O que é o mistério da assimetria da vida que rendeu Nobel de Química a cientistas
- Author, Victoria Gill e Esme Stallard
- Role, Repórteres de Ciência da BBC News
- Published Há 12 minutos
- Tempo de leitura: 5 min
O de foi concedido ao cientista francês Henri B. Kagan e ao japonês Kenso Soai por terem ajudado a explicar o .
Os pesquisadores descobriram como a natureza produz exclusivamente a versão correta de uma molécula, em vez de sua imagem espelhada.
Por exemplo, as moléculas de aminoácidos, os blocos de construção das proteínas, existem em duas formas que são imagens espelhadas uma da outra.
Mas os organismos vivos na Terra funcionam apenas com uma dessas formas. Os laureados com o Prêmio Nobel responderam à pergunta: por que a vida favorece apenas uma dessas moléculas em imagem espelhada em detrimento da outra?
Na química orgânica, essa propriedade é conhecida como quiralidade; assim, moléculas quirais podem existir em versões "destras" e "canhotas", que são imagens espelhadas uma da outra.
Você pode pensar nelas como se fossem nossas mãos — não idênticas, mas cada uma um reflexo da outra.
E enquanto a natureza produz quase exclusivamente a versão necessária para o seu funcionamento, as reações químicas em laboratório geralmente criam uma mistura de 50% de moléculas "destras" e 50% de moléculas "canhotas".
Quando se trata da produção de medicamentos, isso é particularmente importante, porque cada versão se comporta de maneira diferente ao interagir com o nosso organismo.
Assim, uma versão pode ter propriedades de combate a doenças, enquanto a outra não faz nada ou até mesmo causa danos.
O desenvolvimento do medicamento Talidomida é um exemplo disso. Na década de 1950, ele era prescrito para mulheres grávidas que sofriam de enjoos matinais. Mas trata-se de uma molécula quiral – a versão "destra" é um tratamento eficaz, enquanto a "canhota" é tóxica.
O medicamento original administrado era uma mistura dos dois, e descobriu-se posteriormente que o corpo era capaz de convertê-los. Como resultado, milhares de crianças, filhas de mulheres que tomaram o medicamento, desenvolveram deficiências graves.
Em entrevista coletiva por telefone esta manhã, durante a coletiva de imprensa do Prêmio Nobel, Kenso Soai disse: "Este é um dos dias mais emocionantes da minha vida."
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Ao desvendar o mistério da quiralidade, Henri Kagan e Kenso Soai descobriram como projetar reações químicas para produzir muito mais da versão desejada de uma molécula.
Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química, explicou: "Henri Kagan e Kenso Soai forneceram uma solução para um mistério químico com mais de um século: como a homoquiralidade - a produção seletiva da versão correta de uma molécula - pode surgir espontaneamente."
"As reações químicas que eles desenvolveram são espetaculares."
Henri Kagan, da Universidade Paris-Sud, descobriu uma nova forma de manipular reações químicas em 1986. Isso permitiu que ele criasse um excesso maior de uma das imagens espelhadas do que se acreditava ser possível anteriormente.
Kenso Soai, da Universidade de Ciências de Tóquio, deu o próximo passo em 1995. Ele publicou um artigo científico na revista Nature descrevendo a primeira reação química com potencial para ser homoquiral – produzindo apenas a versão desejada de uma molécula orgânica.
Em 2003, ele finalmente conseguiu controlar uma reação na qual apenas uma das duas imagens espelhadas possíveis era formada.
"Além da própria vida", afirmou o Comitê Nobel em comunicado, "ninguém havia alcançado esse feito anteriormente".
Na coletiva de imprensa de quarta-feira, Kenso Soai elogiou os "muitos e muitos excelentes pesquisadores" nesta área.
O professor Robert Mokaya, presidente da Royal Society of Chemistry do Reino Unido, afirmou que este é um "exemplo poderoso de como a química fundamental pode sustentar soluções para alguns dos maiores desafios que a sociedade enfrenta".
"Diferentes isômeros (ou versões de moléculas) podem ter efeitos biológicos e físicos completamente diferentes, por isso são cruciais para encontrar medicamentos eficazes para tratar todos os tipos de doenças", acrescentou.
O professor Angus Davison, da Universidade de Nottingham, estuda a biologia da quiralidade e afirmou que a química premiada com o Nobel pode ajudar a revelar como e por que a vida favorece a "lateralidade".
"De maneiras que ainda não compreendemos totalmente, a quiralidade dos blocos básicos da vida acaba criando corpos que também são quirais", disse ele à BBC News.
Ele explicou que essa era a base da ideia de nossos corações estarem no lado esquerdo do corpo e das conchas de caracol se enrolarem para a direita.
Peter Somfai, membro do Comitê Nobel de Química, afirmou que a pesquisa premiada este ano tornou-se parte de "nossa compreensão básica de como a química funciona".
Ele disse que mostrar como uma imagem espelhada é criada é "provavelmente a questão mais fundamental da vida - porque de alguma forma isso aconteceu há quatro bilhões de anos, quando a vida foi criada. E agora, pela primeira vez, conseguimos reproduzir isso em laboratório".
- Usamos inteligência artificial para traduzir esta reportagem, originalmente escrita em inglês. O texto foi revisado por um jornalista da BBC antes da publicação. (link para texto em inglês).