Sistema de ônibus sob investigação em SP segue caótico para passageiros

28 de Set de 2026 - 03:20
 0  0
Sistema de ônibus sob investigação em SP segue caótico para passageiros

A Operação Vectura Corrupta apontou envolvimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) com 12 das 22 empresas do sistema de ônibus municipal de São Paulo. Todas atuam em bairros da periferia, onde os coletivos circulam abarrotados e com intervalo excessivo, isso quando não quebram no meio do caminho, um caos diário na vida das pessoas. A operação desencadeada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), com participação da Polícia Civil, levou para a cadeia até mesmo o ex-presidente da Câmara Milton Leite (União), um dos principais aliados do prefeito Ricardo Nunes (MDB).Como mais da metade das empresas foram alvo da investigação, especialistas apontam que só descontrole ou “cegueira deliberada” fez com que a prefeitura não tenha despertado anteriormente para a atuação do crime organizado dentro das empresas.As investigadas fazem parte do grupo de distribuição, que atua principalmente na periferia da capital. Elas transportaram cerca de 73 milhões de passageiros em agosto, o equivalente a 41% do total (177 milhões).Uma dessas empresas é a Transwolf, que nega irregularidades sempre que questionada e sobre prestar serviço em lotes sob intervenção da prefeitura desde 2024. Mesmo sob comando da administração municipal, a qualidade do serviço prestado pelos ônibus ainda adesivados como sendo da companhia não melhorou, como tem constatado o Metrópoles em reportagens feitas ao longo desses últimos dois anos.8 imagensFechar modal.1 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles2 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles3 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles4 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles5 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles6 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles7 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles8 de 8Ônibus na zona sul de São PauloWilliam Cardoso/MetrópolesO coletor Edmar Olímpio, 37 anos, mora no Grajaú e trabalha também na zona sul, na Vila das Belezas. Acorda às 5h, todo dia. Na terça-feira (25/9), às 18h30, tentava embarcar em um ônibus com logo da Transwolf na Avenida Dona Belmira Marin, no retorno para casa. Viajou na escada, espremido pela porta. “Ontem, estava pior. Passavam 10 ônibus e nenhum parava”, afirmou.A situação não é diferente em outro bairro mais ao sul, na mesma região, o que obriga os passageiros a encontrarem uma solução.Basta parar em frente à Estação Varginha em um início de noite para ver a quantidade de pessoas aguardando transporte por aplicativo, a alternativa à demora, desconforto e imprevisibilidade dos ônibus.Na última semana, o vigilante Márcio Monteiro, 32 anos, era um deles. Ele trabalha na região central, próximo à Praça Júlio Prestes, utiliza os trens para chegar mais próximo de casa, mas faz o trecho final com carro por aplicativo. “É muita demora. Para mim, compensa pegar o Uber e chegar mais rápido para poder sair amanhã cedo para trabalhar. Por mês, vou gastar R$ 300, R$ 400”, disse.Dentro de um dos dois terminais que levam o nome do Varginha, quem aguarda os ônibus lamenta a situação. A diarista Maria José Cardoso, 49 anos, reclama do desconforto e, principalmente, do intervalo excessivo entre os coletivos. “É de 20 em 20, 40 em 40 minutos. Nunca tem ônibus. Isso quando não sai daqui e quebra ali fora”, afirmou.Todo esse sistema precarizado onde viajam Edmar, Maria José e milhões de habitantes da maior cidade do país custou aos cofres públicos, em subsídios, mais de R$ 7,1 bilhões no ano passado. Esse dinheiro serve para cobrir gratuidades e a diferença entre a tarifa básica de R$ 5,30 e a tarifa técnica de R$ 13,49 (quanto custaria a passagem, sem a grana injetada pela prefeitura). Para 2026, a prefeitura previa um gasto de R$ 6,22 bilhões. Até setembro, já foram executados R$ 6,29 bilhões.Apesar desse montante, o sistema tem perdido passageiros ano a ano, após breve retomada no pré-pandemia. Em comparação com 2024, a queda nos oito primeiros meses do ano foi de 5,4%. Se comparado a 2025, 3,6%. Com relação a 2019, período anterior à pandemia, os ônibus municipais perderam praticamente um em cada quatro passageiros (23%).Falhas na prestaçãoCoordenadora-adjunta do Núcleo de Mobilidade Urbana do Centro de Estudos das Cidades do Insper, Suzana Leite Nogueira afirma que há vários pontos indicando falhas na prestação de serviço no transporte público da capital paulista.Um dos principais é a falta de investimento no sistema, segundo Suzana. “Qual foi o investimento que teve pós-pandemia que prioriza o transporte público coletivo e que faça com que as pessoas entendam que isso gera benefício para elas? Ao contrário, a gente chegou até a ter redução de faixa exclusiva de ônibus para implementação de faixa azul. O que mostra uma ação da prefeitura contrária ao que a gente deveria estar fazendo”, afirma.A especialista aponta que houve também uma redução de 800 ônibus na comparação com 2019, no pré-pandemia. Segundo Suzana, a medida afeta principalmente moradores de bairros periféricos, alguns atendidos muitas vezes por apenas uma única linha. “Isso já é um outro problema e vai estimulando a pessoa a pensar em outras alternativas”, diz. Leia também São PauloJustiça nega pedido de habeas corpus e ex-vereador Milton Leite segue preso São PauloPCC nos ônibus de SP: entenda a participação de cada um dos investigados São PauloQuais são as 12 empresas de ônibus da capital suspeitas de elo com PCC São PauloPresos por elo entre PCC e ônibus em SP terão prisão temporária de 30 dias A especialista do Insper afirma que São Paulo é referência em tecnologia, mas erra ao não utilizar esses instrumentos para fazer uma avaliação do cumprimento das viagens ou definição do padrão de atendimento. “A gente tem a linha que ela está lá na programação, mas ela pula a viagem e não tem uma ação real e efetiva da prefeitura”, afirma, como exemplo.Suzana diz que é fundamental que São Paulo implemente o controle e a regulação do sistema de forma mais assertiva, se quiser reverter a tendência de perda de passageiros, que ocorreu de forma generalizada após a pandemia, mas já há exemplos de como mudar isso.“A gente vê que as cidades que têm feito um controle sistemático sobre a operação, elas têm aumentado a demanda e muitas delas estão chegando a patamares iguais ao que tinham antes da pandemia. Ou até mesmo superando. Está começando essa virada”, afirma.Ainda sobre o valor injetado pela prefeitura no sistema, a especialista do Insper afirma que o subsídio é importante, mas é necessário controle. “Estou dando um aporte financeiro muito grande sem garantir a qualidade do sistema. E aí vira um problema, porque um subsídio bem aplicado tem que garantir padrão operacional. E quando você foi, por exemplo, para o Grajaú e para Varginha, você deve ter ouvido das pessoas que não é isso que está acontecendo”, afirma. “A prefeitura continua dando subsídio, mas não está cobrando a regularidade.”Sobre as investigações em curso e como evitar a participação do crime organizado no sistema, Suzana afirma que é preciso melhorar os mecanismos de rastreabilidade financeira dos contratos. A especialista diz que serviços como o transporte público, a saúde e a coleta de lixo movimentam muitos recursos e acabam atraindo os interesses desses grupos.“Cegueira deliberada”Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Direito SP, Mario Schapiro afirma que a imprensa noticia há muito tempo rumores de uma atuação do PCC o sistema de transporte de São Paulo tanto quanto noticia essa participação do crime com postos de gasolina e outros setores da economia. Por esse motivo, a prefeitura deveria ter atuado anteriormente por seus órgãos de controle, com apoio da Polícia Civil.“Esse parece ser um caso de cegueira deliberada”, diz. “Não precisa esperar ter uma denúncia, não precisaria esperar ter uma prova cabal desse envolvimento”, completa.Especialista em direito administrativo, Schapiro também afirma que a prefeitura deveria buscar apoio do MPSP e da Polícia Civil para buscar os reais beneficiários dos esquemas envolvendo os transportes, pessoas que, muitas vezes, não aparecem no quadro societário das empresas.O professor da FGV diz que o subsídio é importante para garantir ao cidadão uma tarifa que não seja proibitiva. Entretanto, alerta que não pode desincentivar a busca por mais qualidade, o que ajudaria a evitar a fuga de passageiros.“Se eu tiver o subsídio e não tiver a fiscalização, eu vou ter um desincentivo à qualidade e eu vou ter, paulatinamente, o sistema de transporte perdendo mais passageiros e o subsídio tendo que ser cada vez maior”, diz. “Então, eu estou subsidiando o que não vale a pena.”Schapiro diz que a prefeitura precisa estabelecer um “círculo virtuoso”. “Círculo virtuoso é subsídios para garantir mais acesso, fiscalização para garantir mais qualidade e mais pessoas migrando do transporte individual para o transporte coletivo, tornando o serviço, ao final, economicamente mais satisfatório e reduzindo, consequentemente, o trânsito na cidade, porque você vai tirar a opção individual. Essa é a equação.”O que diz a prefeituraA reportagem entrou em contato com a prefeitura na última quarta-feira (23/9) pedindo um porta-voz que pudesse responder a questionamentos sobre o sistema de transporte, bem como investigações sobre o envolvimento de empresas do grupo de distribuição com o PCC. Como não foi disponibilizado, o Metrópoles encaminhou, então, 10 perguntas, pedindo respostas individualizadas. A administração municipal se manifestou por nota.A prefeitura diz que a frota de ônibus disponibilizada atualmente é proporcionalmente superior a de 2019, enquanto o volume de passageiros transportados atualmente segue inferior ao registrado pré-pandemia.“Em 2019, eram 12.877 veículos para cerca de 9 milhões de passageiros por dia útil; hoje, são 12.251 para cerca de 7 milhões. Importante destacar que a frota é programada conforme a demanda. O volume de passageiros transportados em comparação ao período antes da pandemia decorre principalmente de um cenário de expansão do teletrabalho e da rede metroferroviária”, diz.A prefeitura diz que os investimentos no sistema de transporte são expressivos e destinam-se à renovação e eletrificação da frota — a cidade tem a maior de frota de ônibus elétricos do país com 1.759 veículos — , implantação de faixas exclusivas, corredores e terminais, além do novo sistema que permitirá monitorar a operação em tempo real e ajustar a oferta.“Benefícios importantes foram criados pela atual gestão, como o Domingão Tarifa Zero e o Mamãe Tarifa Zero, que já atenderam mais de 420 milhões de passageiros. Sem o subsídio, a tarifa hoje seria de R$ 13,49 e não os atuais R$ 5,30. Além disso, ele garante gratuidades e a integração com trens e metrô. Em 2025, foram R$ 7,1 bilhões em subsídios e, até setembro de 2026, R$ 6,29 bilhões – o orçamento atualizado é de R$ 6,31 bilhões. Todo o sistema é fiscalizado 24 horas por dia, com aplicação de penalidades quando necessário. Em 2025, as empresas de transporte pagaram R$ 22,9 milhões em multas”, afirma.A prefeitura diz que interveio na Transwolff em 2024 e posteriormente decretou a caducidade dos contratos, encerrando a operação da empresa em dezembro de 2025. “Desde que a SPTrans assumiu os lotes D10 e D11, na zona sul, ainda durante a intervenção, o cumprimento das viagens passou de 90,38% para 93,52% no D10 e de 89,03% para 91,21% no D11, entre março de 2024 e março de 2026. A SPTrans mantém as linhas até a conclusão da licitação para contratação de uma nova empresa. A região também recebeu investimentos, como o Aquático-SP”, afirma.Segundo a administração municipal, os processos de licitação seguiram a legislação com a documentação apresentada pelas concessionárias analisada antes da assinatura dos contratos e considerada regular pela gestão municipal e órgãos de controle competentes, inclusive a Receita Federal.Diante das investigações posteriormente, foram adotadas medidas administrativas e judiciais. Além das intervenções na Transwolff e na UPBus, foram instaurados processos pela Controladoria Geral do Município, em atuação conjunta com o Ministério Público e a Polícia Civil.Após a Operação Vectura Corrupta, nesta semana, a gestão criou um grupo de trabalho para analisar os elementos do caso e determinou o afastamento imediato de dirigentes da A2 Transportes citados na investigação. A administração segue acompanhando as apurações e adotando as medidas cabíveis.