O que a eleição presidencial tem a ver com nosso jeito de comer?
Estamos vivendo mais uma eleição presidencial. De um lado, candidatos apresentam suas propostas e tentam nos convencer de que representam o melhor caminho para o país. Do outro, eleitores procuram identificar, entre tantas promessas, aquelas que mais se aproximam de seus valores e da sociedade em que desejam viver.
Não é uma decisão simples. Raramente encontramos um candidato com quem concordamos em tudo. Escolher um significa, necessariamente, abrir mão dos demais. Significa aceitar algumas propostas e renunciar a outras, mesmo que estas também nos pareçam interessantes.
Fiquei pensando como fazemos algo muito parecido quando decidimos emagrecer.
Todos conhecemos alguém que deseja perder peso, melhorar a saúde, recuperar a disposição ou simplesmente voltar a se sentir confortável com o próprio corpo. Mas quantas vezes esse desejo vem acompanhado de uma reflexão sobre aquilo que será necessário mudar?
Queremos emagrecer, mas não queremos abrir mão de nada. Queremos os benefícios de uma alimentação equilibrada, mas também a liberdade de comer tudo o que desejamos, na quantidade que desejamos e sempre que desejamos.
É compreensível. Comer dá prazer. E ainda bem que dá.
A comida faz parte das nossas melhores lembranças, dos encontros com amigos, das reuniões de família e dos pequenos prazeres cotidianos. Não consigo imaginar uma vida saudável na qual o prazer de comer precise ser tratado como um inimigo.
Mas existe uma diferença entre desfrutar desse prazer e permitir que ele determine todas as nossas decisões. Talvez seja justamente aí que comece a dificuldade.
Em uma eleição, podemos nos entusiasmar com uma proposta sem considerar o que será necessário para colocá-la em prática. Podemos gostar de uma promessa e ignorar suas consequências.
Na alimentação, também fazemos isso. O prazer imediato muitas vezes parece mais interessante do que um benefício que só perceberemos daqui a alguns meses ou anos.
Nosso cérebro, aliás, não facilita essa negociação. Os mecanismos envolvidos na recompensa alimentar favorecem a busca por experiências prazerosas, especialmente em um ambiente no qual alimentos altamente palatáveis estão disponíveis praticamente o tempo todo.
Isso não significa que estejamos condenados a obedecer a todos os nossos desejos. Significa apenas que mudar o comportamento alimentar é muito mais complexo do que simplesmente decidir comer menos.
E talvez seja por isso que tantas tentativas de emagrecimento fracassem. Não necessariamente pela falta de vontade, mas porque muitas pessoas escolhem o resultado sem considerar se estão dispostas, ou mesmo se têm condições, de sustentar o caminho até ele.
É como votar em um candidato apenas pela promessa que mais nos agrada, sem pensar no conjunto de suas propostas. Existe ainda outra questão que considero importante.
Quando falamos em renúncia alimentar, muita gente imagina uma vida sem sobremesas, sem restaurantes, sem vinho ou sem aqueles alimentos que fazem parte da sua história. Como se emagrecer exigisse abandonar tudo aquilo que torna a alimentação prazerosa.
Não é disso que estou falando.
Renunciar ao excesso não significa renunciar ao prazer. Da mesma maneira, comer com responsabilidade não significa transformar cada refeição em um exercício de vigilância ou culpa.
Uma alimentação saudável precisa caber na vida de quem a pratica. Caso contrário, podemos até conseguir perder peso, mas dificilmente construiremos uma relação sustentável com a comida.
E aqui volto à eleição. Quando escolhemos um presidente, deveríamos pensar menos na satisfação de vê-lo vencer e mais no país em que desejamos viver depois que ele assumir o governo.
Afinal, a eleição termina, mas as consequências daquela escolha permanecem. Com o emagrecimento acontece algo semelhante. Muitas pessoas concentram toda a atenção no dia em que alcançarão determinado peso. Imaginam como estarão, que roupas poderão usar e como se sentirão diante do espelho.
Mas e depois?
Como será a alimentação quando a meta for alcançada? Será possível manter os novos hábitos sem viver em conflito permanente com a comida? O prazer continuará fazendo parte da rotina? A saúde terá melhorado ou apenas o número na balança terá diminuído?
São perguntas que, na minha opinião, deveriam ser feitas antes de iniciar qualquer processo de emagrecimento. Porque não adianta escolher um caminho que nos leva aonde queremos chegar se não conseguimos viver da maneira que esse caminho exige.
Também não acredito que todas as pessoas devam fazer as mesmas escolhas. Nossos valores, prioridades e circunstâncias são diferentes. O que representa uma renúncia aceitável para alguém pode ser um sacrifício excessivo para outra pessoa.
E tudo bem que seja assim. O importante é que nossas decisões tenham alguma coerência com aquilo que consideramos essencial.
Na política, isso significa olhar para além das promessas e procurar compreender as consequências das propostas que apoiamos. Na alimentação, significa reconhecer que nossos hábitos de hoje participam da construção da saúde que teremos amanhã.
Não precisamos acertar sempre. Nem diante da urna, nem diante da mesa. Mas precisamos compreender que escolher envolve assumir responsabilidades e aceitar que nem todos os desejos poderão ser atendidos ao mesmo tempo.
Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja em quem vamos votar ou quantos quilos queremos perder. Talvez seja outra: que vida queremos ter depois que nossas escolhas produzirem seus resultados?
Porque, no final, não escolhemos apenas um candidato ou um caminho para emagrecer. Escolhemos, de alguma forma, o futuro com o qual estaremos dispostos a conviver. E esse futuro deveria ter muito mais a ver com nossos valores e princípios do que com a satisfação passageira de uma vitória.
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