Os efeitos do movimento de Flávio para a relação do Brasil com EUA e Argentina

28 de Out de 2026 - 17:00
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Os efeitos do movimento de Flávio para a relação do Brasil com EUA e Argentina

A decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL) de logo após a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de apreender seus passaportes, deve criar um novo capítulo para a relação já atualmente instável entre Brasília e Washington, com efeitos para os governos Lula (PT) e Javier Milei, da Argentina.

Na avaliação de Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, a ida de Flávio ao território americano para se juntar ao irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, deverá servir para aprimorar as articulações políticas do bloco de oposição representado pela família Bolsonaro ao governo Lula, repercutindo na relação entre Brasil e EUA.

“A ida de Flávio aos Estados Unidos vai intensificar a ação política deles, com reações aqui no Brasil. A relação vai ficar mais tensa entre o Brasil e os EUA”, explica Barbosa, em entrevista ao InfoMoney.

“Pelo que o noticiário mostrou, Flávio passou o dia inteiro [terça-feira, 27/10] assistindo a toda essa repercussão, inclusive com relação ao papel da direita no Brasil. E ele, apesar de tudo, de toda a reação, inclusive de gente ligada a ele, resolveu sair do país. Esse é outro fator importante”, diz Barbosa, que, atualmente, preside o Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice).

A incerteza americana

Sob a gestão Trump, a Casa Branca tem intensificado o seu anseio por explorar minerais críticos e terras raras em diversas regiões. O Brasil, que tem a segunda maior reserva global de terras raras, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), é um ator de máxima importância nesse mercado.

Ciente do , os EUA têm buscado meios para diminuir a dependência de Pequim em uma área estratégica para setores como defesa e domínio de tecnologia. 

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Recentemente, uma agência do governo americano chegou a firmar um acordo de financiamento de US$ 565 milhões com a Serra Verde, empresa de produção de terras raras de Goiás. Quando ainda era pré-candidato, Flávio, em visita aos EUA, chegou a dizer que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.

Lula, por sua vez (e em mais de uma oportunidade), tem defendido a ideia de que a abordagem americana sobre o tema tem passado ao largo da cooperação, e que o modelo de exploração proposto por Trump poderia colocar em risco a soberania nacional. Internamente, , ao longo do quarto mandato de Lula. Entretanto, a ideia é que as negociações, caso avancem, sejam feitas levando em consideração o interesse estratégico do Brasil sobre os seus próprios recursos.

Desde o resultado do segundo turno do último domingo (25), Trump tem dito, sem provas, que a eleição brasileira teria sido fraudada. Ainda assim, o republicano tem ressaltado que possui uma boa relação com Lula. Em movimento contrário ao da maioria das lideranças das principais potências do mundo, Trump tem evitado reconhecer o resultado das urnas brasileiras.

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Barbosa pondera que o episódio da ida de Flávio aos EUA deve levar “a um aumento das fricções e da crise político-diplomática com os Estado Unidos”, catapultada pelas tarifas alfandegárias impostas pelo governo Trump a uma lista de produtos brasileiros. O diplomata chama a atenção para o fato de que o grau dessa deterioração deverá ser conhecido “ao longo das próximas semanas e meses”.

Como efeito da política tarifária mais hostil dos EUA a produtos brasileiros, o comércio entre Brasil e China tem alcançado cifras inéditas. Segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), a corrente comercial entre os dois países alcançou US$ 143 bilhões no acumulado de janeiro a setembro de 2026. As exportações brasileiras tiveram um crescimento de 12% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as importações avançaram 9,9%. 

Na conta, pesa o fato de que o superávit para o Brasil chegou a US$ 26,1 bilhões. Parte desse montante se explica pelo aumento das exportações de petróleo brasileiro à China. Dados alfandegários chineses, divulgados no último dia 20, mostraram que, entre janeiro e setembro de 2026, a China importou 44,29 milhões de toneladas de petróleo brasileiro. Dado o engasgo que a guerra EUA/Israel contra o Irã trouxe à cadeia de energia global, o Brasil acabou superando a Arábia Saudita no fornecimento de petróleo ao país asiático.

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Argentina, a antessala da ida de Flávio aos EUA

Depois de horas de especulações sobre o paradeiro do ex-candidato à Presidência da República, a Direção de Migrações da Argentina confirmou que Flávio e sua família entraram no país às 22h50 da última terça-feira, saindo para o Equador e, finalmente, para Miami. O trajeto evitou o espaço aéreo brasileiro. 

Uma das arestas a serem aparadas pela Polícia Federal (PF), no curso da investigação sobre o movimento do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tem a ver com buscar saber .

Para Barbosa, esse elemento poderá pesar negativamente para a relação entre as duas principais economias da América do Sul, que já vem sendo marcada por problemas.

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Neste ano, após Milei visitar São Paulo para participar do lançamento da candidatura de Flávio, o mandatário argentino proferiu ofensas a Lula, levando o governo brasileiro a convocar o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimento.

“Esse é um fator. A saída de Flávio pela Argentina, com apoio, aparentemente, do governo Milei, e a chegada aos Estados Unidos, também com o beneplácito do governo americano. Essas duas coisas vão ter consequências no relacionamento bilateral”, avalia o diplomata.