Mounjaro, escala 6×1, petróleo: as “cartadas econômicas” de Lula para o 2º turno

6 de Out de 2026 - 18:10
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Mounjaro, escala 6×1, petróleo: as “cartadas econômicas” de Lula para o 2º turno

A menos de três semanas do segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta em um pacote de "armas econômicas" de apelo direto ao bolso do eleitor para tentar reverter a vantagem registrada por Flávio Bolsonaro nas urnas neste domingo (4).

A lista inclui o fim da escala de trabalho 6x1; a distribuição de canetas emagrecedoras, como Mounjaro e Ozempic, pelo Sistema Único de Saúde (SUS); o reajuste do teto do Microempreendedor Individual (MEI) e a exploração de terras raras e de petróleo na Margem Equatorial.

“Vamos convencer o povo brasileiro da importância de continuarmos com um projeto tecnológico, de desenvolvimento de terras raras e minerais críticos, da nova descoberta de petróleo, e a gente vai ver o que é a nova indústria do Brasil. Agora até a canetinha de emagrecimento a gente vai fazer com que as pessoas que precisem vão ter de graça pelo SUS”, declarou Lula no discurso após o resultado do primeiro turno.

As cartadas buscam reverter a vantagem de 1,87 ponto percentual de Flávio Bolsonaro contra o petista. O candidato do PL registrou 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, uma vantagem de pouco mais de 2,2 milhões de votos.

A campanha de Lula concentra-se principalmente em mobilizar os 33 milhões de eleitores que se abstiveram no primeiro turno (21,1% do eleitorado nacional) e atrair os 9,3 milhões de votos dados aos candidatos que ficaram fora do segundo turno. O diagnóstico de analistas, porém, é de ceticismo.

"Reeleição funciona sob a lógica de um plebiscito: o eleitor avalia se vale a pena dar mais uma chance ao governante. No caso de Lula, que já teve três mandatos, a pergunta é ainda mais direta: por que mais quatro anos, se no terceiro mandato não veio a percepção de melhora de vida que foi prometida?", questiona Luan Sperandio, analista político e diretor de operações do Ranking dos Políticos.

Lula aposta em medidas de forte apelo popular

A principal aposta de apelo popular é a extinção da escala de trabalho 6x1, com a redução da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais. A medida conversa diretamente com trabalhadores do comércio, serviços, transportes e segurança, permitindo o resgate do discurso de classes e de proteção social.

Após acordo de Lula com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a análise da proposta será retomada em sessões plenárias agendadas para esta semana.

Os especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam essa como a pauta de maior apelo eleitoral direto no curto prazo. "É uma pauta simples, concreta e que conversa com o trabalhador", diz Sperandio. O calendário, porém, joga contra: com a oposição fortalecida pelas urnas, a votação no Plenário pode ficar para depois do segundo turno.

Entidades de comércio, serviços e indústria argumentam que a redução da jornada sem corte salarial elevaria custos em setores de funcionamento contínuo.

Estudo divulgado em setembro pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) aponta que o custo da mão de obra pode aumentar 20% para as empresas, com grande possibilidade de repasse nos preços ao consumidor.

No campo da saúde, Lula anunciou a distribuição de medicamentos injetáveis contra a obesidade pelo SUS. A medida também pode funcionar como um aceno à classe média, especialmente diante do alto custo dos medicamentos para emagrecimento.

A exploração da Margem Equatorial e o desenvolvimento da cadeia de minerais críticos e terras raras também aparecem entre as apostas do governo.

O reajuste do teto do MEI se soma ao portfólio de acenos ao eleitorado. O limite anual de faturamento para permanecer no regime está congelado em R$ 81 mil desde 2018. Na semana passada, Lula prometeu elevá-lo para R$ 140 mil e permitir a contratação de um segundo funcionário pelos pequenos empreendedores.

Na prática, a mudança permitiria que mais empreendedores permanecessem enquadrados no regime simplificado, com menor carga tributária e burocrática.

Acenos eleitorais esbarram na realidade fiscal

A eficiência desse pacote, entretanto, é questionada pela realidade das contas públicas e pelo cotidiano das famílias.

"O governo operou com duas cabeças: uma voltada para a responsabilidade perante o mercado e outra para a expansão das políticas sociais. Ao não definir com clareza como conciliaria essas duas dimensões, perdeu capacidade de comunicação e deixou crescer a percepção de que seus resultados são ruins", diz o cientista político Rogério Baptistini, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Outro problema, segundo Sperandio, foi a troca das regras de controle de gastos — o teto pelo arcabouço fiscal —, que gerou expansão acelerada de despesas. Dados do Tesouro Nacional apontam que as despesas totais cresceram cerca de 5% ao ano acima da inflação no governo Lula entre 2023 e 2025.

Essa dinâmica fiscal pressionou o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Entre junho de 2025 e março de 2026, os juros chegaram a 15% ao ano, maior nível em quase 20 anos. Hoje, a Selic está em 13,75% ao ano.

O efeito colateral apareceu na ponta, segundo analistas do mercado de crédito: recordes de endividamento e inadimplência entre as famílias e forte alta nas recuperações judiciais, extrajudiciais e falências de empresas.

"As políticas sociais do governo Lula são importantes, mas foram acompanhadas de uma deterioração das expectativas", afirma Baptistini.

A aposta em converter demandas sociais em votos às vésperas do pleito, argumenta, é a necessidade de "correr atrás do tempo perdido" para corrigir omissões de quatro anos.

Desvantagem impõe desafio à campanha de Lula no segundo turno

A desvantagem de Lula impõe à campanha a necessidade de uma recuperação rápida em apenas três semanas. O obstáculo mais imediato é material: 20 dos 27 estados já definiram suas disputas para governador no primeiro turno, desmobilizando os palanques locais, e esse mesmo contingente historicamente migra pouco nas três semanas finais.

A oposição garantiu vitórias expressivas nos governos estaduais já no primeiro turno, em praças decisivas como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. Dos 20 governadores eleitos sem necessidade de segundo turno, dez são alinhados a Flávio Bolsonaro e apenas cinco a Lula.

E a reorganização das forças políticas não se limitou aos estados. A consolidação de uma "onda conservadora" no Congresso Nacional agrava a desvantagem do Planalto.

Números de Lula não convencem o eleitor

Conforme fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, a desvantagem de Lula no primeiro turno evidencia o desgaste de um modelo econômico pautado na expansão de gastos sem o correspondente alívio no bolso da classe média.

"Há mais emprego, mais gente ocupada, a renda cresceu, mas o problema é que as pessoas não conseguem perceber isso em suas vidas cotidianas", ressalta o professor do Mackenzie.

Sperandio, do Ranking dos Políticos, lembra que a reeleição é julgada pelas entregas reais do governante. "Quando a inflação percebida corrói os ganhos e o endividamento sufoca a renda, os acenos populistas de última hora perdem força diante do desejo de mudança", aponta.