O hino composto por dom Pedro 1º que Lula transformou em canção da vitória
- Author, Edison Veiga
- Role, De Luxor (Egito) para a BBC News Brasil
- Published Há 21 minutos
- Tempo de leitura: 4 min
"Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil", cantou uma multidão eufórica na avenida Paulista neste domingo (25/10), após pedir para que fosse reproduzido o Hino da Independência durante a comemoração por sua .
Trata-se de uma das canções patrióticas oficiais do país, justamente a que exalta a força do povo nacional que não deve ser submisso a interesses estrangeiros e, ao mesmo tempo, celebra o alvorecer de uma liberdade. Foi uma escolha simbólica de Lula, que durante sua campanha exaltou a .
O Hino da Independência tem uma curiosa história porque sua criação está ligada diretamente à biografia daquele que proclamou o Brasil independente de Portugal: , o nobre lusitano que se tornou o primeiro chefe de Estado do país livre.
Chamada originalmente de Hino Constitucional Brasiliense, a música teve a letra escrita pelo poeta e jornalista Evaristo da Veiga (1799-1837) em agosto de 1822, ou seja, semanas antes do Sete de Setembro que ficaria eternizado como data magna do país. A melodia foi criada pelo compositor erudito luso-brasileiro Marcos Portugal (1762-1830).
Em 1824, quando tomou conhecimento do hino, o próprio imperador dom Pedro decidiu compor para os versos de Veiga uma nova canção.
"Ele tinha conhecimentos musicais e se apropriou da letra de Veiga para, a partir dela, criar uma melodia. E o hino ganhou força no período do seu reinado", afirma o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie.
De acordo com o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o imperador fez da sua música um hino de "exaltação da nacionalidade". Em 1824, a obra foi rebatizada como Hino Imperial e Constitucional.
"A exaltação da alma, de inspiração romântica e europeia, ganha expressão nos versos que compõem o hino", completa o historiador.
Mais que diletante, o monarca tinha traquejo com a arte.
Autor do livro D. Pedro I: A História Não Contada, o biógrafo Paulo Rezzutti conta que o imperador do Brasil era multi-instrumentista e foi autor de inúmeras obras.
"Foi um músico profícuo, que deixou várias composições, desde sacras, litúrgicas, até canções patrióticas", comenta o biógrafo.
É de dom Pedro a autoria do chamado Hino da Carta, que ele compôs em 1820 e que foi hino oficial do Reino de Portugal de 1834 a 1910.
"Quando soube que ia se casar com a Leopoldina, ele chegou a compor valsas, que era um gênero novo ainda não chegado ao Brasil", conta Rezzutti, lembrando que a valsa era então uma moda austríaca, terra de origem
A versão romantizada
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Mais tarde, propagou-se a versão romantizada — e sem comprovação documental — de que o imperador havia composto o hino no mesmíssimo dia em que havia proclamado a
Por essa versão, disseminada sobretudo a partir de 1909 graças ao advogado, jornalista e escritor Eugênio Egas (1863-1956), a música teria sido partiturada às pressas naquela data pelo então organista da antiga Catedral de São Paulo, o músico André da Silva Gomes (1752-1844), para que fosse executada ainda na mesma noite.
Não são conhecidos, contudo, documentos de época que referendem essa história e tampouco há qualquer menção que uma apresentação musical do tipo tenha acontecido em setembro de 1822 em . Com contornos míticos, essa narrativa acabou sendo consolidada nas comemorações do primeiro centenário da Independência, em 1922 — quando o próprio hino, em desuso, acabou resgatado.
De histórico mesmo resta a informação de que a canção era considerada o hino oficial do país nos tempos da monarquia. Martinez explica que a canção assinada por dom Pedro ficou associada "aos tempos do Império".
Os autores originais
Veiga, o autor da letra, foi um escritor nascido no Rio que, filho de um livreiro português, é considerado um dos precursores do romantismo no Brasil. Seu pai chegou a morar um tempo em Minas Gerais e, acredita-se, tenha se aproximado dos chamados inconfidentes que conspiravam contra o reino português.
Já o compositor da primeira melodia, Marcos Portugal, nasceu em Lisboa e fez carreira na Itália. Quando a família real portuguesa já vivia no Rio de Janeiro, depois da transferência da corte ocorrida em 1808, ele foi convocado como um dos músicos a atuar junto à nobreza no Rio.
Há pesquisas que indicam que a canção, nessa versão original de Veiga e Portugal, tenha alcançado alta repercussão na sociedade carioca logo nas semanas seguintes à publicação.