Estudo aponta avanço da IA na advocacia, mas erros preocupam profissionais
São Paulo — O uso da inteligência artificial (IA) na advocacia tem crescido, mas a incorporação da tecnologia à rotina dos escritórios não vem sem uma dose de riscos à qualidade do trabalho jurídico. Além de poder produzir informações incorretas, as ferramentas correm o risco de deixar de fora argumentos importantes à defesa dos clientes sem que o profissional perceba, podendo até comprometer o andamento de um processo.O alerta é do advogado Bernardo de Azevedo, pós-doutor em Direito, perito digital e professor de Direito Digital. Em entrevista ao Metrópoles, ele afirmou que a capacidade de a IA apresentar informações falsas com a mesma fluência e segurança de uma resposta correta significa que os profissionais da advocacia precisam de atenção redobrada.“Os dois são perigosos porque a IA apresenta o certo e o errado com a mesma fluência e a mesma segurança, e mesmo as IAs jurídicas especializadas podem errar”, afirma.Uma pesquisa realizada pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) durante o evento Diálogos: IA e Advocacia, que contou com cerca de 300 respostas, ajuda a mostrar o espaço crescente que a tecnologia já ocupa no setor. Segundo o levantamento, 78,3% dos participantes relataram aumento no uso de IA nos últimos seis meses. Além disso, 88,4% atribuíram notas de 8 a 10 ao potencial da tecnologia para transformar a advocacia nos próximos cinco anos.“A advocacia está disposta a compartilhar tarefas com a inteligência artificial, mas não a transferir a ela suas responsabilidades. Esse entusiasmo vem acompanhado de uma consciência crítica importante”, afirma a presidente da AASP, Paula Lima Hyppolito de Oliveira.Por outro lado, o estudo também ilustra a preocupação dos profissionais da área com erros e informações inventadas pela IA — o temor foi relatado por 86,6% dos participantes. Quase todos também apontaram a necessidade de supervisão humana: 99,3% afirmaram que não utilizaram uma peça jurídica produzida por IA sem revisão profissional.Risco de erros e omissõesPara Azevedo, um dos problemas mais difíceis de detectar não é necessariamente a informação falsa, mas as informações que a ferramenta deixa de mencionar. Na visão do perito, uma citação incorreta pode ser conferida, mas a ausência de um argumento relevante pode passar mais facilmente despercebida.“Se o resumo da IA deixa de mencionar um argumento essencial, dificilmente se percebe o que ficou de fora, e esse argumento pode nunca chegar a quem decide”, explica, citando como exemplo uma súmula referenciada de maneira imprecisa, falha que pode resultar na não admissão de um recurso pelo juiz.A revisão humana continua indispensável — segundo o advogado, no entanto, não basta que o profissional leia superficialmente o material produzido pela ferramenta. Ele também alerta ao fato de que a confiança excessiva nos resultados pode levar à redução gradual do rigor das conferências.Outro risco está no comportamento dos próprios modelos. De acordo com Azevedo, algumas ferramentas tendem a simplesmente concordar com o usuário, sem questionar as premissas apresentadas. Isso significa que, ao solicitar uma avaliação de uma tese jurídica, por exemplo, o advogado pode receber uma resposta que apenas reforça seus argumentos, sem apontar as fragilidades da posição defendida.O especialista recomenda que as afirmações apresentadas pela IA venham acompanhadas dos documentos e trechos que as sustentam, a fim de reduzir os riscos. Também é necessário conferir a existência e a exatidão dessas referências, consultar normas e precedentes em fontes oficiais e ler as principais peças do processo, antes de confiar em um resumo automatizado. Leia também Matheus LeitãoInteligência Artificial jurídica pode exercer atividade de advocacia? Manoela AlcântaraIA na advocacia e nos tribunais será alvo de debate no Fórum de Lisboa ArtigosInteligência artificial, pão e circo (por Esther Paniagua) Rodrigo FrançaSeu emprego está preparado para a inteligência artificial? Sigilo profissional e proteção de dadosOs riscos não se restringem à qualidade das petições. O uso de ferramentas de inteligência artificial também pode expor informações confidenciais de clientes, especialmente quando os escritórios não estabelecem regras claras sobre quais dados podem ser compartilhados.A pesquisa da AASP identificou uma lacuna nesse campo: apenas 16,7% dos participantes afirmaram contar com políticas formais e documentadas para o uso de IA no ambiente profissional. Além disso, 50,4% disseram não saber ou não ter certeza sobre quais dados de clientes podem ser inseridos em ferramentas generativas.Segundo Azevedo, a ausência de regras deixa cada profissional responsável por decidir individualmente o que pode ou não ser enviado aos sistemas. O resultado pode ser a exposição de informações protegidas pelo sigilo profissional e o descumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).Nesse sentido, o advogado recomenda a adoção de medidas como:verificação das configurações de privacidade das ferramentas.avaliação da possibilidade de impedir que os dados enviados sejam utilizados para treinamento dos modelos.compartilhamento somente das informações estritamente necessárias.retirada, sempre que possível, de dados que permitam identificar os clientes e informar sobre o uso da tecnologia.Ele também sugere que a utilização de inteligência artificial seja esclarecida no próprio contrato de honorários, de modo que o cliente saiba como a ferramenta poderá ser empregada na prestação do serviço.Formação de novos advogadosA incorporação da IA também levanta questões sobre a formação dos profissionais que ingressam no mercado de trabalho. Para Azevedo, o desafio é garantir que os estudantes desenvolvam o raciocínio jurídico necessário para avaliar criticamente o conteúdo produzido pelas ferramentas.O advogado avalia que profissionais formados antes da popularização da IA generativa tiveram de desenvolver parte de suas habilidades por meio de atividades como pesquisar, selecionar informações e redigir textos. Já os estudantes que começam a carreira com acesso a essas ferramentas podem produzir trabalhos bem estruturados sem necessariamente adquirir, na mesma medida, a capacidade de executá-los de forma independente.Por isso, ele defende que a solução não seja proibir a tecnologia, mas ensinar a utilizá-la de maneira crítica. Uma possibilidade é incentivar o estudante a tentar resolver um problema jurídico antes de consultar a ferramenta e reservar momentos de estudo sem o auxílio da IA.