Como funcionava a suposta agência de cafetinagem ligada a Vorcaro

17 de Out de 2026 - 11:30
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Como funcionava a suposta agência de cafetinagem ligada a Vorcaro

Em um dos inquéritos derivados do caso Master, a Polícia Federal apura possível tráfico de pessoas e exploração sexual. As investigações também querem saber se havia mulheres menores de 18 anos, se elas eram trazidas ao Brasil e levadas a outros cantos do mundo sem documentação e se estavam sendo utilizadas em uma prática de cafetinagem para “agradar” autoridades em eventos e convescotes promovidos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

A PF suspeita que o ex-controlador do Master era o sócio oculto de agências de recrutamento de garotas de programa. Mensagens atribuídas a Vorcaro reveladas pelo UOL, confirmadas pela Gazeta do Povo, mostram mulheres tratadas como "escravas" e "kengas", que estavam sendo “doutrinadas” para o trabalho. Essa frente de investigação vai além do colapso financeiro do banco.

A PF quer saber se houve esse suposto agenciamento de garotas de programa, em sua maioria estrangeiras, incluindo refugiadas de zonas de conflito como Ucrânia e Rússia. O ex-banqueiro nega.

Segundo essa linha de investigação, as mulheres eram levadas a festas e encontros reservados com autoridades e amigos de Vorcaro, não podiam levar celulares e, de preferência, eram mulheres que não falavam nem entendiam português. Tudo isso seria para garantir o anonimato das festas e, sobretudo, ocultar quem participava e o que acontecia nelas.

Os diálogos atribuídos a Vorcaro e a alguns personagens suspeitos de serem seus intermediários sugerem que o ex-banqueiro participou ativamente da seleção das mulheres, autorizou pagamentos e financiou a estrutura, com aportes milionários em uma rede que intensificou sua estruturação a partir de 2023.

Até o momento, o que teria sido rastreado é que a estrutura combinava uma agência de modelos, intermediários em diferentes países e recursos do ecossistema financeiro do Master. Investigadores querem saber se o conjunto configurava cafetinagem e, eventualmente, tráfico de pessoas.

Como surgiu a ideia de uma “agência” de garotas

A ideia da agência teria partido do círculo de um promotor de eventos próximo de Vorcaro. Em outubro de 2023, interlocutores informavam a Vorcaro que a agência serviria para "ajustar as meninas" de forma indireta, para que o grupo não ficasse exposto.

Em dezembro, o ex-banqueiro recebeu o contrato de compra de 50% de uma dessas empresas que agenciaria “modelos” pelo valor de R$ 1,5 milhão, em três parcelas de R$ 500 mil. Para um dos promoters que aparece nas investigações, havia motivos para comemorar porque estariam "blindados", passando a usar a agência como canal de recrutamento com o auxílio de agenciadores sem levantar suspeitas e questionamentos.

Em uma das trocas de mensagens, a PF identificou que, além das estrangeiras, brasileiras também integram o grupo. Vorcaro teria solicitado que um intermediário fosse ao Sul do país "buscar umas gatas" para o cadastro e mandou fazer "seleções". Também sugeriu contratar todas pela agência e marcar entrevistas, o que facilitaria a obtenção de vistos tanto das estrangeiras quanto das brasileiras que seriam levadas para festas.

As mensagens apontariam uma divisão clara de funções. O promotor próximo de Vorcaro seria o executor, responsável por encontrar e "doutrinar" as mulheres. Um outro brasileiro com uma empresa sediada nos Estados Unidos cuidava de toda a logística. “Encomendava” mulheres a recrutadores, reservava voos e hotéis e liberava dinheiro.

Vorcaro, segundo as conversas, decidia quem entrava, quem saía e quanto cada uma receberia. As mensagens indicariam que ninguém era pago sem ordem do "chefe", no caso, o ex-banqueiro.

O grupo era dividido em times. Um deles - identificado como "Famiglia A" -ficaria sempre com o ex-banqueiro. O "B" atenderia eventos de grande volume, principalmente os utilizados para cooptação de autoridades. Nas conversas interceptadas no celular de Vorcaro, as mulheres são descritas como "escravas" e "kengas". As mais jovens pertenciam a um grupo identificado como "creche".

As recrutadas eram levadas para eventos em São Paulo, Rio, Paris, Londres, Roma e Dubai - em alguns casos, festinhas com autoridades presentes. Em uma festa de Halloween em 2023, teriam sido contadas cerca de 110 mulheres de dois grupos agenciadores diferentes. Em Londres, em abril de 2024, teriam sido quase 100 garotas, e as conversas indicam que os celulares de todas eram recolhidos antes dos “eventos”.

Entre as recrutadas havia uma ucraniana de 19 anos, que, segundo um dos interlocutores de Vorcaro apontado como agenciador, não tinha para onde voltar por causa dos bombardeios. Ele sugeriu incluí-la na agência para "lavar as mãos". Em abril de 2024, Vorcaro decidiu mandar embora russas e ucranianas, mas o promoter lembrou que os países das jovens seguiam em guerra.

Uma das agências emitia faturas, repassadas por Vorcaro ao financeiro do Master. As despesas no Brasil iam para outra empresa. O investimento total era de cifras milionárias, ainda não totalmente rastreadas pelas autoridades. O promoter que aparece como um dos principais interlocutores de Vorcaro receberia R$ 120 mil por mês pelos serviços.

Para configurar tráfico de pessoas, os tribunais costumam exigir violência ou coação, o que a PF ainda apura se ocorreu. A condição de estrangeira ou refugiada não provaria por si só o crime, mas a investigação tenta entender se essas garotas viajaram em aeronaves particulares do ex-banqueiro e se tinham documentos.

Uma suspeita que já vinha sendo apontada

A Gazeta do Povo já havia alertado, em maio deste ano, para a possibilidade de tráfico de mulherescom fins de exploração sexual no entorno das festas de Vorcaro quando um inquérito da PF foi aberto naquele mesmo mês.

O assunto também chegou ao Congresso. Em abril, o relatório final da CPI do Crime Organizado, do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), apontou indícios de exploração sexual e tráfico internacional de pessoas em eventos promovidos pelo ex-banqueiro.

Segundo o documento, foram analisados cerca de 400 gigabytes de arquivos, entre eles mensagens, vídeos e imagens de passaportes de estrangeiras. O próprio relatório ressalta que o material exige aprofundamento pelos órgãos de investigação.

Depois disso, parlamentares recorreram a instituições para pedir apurações. Os principais investigados nesta frente seriam, além de Vorcaro, dois homens, um deles dono de uma empresa de eventos e um promotor de festas em São Paulo. A Gazeta do Povo não conseguiu contato com a defesa de ambos. O espaço segue aberto.

No Brasil, a prostituição em si não é crime. A cafetinagem, ou seja, o lucro de terceiros sobre a atividade, é crime, assim como manter estabelecimento destinado à exploração sexual. É esse o enquadramento que a PF examina.

Fontes a par das apurações destacam que até agora não se pode cravar que as mulheres foram coagidas, nem quais eram as condições de estrangeiras ou refugiadas. Até o momento, não houve pedido de indiciamento formal nem decisão judicial sobre o caso.

"Escravas" e "kengas": como as mulheres eram chamadas

Nas conversas identificadas no celular de Vorcaro, o promoter e o ex-banqueiro chegavam a se referir às mulheres como "escravas" e "kengas". Avaliavam o desempenho delas e chegaram a discutir condições de contratação.

Em uma das trocas de mensagens, o promoter escreve sobre uma "escravinha doutrinada" e diz que vai "escravizar" uma delas para o trabalho daquela noite. Em outro trecho, oferece levar duas "escravas" do Rio de Janeiro para um evento. Mensagens também indicam que havia homens contratados para as festas, em menor número. Eles eram chamados de "macacos".

As mulheres, em muitos diálogos, aparecem como "flores" para ficar à disposição dos convidados. Em junho de 2024, ao aprovar um valor para uma mulher para fazer compras durante uma festa na França, Vorcaro comentou que "essas meninas escravas eram demais”.

Em outra conversa, o promoter diz que "doutrinava" as escolhidas para integrar o grupo mais próximo do banqueiro, o "Famiglia A", e chegou a pedir que Vorcaro fingisse não saber o que ele ensina a elas.

Além de refugiadas, grupo era composto por outras estrangeiras

O caso mais delicado envolveria uma refugiada ucraniana de 19 anos. Ela chegou ao grupo em outubro de 2023, entre as estrangeiras levadas a uma festa de Halloween em São Paulo. No início de novembro, Vorcaro avisou que deixaria de pagar hotel e passagens de quem quisesse ficar no Brasil. A jovem ficou.

Em 7 de novembro, o promoter relatou a presença de três refugiadas ucranianas. Vorcaro respondeu que era preciso “sobrar alguma para ele”. Semanas depois, o promotor explicou que a jovem não podia voltar ao país porque os pais achavam melhor não por conta dos bombardeios. Em 14 de dezembro, disse que ela não tinha para onde ir. Segundo o homem, a jovem havia viajado 14 horas de ônibus para sair da Ucrânia, e a mãe lhe enviara áudios dos bombardeios.

"Bora colocá-las na agência e daí lavamos as mãos", sugeriu o promoter a Vorcaro. Em abril de 2024, porém, Vorcaro decidiu mandar embora garotas do Leste Europeu e fazer uma "seleção" de quem ficaria. Mas os diálogos também indicariam a existência no grupo de venezuelanas, argentinas e polonesas, além de brasileiras.

Para os investigadores, o dado mais relevante seria o possível papel de Vorcaro. Nas mensagens, o promoter aparece como executor e o ex-banqueiro como quem decidia quem entrava, quem saía e quanto cada uma receberia. "Chefe manda e a gente executa", escreveu o promoter a Vorcaro. Ele também afirmou que não pagava as mulheres sem autorização de Vorcaro.

Foi o ex-banqueiro, segundo as conversas, quem mandou "zerar e recomeçar" o grupo em novembro de 2023 e quem pediu "seleções" de mulheres, em janeiro e fevereiro de 2024. Os diálogos mostram ainda uma festa de aniversário organizada para uma jovem então com 18 anos, apelidada com o nome de um cereal infantil.

Vorcaro nega exploração e diz que há vazamentos seletivos

A defesa de Vorcaro divulgou nota em que ele nega "veementemente" ter explorado ou desrespeitado mulheres e diz que isso "não é da sua índole". Afirma que não reconhece a autoria, a autenticidade e o contexto de vários dos conteúdos vazados.

Segundo Vorcaro, frases "pinçadas" e prints descontextualizados o expõem enquanto está impedido de falar oficialmente. O ex-banqueiro está preso pela segunda vez desde março.

Ele chama a divulgação de manipulação criminosa de mensagens obtidas ilicitamente e diz que vai responsabilizar os autores nas esferas cível e criminal. Também afirma que quer falar com transparência sobre todos os assuntos investigados e colaborar com as apurações.

Na nota em que nega a exploração de mulheres, o ex-banqueiro também sinalizou que pretende abrir o jogo sobre sua rede de contatos. Ele afirma querer falar de forma "objetiva e transparente" sobre todos os assuntos investigados e sobre todas as suas relações pelas vias adequadas e com respeito ao devido processo legal. A declaração foi lida como sinal de que ele pode tentar um novo acordo de delação premiada.

O caminho, porém, é incerto. Vorcaro está preso no 19º Batalhão da Polícia Militar, no Complexo da Papuda, em Brasília. Ele já teve duas propostas de colaboração rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República. O motivo foi que os textos omitiam fatos que os investigadores já haviam descoberto, como poupar nomes que mantiveram relações com ele, e que a PF já havia avançado sobre eles por conta própria.

A rede de contatos é, aliás, um dos eixos centrais das investigações. Desde que as mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro passaram a vazar, ele tem sido apontado como grande articulador de relações com políticos, empresários e ministros de tribunais superiores, com o objetivo de obter decisões favoráveis ao Master no Legislativo e no Judiciário.

O tema já foi tratado pela PF. No dia 13, o presidente do STF, Edson Fachin, cobrou do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o encaminhamento de todas as menções a ministros que aparecem no caso.

Nenhum magistrado é formalmente investigado, mas Fachin pretende avaliar o contexto das comunicações para adoção das medidas que achar necessárias, entre elas, envio ao plenário da Corte para discutir a abertura de investigações contra ministros.