facultativo. Cerca de 8 milhões deles não foram votar no primeiro turno, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Diversas peças de propaganda e instruções para a militância esquerdista sem autoria definida começaram a circular com maior intensidade desde o primeiro turno das eleições.
A reportagem teve acesso a um desses manuais. Intitulado "Como vencer o 2º turno", o documento circulou em universidades em Brasília. Nele, a militância é orientada a abordar pontos específicos para convencer idosos.
"Diga que o Bolsonaro desmontou o Farmácia Popular, que foi resgatado pelo Lula. Além disso, o Lula voltou a reajustar o salário mínimo acima da inflação, impactando positivamente nas aposentadorias", diz o manual.
A informação de que Jair Bolsonaro desmontou o programa de custeio de medicamentos Farmácia Popular é falsa. Flávio afirmou que manterá o programa se for eleito. O candidato também disse que pretende reajustar o valor da aposentadoria acima da inflação.
“O benefício previdenciário decorre de um direito legalmente assegurado, não de uma concessão pessoal do governante. Sua continuidade não depende da eleição de determinado candidato”, afirma especialista em Direito Eleitoral Guilherme Augusto Mota.
O manual diz que o "voto 70+" pode decidir a eleição e recomenda que a militância argumente que os idosos teriam sido "as principais vítimas do descaso de Bolsonaro com a Covid".
Nas redes sociais, diversas páginas não oficiais da militância petista também divulgam posts e mensagens incentivando o assédio político contra os idosos dentro de casa.
O perfil Brasil com Lula, por exemplo, traz vídeo de Manuela d’Ávila, candidata derrotada do PSOL a uma vaga no Senado pelo Rio Grande do Sul, incentivando jovens a convencer parentes idosos a votarem em Lula.
Já no perfil Lula versoficial, é possível ver uma animação onde um jovem circula pelas ruas do bairro incentivando familiares, inclusive idosos, a votar no petista. Em outra publicação, a página de apoio à campanha de Lula mostra a imagem de uma idosa, com dificuldades de mobilidade, sendo levada para votar por uma jovem. O texto ilustrativo diz: “minha avó agora se arretou e vai votar no Lula”.
Governo vincula voto a continuidade de benefícios em mensagens oficiais
Canais oficiais do governo como o "Gov.br" no WhatsApp e "Meu INSS" foram usados dias antes do primeiro turno e nesta semana para comunicar de forma individualizada a beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) sobre a possibilidade de realização de prova de vida por meio do comparecimento às eleições deste ano.
Com o título “Seu voto vale como Prova de Vida do INSS!”, a mensagem do "Meu INSS" dizia: “Vote nas Eleições 2026 e tenha sua comprovação de vida atualizada automaticamente”.
A campanha de Flávio recorreu ao TSE para suspender o envio desse tipo de mensagem direcionada a idosos, mas não foi atendida. O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva argumentou que o cancelamento poderia interromper comunicações de utilidade pública.
Táticas para os indecisos: desconstrução sem fanatismo
Na abordagem aos indecisos e eleitores que optaram pela alegada terceira via no primeiro turno, o manual "Como vencer o 2º turno" pede para seus apoiadores evitarem o fanatismo e não forçarem elogios a Lula.
"Essa pessoa não gosta de política e foge de militante. Reconheça que a terceira via é legítima e que a polarização faz mal ao país. Depois, apresente fatos sobre o Flávio e faça perguntas. Deixe que ela chegue sozinha à conclusão".
O documento aconselha a trocar acusações diretas a Flávio Bolsonaro por perguntas retóricas: “em vez de ele (Flávio) é incompetente, pergunte - você lembra de alguma coisa que ele fez?". Em vez de ele (Flávio) é mentiroso, pergunte - dá para confiar no que ele fala?".
Tentativas de convencimento podem levar a embate familiar
O cientista político Marcos Quadros, diretor acadêmico da Estácio, explica que o PT possui um histórico de organização, disciplina e engajamento de militância jovem.
Segundo ele, a missão do jovem petista de tentar virar votos dentro de casa pode terminar em embates familiares e contribuir para deterioração do convívio familiar.
“Claramente é possível, como vemos em diversos casos nos últimos anos. A democracia também pressupõe alguma fronteira entre a esfera política e as demais esferas da vida. A política é apenas uma dessas esferas, e não necessariamente deve ser vista como a mais importante. Politizar tudo é uma ferramenta classicamente totalitária”, afirma Quadros.
Segundo ele, os limites éticos da estratégia da militância de esquerda podem ser questionados, principalmente quando envolve juventude e estímulo ao embate político no interior das famílias.
“O que se pode dizer, para o bem e para o mal, é que faz parte do embate político-eleitoral”, diz.
Material apócrifo não é crime, mas pode acobertar práticas ilícitas
O manual "Como vencer o 2º turno" foi obtido pela reportagem circulando no meio universitário. O documento tem doze páginas e é um roteiro para alavancar votos. O material não integra a propaganda eleitoral registrada da coligação do presidente Lula nem é material oficial do PT. Os responsáveis pelo conteúdo não foram localizados.
De acordo com especialistas que avaliaram o material a pedido da reportagem, a mensagem da cartilha é convergente com as propagandas eleitorais da campanha de Lula. Mas, em tese, também pode ter sido produzido como contra-informação para prejudicar o PT.
Para o especialista em direito eleitoral, Guilherme Augusto Mota, a associação dos símbolos do PT com a cartilha apócrifa não configura crime eleitoral.
“O direito eleitoral não admite responsabilidade fundada exclusivamente em presunções. Mas também não permite que a ausência de identificação formal sirva de proteção para práticas comprovadamente ilícitas”, alertou.