Manifestações de rua podem mudar os rumos do segundo turno?

13 de Out de 2026 - 19:50
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Manifestações de rua podem mudar os rumos do segundo turno?
    • Author, Pedro Martins e Luiz Fernando Toledo
    • Role, Da BBC News Brasil em Londres
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    • Role, da BBC News Brasil em São Paulo
  • Published Há 27 minutos
  • Tempo de leitura: 9 min

O presidente reuniu milhares de apoiadores na avenida Paulista, em São Paulo, no domingo (11/10). Também houve atos a favor do petista em Copacabana, no Rio de Janeiro, e em outras dezenas de cidades pelo Brasil.

Seu adversário nas urnas, o senador , passou o mesmo dia em um almoço de campanha na capital paulista, e aliados dele confirmaram, para o próximo domingo (18/10), um ato em seu apoio, também na Paulista.

O senador aparece três pontos à frente do petista nas intenções de voto para presidente no segundo turno, segundo o

Mas qual deve ser o real impacto dessas movimentações no dia 25 de outubro, quando os eleitores voltam às urnas para decidir a eleição?

Nossa reportagem fez essa pergunta a cientistas políticos, que têm pontos tanto de concordância quanto de discordância entre si e apresentam justificativas para os seus argumentos.

Eles concordam que é difícil as manifestações virarem votos, mas divergem sobre o efeito dos atos na abstenção.

Ruas cheias podem 'furar bolhas'

Diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, Andreza Aruska diz que as manifestações "podem mudar as eleições, sim, pensando principalmente na abstenção e nos indecisos".

"Pode informar, animar, dar um sentido de urgência que pode levar as pessoas a sentirem a importância individual da sua presença", diz a professora.

Veja a intenção de voto no 2º turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

Fim da Promoção Agregador de pesquisas

Segundo ela, os atos podem enfraquecer as chamadas bolhas sociais, fruto em grande parte dos algoritmos das redes, que levam as pessoas a interagir cada vez mais apenas com quem pensa de maneira semelhante.

O analista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, lembra que, ao fim do primeiro turno, a campanha de Lula foi criticada justamente pela falta de mobilização de sua base. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula — diferença de 1,87 ponto percentual.

"As críticas enfatizavam, de certa maneira, que o PT havia perdido a conexão com as ruas, sua base histórica, e com a juventude, então houve uma reconfiguração", diz Prando. O ato de domingo teve forte presença de "fandoms" — grupos de fãs organizados nas redes, formados em sua maioria por jovens — e o apoio de ídolos da geração Z, como o cantor Jão.

A professora Maria do Socorro Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tem avaliação similar.

Braga vê potencial para reduzir a abstenção — que no primeiro turno chegou a 33,4 milhões de pessoas (21,08% do eleitorado), o maior nível desde 1998 — e também os votos brancos e nulos, que somaram 4,77%.

"No segundo turno, o comparecimento é decisivo. Manifestações volumosas mantêm o clima eleitoral aquecido, incentivando o eleitor desmotivado", afirma.

"Uma rua cheia passa a percepção de que determinado candidato tem fôlego e viabilidade de virada ou consolidação, o que pode atrair apoios de lideranças políticas regionais neutras."

E qual o impacto dos atos nas redes sociais?

Partindo da ideia suscitada pelos pesquisadores de que as manifestações nas ruas possam produzir engajamento virtual — a partir da geração de fotos e vídeos virais —, a BBC News Brasil apurou o engajamento de Lula e Flávio nas redes sociais.

O levantamento foi feito pela BBC News Brasil a partir do Social Blade, ferramenta amplamente utilizada por profissionais de marketing para acompanhar performances de usuários nas redes sociais.

Entre o primeiro turno (4/10) e esta terça-feira (13/10), logo após as manifestações nas ruas, Lula viu seu número de seguidores no Instagram aumentar em 8,18%, passando de 15,8 para 17,1 milhões. Já Flávio viu seus seguidores crescerem 9,36%, indo de 12,7 para 13,9 milhões.

No mesmo intervalo, os inscritos de Lula no YouTube cresceram 3,45%, e os de Flávio, 7,14%. No TikTok, o presidente viu sua quantidade de seguidores ter uma alta de 3,39%, enquanto a alta do senador foi de 4,17%.

No Facebook, como não há seguidores, o Social Blade informa a quantidade de curtidas nas páginas de cada um: Lula registrou um aumento de 4,65%, enquanto Flávio viu um crescimento de 12,99%.

Apesar de Flávio ter crescimentos superiores a Lula, quando se olha para um recorte comparando sábado (10/10) e segunda-feira (12/10) — ou seja, um dia antes e um dia depois das manifestações —, o presidente teve altas superiores às do senador na maior parte das redes.

Nesse intervalo, Lula teve um crescimento de 2,01% no número de seguidores no Instagram, ante 1,03% de Flávio; no YouTube, os inscritos do presidente aumentaram 1,12%, ante 0,67% do senador; no TikTok, não houve alterações expressivas; no Facebook, por fim, quem levou a melhor foi Flávio, que teve o crescimento de 1,09% no número de curtidas de sua página, enquanto Lula viu uma alta de 0,90%.

Já um levantamento da Zeeng, plataforma de monitoramento de redes sociais, analisou 121 posts publicados pelos perfis oficiais dos dois candidatos no Instagram, no YouTube e no TikTok entre 10 e 12 de outubro.

Os dados foram capturados em 13 de outubro e correspondem ao que as plataformas exibem publicamente, o que inclui alcance orgânico e impulsionado, ressalva o analista Edu Prange, CEO da Zeeng.

Cada rede é medida de um jeito: as interações no Instagram somam curtidas e comentários; no YouTube e no TikTok, pelo número de visualizações. Por isso, os números de uma rede não podem ser somados aos de outra. Posts de outros perfis, como o PT Brasil, ficaram de fora.

No Instagram, Lula teve 11,1 milhões de interações no sábado, 10 milhões no domingo (dia do ato) e 8,9 milhões na segunda. O volume dele, portanto, caiu a cada dia, e o domingo não foi o seu melhor dia. Flávio teve 3,5 milhões no sábado, 2,2 milhões no domingo e 4,1 milhões na segunda.

Somando as interações dos dois candidatos em cada dia, Lula obteve 76% das interações na rede no sábado, 82% no domingo e 68% na segunda. A parte de Lula nas interações subiu no domingo, apesar de o volume dele ter caído, porque o de Flávio caiu mais.

Na segunda, dia seguinte às manifestações, aconteceu o contrário: Flávio subiu para 4,1 milhões, e a parte de Lula voltou a diminuir.

Mas os números de Flávio pedem cuidado, porque ele publicou poucos posts (dois no sábado, dois no domingo e três na segunda), enquanto Lula publicou de 10 a 12 por dia.

No YouTube, as visualizações dos dois subiram no domingo em relação ao sábado: as de Lula passaram de 1,78 milhão para 2,01 milhões (alta de 13%), e as de Flávio, de 599 mil para 964 mil (alta de 61%).

Boa parte desses números vem de transmissões ao vivo, que também aconteceram em outros dias de campanha.

A live de Lula no domingo ("Lula em São Paulo") teve 713 mil visualizações, cerca de um terço do total do dia, e uma transmissão dele no sábado, no Rio Grande do Norte, teve 626 mil.

Já no dia seguinte, Lula recuou para 1,22 milhão, e Flávio chegou a 1,01 milhão.

No TikTok, os volumes são bem menores. As visualizações de Lula caíram a cada dia (233 mil, 164 mil e 87 mil), e as de Flávio, que publicou um vídeo por dia, foram de 52 mil, 67 mil e 12,5 mil.

Diferentemente do Instagram e do YouTube, nessa rede a parte de Lula aumentou na segunda, chegando a 88% do total dos dois.

O próprio levantamento faz uma ressalva: os posts de segunda-feira estavam no ar havia menos tempo no momento da coleta (entre 13 e 31 horas, contra 60 a 79 horas dos de sábado), o que tende a fazer o dia seguinte parecer pior do que foi, para os dois candidatos.

Além disso, o Instagram e o TikTok mostram números arredondados, e a análise considera apenas os perfis oficiais, sem medir o que circulou nas contas de apoiadores e fandoms.

Votos já parecem cristalizados, afirmam cientistas políticos

Os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil acreditam que a ideia de "virar votos" é muito difícil em uma sociedade polarizada e, nas palavras de Braga, diante de um "cenário de cristalização".

Um indicativo é a migração dos eleitores dos candidatos eliminados no primeiro turno.

Na primeira pesquisa Datafolha do segundo turno, divulgada na última quinta-feira (8/10), 46% dos eleitores de Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) disseram que votarão em Flávio, 32% em Lula e 15% em branco ou nulo.

No total, o levantamento mostrou Flávio com 49% e Lula com 45% (52% a 48% nos votos válidos), empate técnico no limite da margem de erro, de dois pontos percentuais.

O professor Alberto Carlos de Almeida, autor de A Cabeça do Brasileiro e A Cabeça do Eleitor, acrescenta que as manifestações, embora reúnam centenas de milhares de pessoas, podem ser vistas como "tentativas de persuasão muito individual".

"Entre as pessoas que vão a manifestações do Lula, cria-se um clima de vitória do Lula; mas existem as manifestações de Flávio, e entre quem vai nelas também criam um clima de vitória de Flávio. É clima contra clima", diz.

Para ele, a persuasão é possível, mas tende a funcionar melhor em ambientes menores, entre pessoas que já se conhecem.

"Por isso é muito difícil virar voto. Tem que ser caso a caso, com perfil específico de interlocutor e com argumento muito específico."

O que mostram as eleições de 2018 e 2022

As duas últimas eleições presidenciais reforçam a cautela.

Em 2018, o movimento #EleNão levou milhares de mulheres às ruas contra Jair Bolsonaro, numa disputa marcada, lembra Rodrigo Prando, pelo atentado a faca sofrido pelo candidato em Juiz de Fora (MG), pelo antipetismo ligado à Lava Jato e ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e pela rejeição ao governo de Michel Temer.

Naquele ano, o #EleNão ocorrido no dia 29 de setembro, às vésperas do primeiro turno em 7 de outubro, foi considerada a maior manifestação de mulheres da história do país. Bolsonaro liderava as pesquisas de intenção de voto naquele momento, com 28%.

Desde o início da campanha, o ex-presidente teve trajetória de crescimento. Tinha 20% no final de agosto, foi para 22%, então 26% — dados do Ibope.

Mesmo com as manifestações, ele terminou o primeiro turno com 46,03% dos votos válidos, 17 pontos percentuais acima de Fernando Haddad (PT), que obteve 29,3%.

Para o cientista político, esse cenário de "desejo enorme de mudança" favoreceu Bolsonaro nas eleições de 2018.

"Naquele momento, a gente chamava até o Bolsonaro de candidato Teflon — nada colava nele. Então, mesmo com o movimento do #EleNão, ele continuava fazendo afirmações misóginas, machistas e preconceituosas", lembra Prando.

"Então, manifestações a favor ou contra não foram as determinantes."

Em 2022, a eleição foi decidida por 50,90% a 49,10% em favor de Lula, em meio a mobilizações dos dois lados, como os atos de 7 de Setembro convocados por Bolsonaro.

Para Braga, o eleitor pendular se guiou menos pela quantidade de pessoas reunidas em uma avenida do que pelo preço dos alimentos, pela inflação e pelos programas de auxílio.

"Não são as manifestações efetivamente ou as ruas cheias que determinam o resultado eleitoral", afirma Prando, para quem os atos podem, porém, mostrar força política e mudar a percepção sobre a viabilidade de uma candidatura.

E o que pode acontecer com os próximos atos?

Após o sucesso da manifestação pró-Lula na avenida Paulista, Flávio Bolsonaro convocou um ato de apoiadores para o mesmo local no próximo domingo, dia 18.

A estratégia é fazer um "bloquinho" na data para tentar uma virada na capital paulista. No primeiro turno, Lula venceu na cidade, com 46,58%, contra 42,13% do candidato do PL. A diferença entre os dois foi de 291.602 votos.

Para Braga, um ato de porte semelhante no próximo domingo reduziria a vantagem de imagem de Lula, mas não necessariamente alteraria a disputa pelo eleitor indeciso.

"Se a candidatura oposicionista realizar uma mobilização proporcionalmente equivalente, ela anula o efeito psicológico e de imagem da vantagem do adversário nas ruas", diz.

Prando considera provável que Flávio também leve muita gente às ruas, o que seria compatível com um país polarizado. Nesse cenário, afirma, haveria uma "guerra de números" sobre quem mobiliza mais.

"Não sei se chega a neutralizar o ato de Lula, mas mostra que ele também tem apoio. Ele não teria saído à frente no primeiro turno se não tivesse apoio. Agora a questão é: desses que votam, quantos estão dispostos a ir às ruas?"

A dimensão dos atos, porém, não mostra quantos participantes estão indecisos, quantos poderiam mudar de voto ou quantos irão às urnas.

Para medir os efeitos eleitorais, ele diz, será preciso e a repercussão entre eleitores que não estão diretamente envolvidos nas campanhas.

"É preciso analisar caso a caso, e não são as manifestações efetivamente ou as ruas cheias que determinam o resultado eleitoral."