Varicocele: o que é, sintomas, tratamento e quando causa infertilidade
Muito parecida com as varizes que surgem nas pernas, a varicocele é uma dilatação anormal das veias que ficam dentro do saco escrotal, a bolsa de pele que envolve os testículos.
Considerada comum, ela ocorre em aproximadamente 15% de todos os homens e não costuma causar sintomas.
No entanto, em alguns casos, podem surgir dor na região, redução no tamanho dos testículos e veias dilatadas perceptíveis ao toque e à vista.
Além disso, a condição preocupa porque é a causa mais comum de infertilidade masculina, chegando a ser encontrada em até 40% dos homens inférteis, segundo estudos.
Para entender o que acontece, vale conhecer um pouco da anatomia e do funcionamento da circulação sanguínea nessa região.
Como se forma uma varicocele?
Ao redor dos testículos e do cordão espermático — estrutura que conecta cada testículo ao abdômen e contém vasos sanguíneos, nervos e o ducto que transporta os espermatozoides — existe uma rede de pequenas veias chamada plexo pampiniforme.
Essa rede tem duas funções importantes: drenar o sangue dos testículos e ajudar a regular sua temperatura. Isso é relevante especialmente porque a produção de espermatozoides depende de uma temperatura ligeiramente inferior à do restante do corpo.
Em condições normais, o sangue circula por essas veias e depois volta em direção ao coração, contando com a ajuda de válvulas no interior dos vasos que ajudam a impedir que ele retorne no sentido contrário pela ação da gravidade.
Quando esse processo fica prejudicado, porém, o sangue pode se acumular nas veias, que se dilatam e ficam tortuosas. Essa alteração caracteriza a varicocele.
Isso pode ocorrer por falhas no funcionamento das válvulas ou por características anatômicas da circulação venosa do paciente.
“Consequentemente, o sangue circula com menor velocidade, dilatando as veias e causando aumento da temperatura testicular”, resume Carlo Passerotti, urologista e chefe do Centro Especializado em Urologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Isso pode elevar a pressão dentro dos vasos e alterar o ambiente ao redor dos testículos, com possíveis impactos sobre sua função.
Sinais e sintomas
A varicocele geralmente ocorre no lado esquerdo do escroto e, muitas vezes, não apresenta sinais ou sintomas. Aliás, geralmente, o quadro passa despercebido ao longo da vida e não causa problemas de fertilidade.
Entre os sinais, é comum que, na adolescência, o paciente se queixe do aumento de um dos testículos. “Ele vê um volume maior na bolsa testicular e nota que está aumentado em relação ao outro lado”, diz o médico.
Outros sintomas incluem dor ou desconforto, acompanhados de sensação de peso no escroto, que tendem a piorar quando a pessoa fica em pé, e um conjunto de veias dilatadas que pode dar à bolsa escrotal uma aparência semelhante à de um saco de minhocas.
Diagnóstico
O diagnóstico geralmente começa com uma consulta ao urologista.
No consultório, o médico examina a região do saco escrotal, com o paciente em pé e deitado, e pode pedir que ele faça a chamada manobra de Valsalva, que consiste em fazer força como se fosse evacuar, aumentando temporariamente a pressão dentro do abdômen.
Esse procedimento pode tornar as veias dilatadas mais perceptíveis.
Além disso, o médico pode solicitar uma ultrassonografia com Doppler quando o exame físico não é conclusivo, há suspeita de outra condição ou é necessário avaliar melhor a circulação sanguínea.
Depois dos testes, a varicocele pode ser classificada em graus:
- Grau I: é percebida principalmente durante a manobra de Valsalva, pela palpação;
- Grau II: pode ser identificada pela palpação mesmo sem a manobra;
- Grau III: as veias dilatadas são visíveis e palpáveis.
Se houver preocupação com a fertilidade, o espermograma pode ajudar a avaliar a concentração, a motilidade e a morfologia dos espermatozoides. Outros exames, incluindo dosagens hormonais, podem ser indicados conforme o caso.
Como a varicocele pode afetar a fertilidade?
Ainda não existe uma explicação única para a relação entre varicocele e fertilidade. Mas há diversas teorias.
Segundo Passerotti, uma das causas possíveis é o aumento da temperatura no testículo decorrente do problema na circulação sanguínea.
Para ter ideia, o urologista explica que o órgão fica “fora do corpo” do homem justamente porque precisa de uma temperatura um a dois graus menor do que o restante do organismo.
“E uma das teorias é a de que o aumento da temperatura lesa as células da região”, diz o médico. Acredita-se que a destruição das células libere fragmentos de proteínas no sangue que levam à produção de anticorpos no corpo para atacá-los.
“Com isso, é como se o corpo atacasse o testículo e impedisse que ele funcionasse normalmente, comprometendo a fertilidade”, comenta.
Mas é importante reforçar que ter varicocele não significa ser infértil. Muitos homens com a condição conseguem ter filhos naturalmente.
Quadro afeta os níveis de testosterona?
É possível que sim. A varicocele pode causar três problemas principais: além da infertilidade e das dores, também pode ocorrer diminuição da produção de testosterona pelos testículos.
Segundo explica Passerotti, isso acontece porque o aumento da temperatura e as alterações na circulação sanguínea também podem prejudicar o funcionamento das células responsáveis por produzir esse hormônio.
A varicocele pode ser prevenida?
Não existe uma estratégia comprovada para prevenir a varicocele. Como seu desenvolvimento está relacionado à anatomia e ao funcionamento da circulação venosa, ela não é simplesmente consequência de exercícios físicos, relações sexuais, masturbação ou falta de higiene.
Medidas como usar roupas mais confortáveis e evitar atividades que agravem a dor podem aliviar os sintomas, mas não corrigem a varicocele.
Tratamento
A varicocele geralmente não precisa de tratamento. A maior parte dos homens pode apenas fazer acompanhamento. No caso dos adolescentes, o médico monitora o crescimento dos testículos ao longo do tempo.
Em caso de dor relevante, atrofias ou problemas de fertilidade, pode ser feita uma cirurgia chamada varicocelectomia.
O procedimento consiste em fechar ou interromper a circulação nas veias dilatadas que estão causando o problema. Assim, o sangue passa a seguir por outras veias saudáveis.
A cirurgia convencional para tratar a varicocele é feita por meio de uma pequena incisão na região da virilha ou na parte inferior do abdômen, dependendo da técnica utilizada.
Outra alternativa é a embolização, procedimento minimamente invasivo que não exige uma incisão cirúrgica na região do escroto.
Por meio de uma pequena punção na pele, geralmente na virilha ou no pescoço, o médico introduz um cateter — tubo fino e flexível — em um vaso sanguíneo e o conduz até as veias afetadas.