Ibovespa: após forte volatilidade, índice fecha em queda de 0,86%; o que explica?

23 de Set de 2026 - 17:50
 0  0
Ibovespa: após forte volatilidade, índice fecha em queda de 0,86%; o que explica?
B3 Bovespa Bolsa de Valores de São Paulo (Germano Lüders/InfoMoney)

O Ibovespa viveu uma sessão de fortes oscilações nesta quarta-feira (23), refletindo a combinação entre incertezas eleitorais, avanço do dólar, alta dos juros globais e novas preocupações com o cenário geopolítico. Depois de alternar entre expressivas perdas e ganhos ao longo do pregão, o principal índice da Bolsa brasileira terminou em queda de 0,86%, aos 185.814,09 pontos.

Logo na abertura, a reação inicial dos investidores foi negativa. O índice chegou a recuar 0,73%, aos 186.051 pontos, acompanhando o movimento dos contratos futuros e a repercussão de uma nova pesquisa eleitoral AtlasIntel/Bloomberg que voltou a mostrar o presidente Lula numericamente à frente do senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, ainda dentro da margem de erro.

A leitura de parte do mercado é que uma vitória de Lula reduziria a probabilidade de um ajuste fiscal mais profundo a partir de 2027, mantendo pressão sobre os prêmios de risco dos ativos brasileiros.

Já Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, aponta que o que está em jogo não é o nome de quem vai ganhar. “É a trajetória da dívida. Enquanto não houver um sinal claro de compromisso com as contas públicas, acredito que o investidor vai continuar exigindo juros mais altos para financiar o país e vai buscar proteção no dólar”, avalia.

Apesar do início turbulento, a Bolsa rapidamente encontrou suporte. Impulsionado principalmente por Petrobras (PETR3; PETR4), o Ibovespa virou para o campo positivo ainda na primeira hora de negócios e atingiu máxima de 188.772 pontos, equivalente a uma alta de 0,72%.

Saiba mais: Reeleição de Lula já está no preço da bolsa brasileira, avalia gestora americana

Segundo Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, o movimento de recuperação refletiu uma combinação de recompra técnica após a queda inicial e a recuperação dos preços do petróleo, que impulsionou as ações da estatal.

“A pesquisa eleitoral trouxe cautela inicialmente, mas a recuperação da Bolsa mostra que fluxo, commodities e fatores técnicos também estão falando alto”, avaliou.

No entanto, a recuperação não se sustentou. Ao longo da tarde, o Ibovespa passou a acompanhar a deterioração dos mercados internacionais e a nova rodada de fortalecimento do dólar. O avanço dos rendimentos dos Treasuries americanos, a volta do Brent para acima de US$ 100 por barril e a expectativa em torno da reunião entre Donald Trump e Xi Jinping levaram investidores a reduzir exposição a ativos de risco.

Dólar sobe e juros avançam

O movimento mais evidente do dia ocorreu no câmbio. Após oscilar ao redor da estabilidade, o dólar comercial ganhou força e fechou com alta de 1,28%, a R$ 5,167. O avanço refletiu tanto o fortalecimento global da moeda americana quanto a volta das preocupações domésticas ligadas ao cenário fiscal e eleitoral.

Analistas destacaram que a combinação entre uma disputa eleitoral apertada e a ausência de uma sinalização clara para a estabilização da dívida pública continua exigindo prêmio dos investidores.

Na mesma direção, os juros futuros subiram em toda a curva. A abertura das taxas acompanhou a alta dos Treasuries americanos, cujo rendimento de dez anos voltou a superar 5%, além da recuperação do petróleo, fatores que tendem a elevar as expectativas de inflação e reduzir o espaço para cortes mais agressivos de juros.

Petrobras sobe, mas bancos e Vale pesam

Entre as ações de maior peso do índice, Petrobras foi um dos poucos destaques positivos.

Os papéis da estatal avançaram apoiados pela alta do petróleo e por relatórios favoráveis de analistas, incluindo a elevação do preço-alvo pelo UBS BB, com recomendação de compra. PETR4 encerrou o dia em alta de 2,59%.

Por outro lado, Vale (VALE3) recuou 1,85%, mesmo com o minério de ferro registrando valorização. O movimento foi intensificado por realização de lucros e pelo ambiente global mais avesso ao risco.

Os grandes bancos também contribuíram para a pressão sobre o índice. Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC4) e Itaú Unibanco (ITUB4) recuaram cerca de 2%, enquanto Santander (SANB11) caiu cerca de 1%.

A performance dos bancos chamou atenção porque o setor vinha liderando parte da recuperação do mercado nas últimas semanas, impulsionado pela expectativa de um cenário eleitoral mais favorável ao mercado.

Exterior piora humor dos investidores

O ambiente externo também contribuiu para a mudança de direção da Bolsa brasileira.

Em Nova York, os principais índices recuaram, pressionados pela combinação entre petróleo mais caro e juros mais altos nos Estados Unidos. O retorno do Treasury de dez anos acima de 5% voltou a levantar dúvidas sobre o impacto de condições financeiras mais apertadas sobre a economia americana.

No mercado de commodities, o Brent interrompeu uma sequência de cinco quedas e voltou a superar a marca de US$ 100 por barril. A commodity reagiu a novas tensões no Oriente Médio após o ataque a uma embarcação no Estreito de Ormuz e ao tom mais duro adotado pelo presidente iraniano Masoud Pezeshkian durante a Assembleia Geral da ONU.

Segundo Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil, o petróleo mais caro e o avanço dos rendimentos dos Treasuries acabaram predominando sobre os fatores positivos observados no início da sessão.

Mercado e eleição

Para os analistas, a sessão desta quarta-feira mostrou que as eleições continuam sendo um dos principais vetores dos ativos domésticos, mas não o único.

O reconhecimento de que a disputa segue aberta aumentou a volatilidade dos mercados nas últimas semanas. Ao mesmo tempo, fatores como petróleo, juros globais, fluxo estrangeiro e expectativa para o encontro entre Trump e Xi continuam influenciando o comportamento dos investidores.

A avaliação predominante é que o mercado continuará sensível às pesquisas eleitorais até o primeiro turno, marcado para daqui a poucas sessões. Como resumiu um gestor ouvido pelo mercado, o resultado das urnas tende a ser mais importante do que qualquer nova sondagem.

Até lá, a expectativa é de que a volatilidade continue elevada, com o Ibovespa alternando momentos de otimismo e cautela à medida que investidores recalibram apostas para o cenário político e econômico de 2027.

“A eleição está fazendo preço no Ibovespa, sem dúvidas, com o mercado apostando em mudança no eixo fiscal. Até 4 de outubro, eu esperaria muita volatilidade e um índice preso perto dos 188 mil. O rompimento ou a correção devem vir do resultado das urnas, não das pesquisas. Com o resultado tão incerto, é um momento de o investidor gerir bem o risco, com posição menor e proteção, e não de apostar tudo em um cenário”, aponta Bassani.

The post Ibovespa: após forte volatilidade, índice fecha em queda de 0,86%; o que explica? appeared first on InfoMoney.