Como pensa o nome forte de Flávio Bolsonaro para a economia
Integrante da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), o economista Adolfo Sachsida acredita que o futuro governo pode reorganizar as contas públicas em um prazo de até 18 meses.
A prioridade seguinte é avançar em reformas microeconômicas para alavancar a produtividade. A estratégia, segundo ele, deve preparar o Brasil para crescer, atrair investimentos e ampliar as oportunidades de emprego e renda.
Ex-ministro de Minas e Energia no governo Jair Bolsonaro (PL), Sachsida é um dos principais responsáveis pela elaboração de propostas econômicas para Flávio, ao lado da ex-presidente da Caixa, Daniella Marques.
O grupo reúne ainda ex-integrantes do Ministério da Economia da gestão Paulo Guedes e discute alternativas para as contas públicas, a arrecadação e o ambiente de negócios. A equipe também trabalha na separação entre medidas que poderiam ser adotadas pelo Executivo e aquelas que dependeriam do Congresso.
Ao longo dos últimos anos, Adolfo Sachsida elaborou um pacote 200 de medidas que considera fundamentais para atacar os principais entraves ao crescimento brasileiro: desequilíbrio fiscal, burocracia, tributação elevada e baixa produtividade.
As propostas, cuja construção contou com a participação de cerca de 100 especialistas, entre economistas, juristas e técnicos, integram o Projeto Brasil, que, ressalta ele, não pode ser confundido com o programa oficial de Flávio. “São projetos distintos. Não existe nenhuma vinculação entre esses pontos. O plano de governo do senador está entregue ao TSE [Tribunal Superior Eleitoral]”, diz.
Descrita como apartidária, a iniciativa foi lançada em julho, antes de Sachsida passar a integrar a equipe econômica do senador. Apesar da distinção que o economista faz entre as propostas que vinha defendendo e o documento registrado pela candidatura, há vários pontos de convergência entre ambas as agendas – o que explica, de certa forma, seu convite para entrar na campanha.
Com a circulação do nome de Sachsida como possível ministro em um eventual governo de Flávio, seu pensamento, expresso também em colunas publicadas nesta Gazeta do Povo ao longo de quase três anos, indica possíveis caminhos que a economia do país pode seguir.
Ajuste das contas públicas como prioridade
O diagnóstico de Sachsida parte da necessidade de conter o crescimento da dívida pública e recuperar a capacidade do Estado de financiar suas atividades sem pressionar continuamente os juros.
A perspectiva consta de seus últimos artigos publicados na Gazeta do Povo ainda este ano, em que ele defende a consolidação fiscal e reformas pró-mercado como condições para o crescimento sustentável.
No Projeto Brasil, essas diretrizes aparecem como caminho para reduzir o custo do crédito, controlar a inflação e criar um ambiente mais favorável ao investimento privado. No documento, o economista já defendia uma proposta de emenda à Constituição (PEC) de consolidação fiscal, que estabeleceria um limite para a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB), utilizando um teto de gastos como instrumento de controle.
A ideia é substituir o que ele considera ajustes baseados em aumentos de impostos por uma regra que contenha a expansão das despesas.
A estratégia converge com o plano de governo de Flávio, apresentado ainda antes da adesão formal de Sachsida. No documento protocolado no TSE, o candidato coloca o ajuste das contas públicas como ponto central de seu plano econômico, além de prometer um “tesouraço” nos gastos e uma nova regra fiscal.
Sachsida segura tesoura com as cores da bandeira do Brasil que simboliza promessa de corte de gastos em live ao lado de Flávio Bolsonaro (PL)
A ideia de apresentar uma PEC fiscal ainda este ano, caso Flávio seja eleito, já foi confirmada publicamente pela equipe de campanha. Em setembro, durante evento promovido pela Esfera Brasil, Sachsida e Daniella Marques foram questionados sobre quais seriam as primeiras medidas de um eventual governo do senador.
“A PEC do fim da reeleição, que já está pautada, e essa PEC fiscal”, disse Daniella, que destacou que Flávio já se comprometeu em fazer as duas emendas constitucionais “ainda na transição”.
O contexto atual ajuda a dimensionar o desafio. Em agosto, a dívida bruta do governo geral alcançou 82,9% do PIB, ou R$ 11,05 trilhões, segundo o Banco Central (BC). No mesmo mês, o déficit nominal acumulado em 12 meses chegou a R$ 1,26 trilhão, equivalente a 9,48% do PIB.
Adolfo Sachsida sustenta que o controle fiscal reduziria o risco percebido pelos investidores, ajudaria a diminuir os juros e criaria espaço para investimentos e programas sociais. Em entrevista recente, já como integrante da campanha de Flávio, ele afirmou que a reorganização das contas públicas consumiria cerca de um ano e meio.
Ajuste preservaria aposentadorias e benefícios sociais, aponta Sachsida
A maior dificuldade está na composição do orçamento. Conforme o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, 91,7% dos gastos primários da União são obrigatórios, como aposentadorias, pensões, salários e transferências constitucionais. Apenas os 8,3% restantes são discricionários, sobre as quais o governo tem maior liberdade de decisão. A Previdência Social, sozinha, representa R$ 1,17 trilhão do Orçamento projetado.
Isso significa que uma redução expressiva de despesas exige mais do que cortar gastos administrativos, dependendo também de mudanças em regras que determinam a evolução de benefícios e outras despesas obrigatórias.
O debate ganhou relevância após o primeiro turno, quando passou a circular entre investidores o conteúdo de uma apresentação reservada do economista Luiz Felipe Trevisan, outro integrante da campanha de Flávio, que estipulou o corte de despesas em até R$ 200 bilhões, equivalente a cerca de 1,5% do PIB, por meio de uma “Super PEC”.
Entre as medidas discutidas estariam mudanças na correção de aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), além dos pisos constitucionais de saúde e educação. A campanha nega que essas propostas integrem seu plano oficial.
Em vídeo publicado em suas redes sociais na quinta-feira passada (8), Sachsida afirmou que um eventual governo Flávio preservaria e fortaleceria os programas sociais, além de descartar a privatização de Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Menos ministérios e menos burocracia
Também em sintonia com o que defende Flávio, as propostas do Projeto Brasil elaboradas por Sachsida já apresentavam medidas para reduzir a estrutura administrativa e os custos regulatórios do país.
O documento defende, por exemplo, a redução de 39 para 25 o número de ministérios. O plano de governo do senador do PL estabelece uma meta de cortar pelo menos dez pastas da atual estrutura.
Outra proposta do Projeto Brasil, chamada de PEC da Liberdade Produtiva, impediria que União, estados e municípios aumentem tributos, encargos trabalhistas e obrigações regulatórias sobre a atividade produtiva sem uma contrapartida de simplificação ou redução de custos equivalente ou superior.
Adolfo Sachsida também propôs revogar mais de mil atos normativos do governo atual que, segundo ele, aumentaram a burocracia sem trazer benefícios à população. A medida busca reduzir exigências que dificultam a abertura e a operação de empresas.
A ideia foi incorporada pela campanha, conforme indicou Daniella Marques no evento da Esfera Brasil. “Estamos preparando um grande revogaço de normas infralegais e burocracias para que a gente faça ainda nos 100 primeiros dias”, disse.
Economistas Adolfo Sachsida e Daniella Marques coordenam programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (PL)
Inclusão produtiva e inteligência artificial
Para Sachsida, o ajuste fiscal deve servir para criar condições de crescimento e mobilidade social. Uma das propostas do Projeto Brasil é o programa Microempreendedor Digital (MED), que pretende integrar assistência social, qualificação profissional, microcrédito e apoio ao empreendedorismo em uma única política pública. A ideia é ajudar beneficiários a abrir negócios e construir fontes próprias de renda.
A proposta se conecta à preocupação do economista com os efeitos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Ele defende preparar os trabalhadores para as mudanças tecnológicas e facilitar o acesso ao empreendedorismo, que considera uma via de inclusão produtiva.
Adolfo Sachsida quer mudanças na reforma tributária
Uma das propostas mais ousadas de Sachsida no Projeto Brasil é limitar a reforma tributária sobre o consumo aos tributos federais. Ele defende a continuidade da implantação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que substituirá PIS e Cofins, mas quer impedir o avanço do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que substituirá gradualmente ICMS e ISS.
Em artigos publicados na Gazeta do Povo, o economista já criticava, em 2023, a tramitação da reforma, proposta pelo governo Lula (PT). Em 2025, argumentou que a mudança no sistema tributário prometeu simplificação, mas pode produzir custos adicionais e incerteza jurídica.
Há cerca de duas semanas, em entrevista ao canal Esfera Cast, ele questionou os custos administrativos do Comitê Gestor do IBS e de fundos relacionados à reforma. Em suas estimativas, limitar a reforma à CBS evitaria cerca de R$ 170 bilhões em despesas até 2030.
A reforma tributária foi incorporada à Constituição pela Emenda Constitucional 132/2023 e regulamentada, entre outras normas, pela Lei Complementar 214/2025. O cronograma prevê a transição de ICMS e ISS para o IBS entre 2029 e 2032, com vigência integral do novo sistema em 2033.
Interromper a implementação do IBS exigiria rever esse arcabouço jurídico e afetaria a transição tributária de estados e municípios. No Projeto Brasil, argumenta-se que a mudança preservaria a autonomia federativa, mas a viabilidade da proposta depende da forma como seria alterada a legislação constitucional e complementar.
O economista também propõe reduzir o IOF, extinguir o Imposto Seletivo e acabar com o imposto de exportação do petróleo, medidas que reduziriam ou eliminariam receitas federais. As iniciativas convergem com o plano de Flávio, que estabelece inicialmente a redução do tamanho da máquina e o combate a desperdícios como condição para, com as contas equilibradas, abrir poder reduzir impostos.
O senador do PL já declarou que pretende reduzir as alíquotas do IOF aos níveis de 2022. Em agosto, Flávio afirmou publicamente que revogará a alíquota de 12% sobre as exportações de petróleo bruto, medida também confirmada por Daniella Marques.