Pressão financeira afeta saúde mental de 9 em cada 10 brasileiros, aponta pesquisa

6 de Out de 2026 - 23:30
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Pressão financeira afeta saúde mental de 9 em cada 10 brasileiros, aponta pesquisa

A situação financeira afeta negativamente o bem-estar emocional de 87% dos brasileiros, segundo pesquisa da 99pay enviada com exclusividade à VEJA SAÚDE.

O levantamento ouviu 1,5 mil brasileiros de todas as regiões do país, que responderam a um questionário online entre 13 e 21 de agosto sobre seus sentimentos nos 12 meses anteriores à pesquisa. Assim, o estudo traçou o raio-X da nossa ansiedade financeira.

Entre as principais fontes de angústia dos brasileiros estão o atraso no pagamento de contas e a dificuldade de guardar dinheiro, citados por 37% dos participantes.

Na sequência aparecem o medo de enfrentar um gasto inesperado (33%), o crescimento das dívidas (31%) e a necessidade de pedir dinheiro emprestado (29%).

“Vimos com esses dados o quanto o dinheiro vem afetando a vida das pessoas e, para além disso, o quanto elas abrem mão de coisas importantes por sua falta”, comenta Mariana Beer, diretora de marketing da 99pay e uma das envolvidas na pesquisa.

“O dinheiro não termina em si mesmo. E a pesquisa mostra como as questões financeiras vão além da gestão do dia a dia”, completa.

+Leia também: Emoções financeiras: os custos invisíveis na saúde do brasileiro

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Surpresas no caminho causam aflição

O estudo também buscou compreender como os brasileiros sentem imprevistos que afetam o orçamento. Segundo o levantamento, se um gasto surpresa bate à porta, o sentimento imediato da maioria é a ansiedade, citada por 46% dos entrevistados.

Em seguida, estão sensações como frustração (40%) e insegurança (33%). Tristeza (26%), medo (24%) e impotência (23%) completam a lista de reações.

“Dinheiro mexe com segurança, com pertencimento e com a imagem que a pessoa tem de si. Por isso, a preocupação financeira raramente fica só nas contas”, comenta Maria Manso, psicóloga e planejadora financeira, autora do livro “Não é falha sua”.

Segundo a especialista, as contas no vermelho se traduzem em ansiedade, insônia, irritabilidade e vergonha, um sentimento que costuma afastar as pessoas da ajuda psicológica e financeira que podem precisar.

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“A vergonha faz a pessoa evitar o assunto. Ela não abre o extrato, não olha a fatura, não conta para ninguém. Mas, quanto mais evita, mais o problema cresce, e isso alimenta a ansiedade. Vira um ciclo”, explica.

Sono, estudos e saúde ficam em segundo plano

Os efeitos da insegurança também atingem a saúde física e mental dos brasileiros de outras maneiras, especialmente afetando o autocuidado.

Quase um terço dos participantes contou que já perdeu noites de sono por preocupação com dinheiro. O mesmo número de pessoas também abriu mão de fazer algum curso ou investir nos estudos.

Além disso, 24% adiaram ou deixaram de realizar consultas médicas, enquanto outros 15% deixaram de buscar atendimento psicológico por falta de grana.

A pesquisa mostrou que, quanto menor a renda, maior é o prejuízo do estresse financeiro para a saúde e o desenvolvimento pessoal.

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Nas classes D e E, quase metade dos entrevistados (48%) relata que o aperto no orçamento abalou “muito” o seu bem-estar emocional no último ano — um contraste considerável com a classe A, onde esse índice é de 26%.

Essa desigualdade, por sua vez, afeta alguns pilares básicos da qualidade de vida: para mais de 30% das pessoas das faixas D e E, a falta de verba significou interromper estudos ou adiar consultas e exames médicos importantes nos últimos 12 meses.

Jovens da geração Z sofrem mais

O levantamento também se dedicou a entender como o impacto emocional das finanças afeta as diferentes gerações.

Na pesquisa, os mais jovens foram o que relataram maior prejuízo.

Um efeito moderado ou intenso sobre a saúde mental foi relatado por 72% da Geração Z (os nascidos entre 1997 e 2012), ante 69% dos Millennials (nascidos entre 1981 e 1996), 68% da Geração X (de 1965 a 1980) e 59% dos Boomers (entre 1946 e 1964).

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Além disso, os motivos que causam ansiedade e angústia também mudam com o tempo. Um em cada quatro jovens relatou sofrimento emocional ao comparar sua vida financeira com a de terceiros — um gatilho que afeta apenas 15% da Geração X e 8% dos Boomers.

Conforme a idade avança, as preocupações passam a ser a manutenção da vida familiar e a segurança no envelhecimento. Por isso, o medo de enfrentar uma despesa inesperada é a fonte de desgaste emocional para 51% dos Boomers, enquanto afeta 35% dos Millennials e 23% da Geração Z.

A Geração X, por sua vez, é mais propensa a citar o atraso no pagamento de contas (49%) como principal preocupação.

Para Manso, os dados escancaram as diferentes dores do ciclo de vida. “Cada geração carrega o medo do seu momento: a mais jovem teme não conseguir começar, a mais velha teme não conseguir se recuperar diante de um imprevisto”, comenta.

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Além disso, os números podem refletir uma diferença na comunicação dos sentimentos. “A Geração Z fala de emoção com mais naturalidade, então é possível que ela relate o desgaste com mais facilidade”, explica.

O que daria mais tranquilidade

Perguntados sobre o que ajudaria a construir uma relação mais saudável com o dinheiro, os entrevistados priorizam a disponibilidade e o crescimento dos recursos.

Ter uma reserva financeira lidera, com 57%, praticamente empatada com fazer o dinheiro render mais (56%). Aprender a organizar e cuidar do dinheiro aparece em seguida, com 35%.

Ao mesmo tempo, 63% dizem que saber que o dinheiro está rendendo traz mais segurança em relação ao futuro.

Quando precisam escolher uma única mudança com maior impacto no bem-estar emocional, a maioria aponta uma fonte adicional de renda (25%), à frente de quitar dívidas (20%) e fazer o dinheiro render mais (18%).

Assim, para uma parcela relevante da população, melhorar a relação emocional com as finanças passa tanto pela forma de administrar o dinheiro quanto pela possibilidade de fazê-lo crescer de alguma forma.

Como lidar melhor com as finanças

De acordo com Manso, existem quatro passos importantes para encarar momentos financeiros difíceis.

O primeiro é não lutar contra os próprios sentimentos.  “Medo, culpa e raiva fazem sentido nesse contexto. Tentar ‘pensar positivo’ ou se cobrar para não sentir nada só gasta energia”, aconselha.

Feito isso, é hora de encarar os números. Pode até parecer contraditório, mas ela explica que ver o tamanho real do problema costuma doer menos do que o tamanho que a imaginação dá a ele. “Anotar o que se deve, a quem e quanto já ajuda a sair do nevoeiro”, diz.

O terceiro passo é separar o que dá para fazer hoje do que só se resolve com o tempo. Afinal, nem tudo se resolve de imediato, mas quase sempre existe um próximo passo pequeno. “Pode ser renegociar uma parcela, cortar um gasto, pedir ajuda…”, considera.

E o quarto mandamento é não atravessar isso sozinho. Falar com alguém de confiança ou procurar um profissional reduz o peso, porque o isolamento piora tudo.

Mas existe, ainda, um quinto aspecto que deve ser discutido quando se fala sobre bem-estar emocional e economias: até que ponto estratégias individuais nos protegem de questões que são condicionadas por desigualdades sociais mais amplas?

“Existe um limite. Ninguém regula as emoções para fora de uma renda que não fecha o mês”, diz Manso.

Quando falta o básico, ou quando uma pessoa vive em insegurança constante, o sofrimento “não é falta de resiliência nem de inteligência emocional”, completa.

Portanto, é importante não transformar em falha individual um problema que também é estrutural. Ainda assim, reconhecer os limites impostos pelas condições materiais não significa abrir mão do que está ao alcance de cada pessoa para se sentir melhor.

“Menos culpa, menos paralisia e mais clareza para agir sobre aquilo que é possível mudar. Isso pode proteger a saúde mental mesmo quando as condições ao redor não mudam de imediato”, diz.

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