“Não existem mercadores de amigos” – Entenda as lições de ‘O Pequeno Príncipe’ sobre amizade
Ter muitos conhecidos não significa, necessariamente, construir amizades. Em “O Pequeno Príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry aborda essa diferença durante o encontro do protagonista com a raposa, quando os dois conversam sobre o tempo necessário para conhecer alguém e criar laços. É nesse contexto que surge uma das reflexões mais conhecidas da obra: “Os homens compram coisas dos mercadores; mas, como não existem mercadores de amigos, eles não têm amigos.”
A passagem pertence à obra literária, publicada originalmente em 1943, décadas antes das adaptações que levaram a história para outras mídias. O livro acompanha um aviador que, após sofrer uma pane no avião, encontra no deserto um pequeno príncipe vindo de outro planeta. A partir desse encontro, o garoto relata sua trajetória por diferentes lugares e os personagens que conheceu pelo caminho.
A história ganhou diferentes adaptações, incluindo a animação “O Pequeno Príncipe (2015)”, dirigida por Mark Osborne, que acrescenta uma nova narrativa ao clássico. A reflexão sobre os “mercadores de amigos”, porém, tem origem no livro de Saint-Exupéry.
Significado de “mercadores de amigos”
Pouco antes da reflexão, o Pequeno Príncipe conta à raposa que procura amigos. Ela então apresenta a ideia de “cativar” e criar laços, um processo que exige paciência e aproximação gradual. A comparação com os mercadores reforça o sentido de que, enquanto produtos podem ser adquiridos prontos, uma amizade precisa ser construída para que alguém deixe de ser apenas mais uma pessoa entre tantas.
A própria aproximação dos personagens exemplifica esse processo. A raposa orienta o Pequeno Príncipe a se sentar primeiro a certa distância e, aos poucos, chegar mais perto. Também destaca a importância dos ritos, como retornar no mesmo horário, capazes de tornar determinado momento especial. É por meio da convivência e da repetição desses encontros que o vínculo entre os dois ganha significado.
Essa mudança aparece ainda nos campos de trigo. Antes indiferentes para a raposa, eles passam a lembrá-la dos cabelos dourados do Pequeno Príncipe depois que os dois criam laços. A imagem reforça como uma relação pode atribuir novos significados a elementos antes comuns.
O que a reflexão de O Pequeno Príncipe diz sobre as amizades?
Embora tenha sido publicada há mais de oito décadas, a passagem dialoga com uma questão ainda presente nas relações. Uma pesquisa publicada em 2024 na revista PLOS One mostrou que mais de 75% dos participantes estavam satisfeitos com a quantidade de amigos, mas mais de 40% desejavam maior proximidade com eles.
Os dados ajudam a mostrar que quantidade e proximidade são aspectos diferentes da amizade. Na obra, isso aparece na relação com a raposa, já que a convivência faz os personagens deixarem de ser desconhecidos e criarem um vínculo particular.
É nesse contexto que a frase sobre os “mercadores de amigos” ganha sentido. Mais do que dizer que uma amizade não pode ser comprada, a passagem mostra que os laços são construídos com tempo, convivência e dedicação ao outro.