Gastos: no Brasil em transe, ou Flávio mente aos pobres ou “auzmercáduz”
Eis a questão: como Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, cortará, se eleito, algo entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões em despesas? Trata-se de uma soma fabulosa. Não me venham dizer que esse Hamlet do bolsonarismo — o fantasma do pai, aliás, assombra o país inteiro, não apenas a ele — está entre “o ser e o não ser” diante do crânio de Yorick. Esse príncipe da Zona Oeste do Rio já fez a sua escolha. O que ele precisa, agora, é escondê-la.
O seu Polônio da moderação, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que deveria sussurrar-lhe prudência atrás da cortina, converteu-se, também ele, ao extremismo, mas sempre com fala mansa. Resta, então, a aritmética, que não tem vocação para a hipocrisia. Só há um jeito de fazer o que eles julgam que tem de ser feito: os pobres pagarão a conta. Ver-se-á, assim, não um, mas uma pilha de “crânios” do “não ser”.
Daniella Marques, uma das pensadoras econômicas da turma, chegou a falar em um “cardápio de cortes”. É o primeiro restaurante da história em que se paga a entrada com o voto e só depois se fica sabendo quais pratos não serão servidos. O preço, esse sim, já se conhece, e fez brilhar os olhos “duzmercáduz”. A extrema direita ataca Lula por causa do preço da picanha… O filho do fantasma, segundo esses bambas, seria moralmente superior: com ele, carne nem em fatias. Se feito o que está nos planos, restará à mesa o pão amanhecido. E não faltará quem diga: “Para a pobrada, tá bom; picanha é para os meritocratas”.
AS PROMESSAS E GLAUBER ROCHA
Pressionado até por alguns dos seus apoiadores a dizer de onde sairá a grana dos sacrifícios, o postulante da ultradireita assegurou que não mexerá nos gastos sociais, na política de valorização do salário mínimo, no ganho real das aposentadorias, no BPC, no Minha Casa Minha Vida, no Farmácia Popular, no Bolsa Família e em tudo o mais que o leitor amigo se sentir tentado a incluir na lista. Seria ele, então, o verdadeiro candidato da continuidade? Se surgir um movimento pelo Chicabon de graça, ele assina embaixo. É o melhor presidente que ainda não foi eleito na história do país. Só não acena, por enquanto, com a volta da pessoa amada em três dias e o amor verdadeiro.
Ai, ai… Lembro-me da personagem Porfírio Díaz (Paulo Autran), o senador do filme “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. No país imaginário de Eldorado, Díaz é o salvador da pátria reacionário e de verbo inflamado, que fala em nome da ordem e do povo enquanto serve a quem manda de verdade: os grandes empresários e a Igreja, que lhe dão palanque e bênçãos. Termina coroado numa ópera macabra. O poeta Paulo Martins (Jardel Filho), que o apoiou e depois decidiu enfrentá-lo, morre baleado, e o país fica entregue à farsa. Quase sessenta anos depois, eis-nos aqui, correndo o mesmo risco. Millôr dizia que o Brasil tem um longo passado pela frente.
Não podemos deixar que se perca a cadeia (ops!) de metáforas e analogias. Os poetas desse Porfírio que salta da ficção para a realidade — assim como o de Glauber saltou da realidade para a ficção — estão, nos dias correntes, espalhados pelas redações e pelas colunas, encantados com a possibilidade de queda do “Velho Regime” que identificam com o petismo.
Boa parte do empresariado continua comprometida com a “ordem no caos”. Aquela Igreja não existe mais: nos dias correntes, o substantivo se flexiona no plural, e o Cristo de muitas delas perdeu a humanidade em nome do Deus dos Exércitos. Os templos da impostura estão ao alcance das mãos, e o “Apocalipse”, a um toque na tela. Sim, a distopia bate à porta. Mais uma vez, chegou a “hora e a vez” de Lula. O contraste é rigorosamente este: o salvador da democracia enfrenta o Salvador da Pátria.
MAIS PROMESSAS
O homem garante ainda que não tocará na vinculação constitucional dos gastos com Saúde e Educação. Convém lembrar como isso funciona.
Na Saúde, o artigo 198, § 2º, inciso I, da Constituição determina que a União destine, a cada ano, no mínimo 15% da receita corrente líquida. Na Educação, o artigo 212 fixa em 18% da receita de impostos o piso federal e em 25% o de estados e municípios, cada um sobre as suas receitas. Ou seja: nessas áreas, o dinheiro não depende do humor do mandatário. Se a arrecadação sobe, o piso sobe junto. Só emendas constitucionais alteram isso, e Congresso sabujo, no caso da vitória do reaça, não faltará.
Promete também reduzir os impostos das empresas, e nisso Porfírio Díaz reconheceria um discípulo aplicado, que sabe a quem deve o palanque. Tudo ao mesmo tempo? Vai manter os gastos sociais, reduzir a arrecadação e ainda enxugar entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões? Alguém avise a aritmética, que parece não ter sido convidada para a reunião.
Limito-me a perguntar, com a candura habitual: de onde (não) sairá o dinheiro? O ex-ministro Adolfo Sachsida, que ajuda a formular o programa econômico, deu a sua resposta em vídeo: o corte viria da contenção de supersalários e do fechamento de ministérios.
Pois é… Mesmo dando de barato os números mais generosos, isso renderia, sei lá, uns 2% do que os bacanas esperam ver cortado. Sachsida, além disso, descartou privatizar estatais e anunciou a valorização dos servidores. Ou a turma mente para “uzmercáduz” ou mente para os crânios que estão por vir. Façam suas apostas nas bets da picaretagem: adivinhem quem será enganado se esse misto de Hamlet da Zona Oeste com Porfírio Díaz triunfar nesta podridão da Dinamarca em transe…
SOFRER AGORA PARA GOZAR DEPOIS
Há, entre os apoiadores de Flávio, os que miram o “efeito Milei”: caso eleito, o Zero Um terá de ser duríssimo, mesmo atingindo a área social. Isso agradaria aos mercados e a setores da imprensa. E ele precisaria fazê-lo já no começo, com o bônus da adesão popular que todo eleito recebe. Não que eles saibam ou tenham lido, mas valeria a máxima de Maquiavel no capítulo VIII de “O Príncipe”, em tradução livre: o bem se faz aos poucos; o mal, de uma só vez.
Os fanáticos do sofrimento alheio e do próprio gozo — que vendem amanhãs sorridentes para os de baixo, entregando-os sempre… amanhã!!! — querem um arrocho sanguinolento de despesas caso a Quimera do Reacionarismo vença. A decisão inauguraria um ciclo de prosperidade, e até os atingidos ficariam gratos.
De novo: não que saibam, mas isto também está em “O Príncipe”, no capítulo XVIII, na tradução de Maurício Santana Dias (Companhia das Letras): “Então que o príncipe faça por conquistar e manter o Estado: os meios serão sempre julgados honrosos e merecerão o elogio de todos, pois o vulgo é capturado por aquilo que parece e pelo evento da coisa, e no mundo não há senão o vulgo — os poucos não têm vez quando a maioria tem onde se apoiar”. Atribui-se a Maquiavel, note-se, em razão dessa passagem, o que nunca escreveu: “Os fins justificam os meios”.
O trecho, com ou sem a distorção, só faria sentido se, na prática, depois de uma tesourada brutal contra os que já têm pouco, a bonança de fato lhes chegasse. Sangrias já aconteceram antes. A bonança nunca. Ou vocês acham que o Brasil chegou por acaso à condição de quinto país mais desigual do mundo? O dado está no “Relatório da Desigualdade Global” divulgado no ano passado pelo WIL (World Inequality Lab), grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty. Esse tipo de coisa não se improvisa. É construção de séculos.
Será que o gênio da raça vai inaugurar a pedra filosofal da economia? Honrará a área social, preservará a vinculação das verbas de Saúde e Educação, conservará o ganho real das aposentadorias e do salário mínimo, arrecadará menos e ainda cortará de R$ 250 bilhões a R$ 300 bilhões em despesas? A conta não fecha.
CONCLUO
Shakespeare reservou a Hamlet a dúvida; Glauber, a Porfírio Díaz, a certeza. O príncipe da Dinamarca hesitava porque sabia que cada escolha cobrava um morto. O senador de Eldorado era resoluto porque sabia que os mortos seriam sempre os do “outro lado”.
Paulo Martins, o poeta que ajudou a construir o “Salvador da Pátria” e acabou baleado pela farsa que ajudou a montar, tem muitos herdeiros nas redações de hoje a aplaudir a ópera-bufa e violenta que alguns prometem encenar. Que fique claro: “uzmercáduz” só estão eufóricos com Flávio porque ele já decidiu “o que ser” e, pois, está mentindo para os pobres, que arcarão, se eleito for, com o custo do “ajuste”. Diante dos crânios do porvir, ele não tem as dúvidas morais de um Hamlet. Só as certezas amorais de um Porfírio Díaz.