Como Alfredo Gaspar, candidato a vice de Flávio, usou ligações com Collor e Calheiros para crescer no Congresso
- Author, Redação
- Reporting from, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Published Há 27 minutos
- Tempo de leitura: 8 min
"A pessoa que tem que ser meu vice não dá a mão para criminoso." Foi assim que o senador (PL) anunciou , filiado ao seu partido no início deste ano, como companheiro de chapa para a disputa presidencial.
"Eu sou seu soldado. Estarei como para-choque na retaguarda, sempre leal e pronto para te servir", respondeu Gaspar, na ocasião.
Antes de assumir a posição ao lado de Flávio, Gaspar liderava as pesquisas de intenção de voto para uma cadeira no por , à frente de Renan Calheiros (MDB).
Com uma carreira de promotor de consolidada no estado e com laços familiares com tradicionais políticos locais, ele não era a primeira escolha para compor a chapa bolsonarista, que considerou nomes como o de Tereza Cristina (PP) e Renata Abreu (Podemos), na tentativa de aproximar Flávio do eleitorado feminino. Mas a decisão de Valdemar Costa Neto, presidente da legenda, prevaleceu.
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- 2 outubro 2026
- 14 outubro 2026
Ligações com famílias políticas de Alagoas
Alfredo Gaspar tem ligações políticas desde antes de se candidatar a cargos públicos.
Seu pai, Carlos Alberto Pinheiro de Mendonça, foi conselheiro da família Collor de Mello e trabalhou na empresa que ela possuía, as Organizações Arnon de Mello (OAM). Quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) disputou o governo de Alagoas, em 2010, pelo PTB, Carlos Alberto foi seu coordenador de campanha.
Gaspar também herdou ligações com o poder pelo seu casamento com Adriana Andrade, filha de Moacir Lopes de Andrade, ex-governador de Alagoas entre 1989 e 1991, que assumiu o cargo depois que Collor saiu para concorrer ao Planalto, em 1990.
Advogado, Alfredo Gaspar ingressou no Ministério Público (MP) alagoano em 1996 e atuou em diversas frentes: coordenou o Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas (GECOC) e foi presidente do Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), vinculado ao Conselho Nacional de Procuradores-Gerais de Justiça.
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No GECOC, comandou uma denúncia contra a ex-prefeita da cidade de Piranhas, Mellina Freitas, filha do desembargador Washington Luiz Freitas, acusada de 483 crimes — entre eles, de desviar cerca de R$ 16 milhões em obras públicas.
O GECOC apontou-a como "chefe de quadrilha", mas ela não foi presa à época. Pelo contrário: no fim de 2014, o governador eleito, Renan Filho (MDB), nomeou Mellina como secretária de Cultura.
No mesmo governo, Gaspar assumiu a pasta da Defesa Social, onde ficou até 2016. Três anos depois, quando ela deixou o cargo e perdeu o foro privilegiado, ele, já como procurador-geral do estado, designou o GAECO para retomar a ação anterior.
Ele também denunciou Marcelo Victor, hoje presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas, do MDB, junto com Fernando Toledo, ex-presidente da Casa e atual chefe do Tribunal de Contas do Estado, pela acusação de desviar recursos do Legislativo estadual em 2012. O processo, porém, foi arquivado.
O candidato a vice-presidente de Flávio Bolsonaro também disputou a Prefeitura de Maceió pelo MDB, de Renan Calheiros, em 2020. Foi o mais votado no primeiro turno, com 110.234 votos (28,87%), mas perdeu o segundo para João Henrique Caldas, à época no PSB. Ele acabou de ser eleito para o governo de Alagoas pelo PSDB).
Depois disso, tornou-se secretário de Segurança Pública do estado, cargo do qual saiu para lançar sua candidatura a deputado federal, em 2022.
Foco em segurança e corrupção na Câmara
Eleito naquele pleito, Gaspar ganhou mais protagonismo na Câmara dos Deputados a partir do ano passado, quando assumiu a relatoria da CPMI do INSS.
Antes disso, suas participações eram mais centradas em segurança pública e corrupção — com quase metade dos seus cerca de 140 discursos em plenário girando em torno do tema, segundo levantamento da baseado nas notas taquigráficas da Casa.
Embora não seja sempre o principal tema, cerca de 52% dos seus discursos miravam o presidente , o ou a esquerda. Também atacou bastante o ex-governador de Alagoas, Paulo Dantas (MDB), aliado e sucessor de Renan Filho, de quem foi secretário duas vezes.
Já como relator da CPMI, de agosto de 2025 a março de 2026, consagrou-se como voz forte da oposição bolsonarista.
Em seu relatório, que foi rejeitado, pediu indiciamento de ex-ministros, como Carlos Lupi, do governo de Lula, e José Carlos Oliveira, presidente do INSS e ministro no governo de Jair Bolsonaro, que o relatório chama de "o caso mais emblemático" de captura. Também pediu indiciamento da ex-colega de partido no PL, a deputada Maria Gorete Pereira, que teria sido procuradora de associação fraudulenta no Ceará.
O filho do presidente Lula, , foi outro alvo do relatório de Gaspar, assim como o senador Weverton Rocha (PDT-MA), líder do PDT e vice-líder do governo, por supostamente ser "sócio oculto", segundo a , de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "careca do INSS".
Em seu período na Câmara, Gaspar assinou 116 proposições legislativas, mas só 44 são de autoria. As demais são projetos de outros deputados que ele subscreveu. A parceria mais constante é com Adriana Ventura (Novo), de quem assinou 17 projetos.
Um terço das propostas encabeçadas por ele trata de segurança pública, mas poucas são ideias novas: a que condiciona a progressão de pena de estupradores à castração química repete, quase palavra por palavra, um projeto apresentado por Jair Bolsonaro em 2013 e reapresentado por outros deputados do PSL em 2020.
Já a internação obrigatória de inimputáveis que cometem crimes graves amplia uma proposta de 2019 do ex-deputado Delegado Waldir (União-GO).
Não teve muitas vitórias no parlamento até concorrer na chapa de Flávio.
O projeto que exige o cumprimento de 80% da pena em regime fechado para quem mata agentes públicos foi aprovado na Câmara em julho de 2025, por 334 votos a 65, depois que o relator, Alberto Fraga (PL-DF), estendeu a regra a todos os crimes hediondos. Desde então, aguarda o aval do Senado.
O mesmo aconteceu com a proposta que Gaspar descreve como "a primeira ação do meu mandato", aprovada na Câmara em 2023: a que obriga empresas responsáveis por desastres, como a Braskem em Maceió, a indenizar individualmente os atingidos e as impede de ficar com as áreas afetadas.
No Senado há mais de três anos, passou pelas mãos de dois relatores, Alessandro Vieira e Cleitinho, mas nenhum deles apresentou seus pareceres. Desde novembro de 2025, está sem relator. Até agora, nenhum projeto de autoria dele virou lei.
Denúncia de estupro de vulnerável
Foi no último dia da CPMI do INSS que as acusações de estupro contra Alfredo Gaspar vieram à público.
Durante um bate-boca com o deputado Lindbergh Farias (PT), ele o chamou de "estuprador". Depois, em entrevista coletiva ao lado da senadora Soraya Thronicke, ele explicou que os dois tinham recebido dias antes uma denúncia de que Gaspar teria engravidado uma adolescente anos atrás. Hoje, ela teria 21 anos, e a filha, 8.
O denunciante, um desconhecido, não apresentou provas. O caso abriu duas frentes opostas: a Polícia Federal, acionada por Lindbergh e Soraya, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de uma investigação por estupro. A Polícia Legislativa da Câmara, acionada por Gaspar, passou a apurar se ele tinha sido alvo de denúncia falsa.
Segundo reportagem da revista Piauí, a origem das duas versões é Luiz Antonio Lopes, um carioca de 63 anos que, desde dezembro de 2025, procurava parentes de investigados na CPMI dizendo ser "tio de consideração" de uma mulher chamada Jailma, que teria sido abusada por Gaspar aos 13 anos. Ele também alegou que o silêncio da vítima teria sido comprado pelo deputado.
Ainda segundo a revista, em abril, Lopes procurou a equipe de Gaspar e, em depoimento à Polícia Legislativa, disse o contrário de tudo o que vinha contando. Segundo essa versão, a denúncia era uma armação de Lindbergh, e a suposta vítima era uma amiga dele contratada para fingir.
Gaspar nega a acusação. "Você acusou um pai de família, um avô", disse. "A minha honra vale mais do que a minha vida." Em uma sessão da CPMI, ele sugeriu que a história poderia ser uma confusão com um primo, que engravidou uma empregada doméstica décadas atrás.
Um dia após o primeiro turno, o ministro Gilmar Mendes, do STF, arquivou o pedido de investigação contra Gaspar, acolhendo um pedido da Procuradoria Geral da República (PGR).
"Nesse contexto, não se verifica, no estado atual dos autos, base indiciária suficiente para a instauração do inquérito pretendido", escreveu Gilmar na decisão.
"As capturas de tela, os arquivos de áudio, os dados relativos ao endereço eletrônico e à linha telefônica, bem como os relatos colhidos no curso das diligências preliminares, não se mostram suficientemente corroborados entre si nem encontram respaldo em elementos externos e independentes capazes de conferir consistência objetiva às imputações formuladas."
Emendas para a Zona da Mata alagoana
Em abril, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) também envolveu Gaspar. O alvo eram cerca de R$ 6 milhões em emendas parlamentares que ele havia destinado, em 2024, a São José da Laje, município de 20 mil habitantes na Zona da Mata alagoana.
O dinheiro foi enviado na modalidade conhecida como "emenda Pix", que cai direto no caixa da prefeitura, sem vínculo com um projeto específico e sem passar pelo crivo de um ministério.
A partir de dados da Controladoria-Geral da União, o ministro Walton Alencar Rodrigues deu à prefeitura 12 dias para provar como os recursos tinham sido gastos.
Segundo os auditores, a prefeitura transferiu o dinheiro da conta específica da emenda para outras contas do município, o que dificulta o rastreamento do gasto.
O plano de trabalho listava de forma genérica pavimentação, reformas de prédios públicos, ginásios e até serviços de comunicação, sem informar quanto caberia a cada item.
À época, por meio de sua assessoria, Gaspar disse que destinou a verba a pedido de Rodrigo Valença, ex-prefeito da cidade, depois da apresentação de um plano de trabalho, e que a execução e a prestação de contas cabem "exclusivamente à prefeitura".
Em maio, a Procuradoria-Geral da República arquivou um pedido de Lindbergh Farias para que se investigasse a responsabilidade do deputado.
Dois dias depois do anúncio de Gaspar como vice de Bolsonaro, o ministro Flávio Dino mandou a Polícia Federal apurar indícios de crime em emendas com base na auditoria mais ampla do TCU, incluindo a emenda de São José da Laje.