Do remédio ao exercício: o que mudou no tratamento da insuficiência cardíaca

9 de Out de 2026 - 00:50
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Do remédio ao exercício: o que mudou no tratamento da insuficiência cardíaca

Estima-se que entre 2 e 4 milhões de brasileiros – ou 1% da população adulta – convivam com a insuficiência cardíaca (IC), ainda pouco conhecida e subtratada, mas que é uma das principais causas de morte em pessoas com mais de 60 anos.

Pessoas internadas pela doença têm um risco até quatro vezes maior de morte do que aqueles hospitalizados por infarto. E muitas vezes a descompensação acontece por questões evitáveis, como a falta de acompanhamento médico ou mesmo de diagnóstico adequado. 

Para tentar mudar esse cenário, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) lançou nesta quinta-feira, 8, uma nova diretriz de tratamento da doença. Entre os destaques, estão o uso mais intensivo e precoce de medicamentos, novas classes terapêuticas e ênfase no acompanhamento multidisciplinar. 

O documento foi anunciado no 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia, que acontece no Rio de Janeiro, concomitante ao Congresso Mundial de Cardiologia. O evento reúne 15 mil profissionais de saúde para discutir temas quentes da saúde cardiovascular, entre eles a IC. 

O cardiologista Marcus Vinícius Simões, presidente do Departamento de Insuficiência Cardíaca da SBC e coordenador da nova diretriz, vê o lançamento como uma oportunidade de ampliar a conscientização sobre a doença e melhorar seu manejo. 

“Há um percentual muito grande de pacientes que deveriam estar recebendo os medicamentos, que melhoram a qualidade de vida e prolongam a vida, mas não estão”, comenta Simões, que estima que apenas metade dos diagnosticados façam o tratamento adequado. 

Ele destaca ainda que a população e mesmo profissionais de saúde ainda tem dificuldade de reconhecer a IC. “Queixas como pernas inchadas, cansaço e falta de ar durante o esforço físico são vistas como ‘coisa da idade’, mas são sinais de alerta que devem ser investigados”, destaca o médico. 

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A seguir, confira o que vai mudar no tratamento da insuficiência cardíaca. 

Remédios entram cada vez mais cedo

Uma das principais mudanças é na lógica de como e quando tratar a insuficiência cardíaca. “No modelo clássico, as medicações eram introduzidas aos poucos, com um intervalo longo entre elas. Mas hoje sabemos que há um benefício muito grande da introdução mais precoce possível”, destaca Simões. 

O médico se refere às quatro classes terapêuticas usadas no tratamento da IC de fração de ejeção reduzida (ICFEr, um dos dois tipos da doença): 

  • Inibidores da neprisilina e do receptor de angiotensina, conhecidos pela sigla INRA, como o medicamento valsartana;
  • Betabloqueadores, que protegem o músculo cardíaco, como o carvedilol e succinato de metoprolol;
  • Antagonistas da aldosterona, que impedem a formação de fibroses no coração, como a espirolactona; 
  • Inibidores de SGLT-2, categoria originalmente criada para o diabetes, mas que também protege o peito, caso da dapagliflozina.
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Todos devem ser usados por indivíduos com ICFEr, mas, tradicionalmente, se levava cerca de seis meses até que as doses máximas fossem atingidas. Com a nova proposta, o tempo cai para dois, antecipando a proteção oferecida por essas drogas. 

A diretriz inclui ainda um algoritmo que ajuda o médico a realizar a introdução dos medicamentos. Lembrando que todas as categorias já são distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

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Novas moléculas para a ICFPe

No tratamento da insuficiência cardíaca de função de ejeção preservada (ICFPe), mais ligada à obesidade e outras condições inflamatórias, como a diabetes, a principal novidade é a inclusão da finerenona como parte do tratamento.

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O medicamento, comercializado sob o nome Firialta, foi lançado em 2023 pela Bayer para o tratamento da doença renal crônica, mas estudos demonstraram seu potencial também para a IC.

Ele atua como a espironolactona, inibindo a ação da aldosterona – hormônio que, em excesso, provoca danos ao coração. “Mas com a diferença de não atuar diretamente nos níveis hormonais, evitando assim alguns efeitos colaterais importantes”, comenta Simões. 

Outro acréscimo ao tratamento deste tipo da IC são os análogos de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras. “Elas não só atuam na obesidade, que é uma das causas da ICFPe, como reduzem a inflamação que afeta o coração”, destaca o médico. 

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Nem tudo é medicamento

A diretriz destaca a importância do acompanhamento multidisciplinar para o sucesso do tratamento. “Ele é necessário para melhorar a qualidade de vida e atender às necessidades do paciente”, sublinha o médico. 

Essa abordagem inclui o atendimento de preferência em centros especializados em IC, e a participação de profissionais como enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, educadores físicos e nutricionistas. 

O exercício físico, que costuma ser temido por quem doenças cardíacas, também entra na recomendação como parte fundamental do manejo da IC. “Tanto para combater a perda de massa magra ligada à doença quanto para melhorar sua capacidade cardiorrespiratória”, diz Simões. 

A orientação vale para treinos resistidos (de força) e aeróbicos (como caminhadas e corridas), mas toda atividade física deve ser feita com orientação e liberação médica. Ela só é contraindicada em casos muito avançados, instáveis ou na presença de condições agudas, como miocardites e infecções sistêmicas.

Falando em infecções, a diretriz elenca a vacinação como medida fundamental para evitar as complicações da insuficiência cardíaca. Isso porque infecções agudas, em especial as respiratórias, podem sobrecarregar o sistema cardiovascular e elevar o risco de infartos e AVCs, em especial em portadores de doenças como a IC. 

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Por fim, os cardiologistas avaliaram o nível de evidência sobre o uso de suplementos populares neste cenário, como ômega-3, coenzima Q10, vitamina D e outros. E não existem provas robustas de que nenhum funcione, então eles não são recomendados. 

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