Por que duelo entre Lula e Flávio é crucial para a América Latina — e para Trump
- Author, Gerardo Lissardy
- Role, BBC News Mundo
- Published Há 9 minutos
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No segundo turno deste domingo (25/10), o irá eleger, entre , muito mais que um presidente. Os eleitores irão determinar o rumo político de toda a e a .
É difícil imaginar uma eleição mais transcendental para a região como a que será decidida pelos 158 milhões de cidadãos brasileiros com direito a voto.
Existem extremos contrastes entre o direitista (PL), de 45 anos, que surpreendeu ao vencer o primeiro turno, e o atual presidente (), o ex-sindicalista de 80 anos e referência da esquerda na América Latina.
A diferença entre os dois candidatos no , no dia 4 de outubro, foi de 1,9 ponto percentual em relação aos votos válidos. Foi a menor vantagem registrada em um primeiro turno presidencial desde a volta do Brasil à democracia. E algumas pesquisas mostram empate técnico antes da votação.
Flávio tenta chegar pela primeira vez à Presidência, antes exercida pelo seu pai, o ultradireitista Jair Bolsonaro, após perder a reeleição em 2022 para Lula, que agora busca seu quarto mandato.
Flávio propõe o liberalismo econômico, redução de impostos e pulso firme em questões de segurança. Já Lula defende ampliar o papel do Estado, fortalecer as políticas sociais e ampliar os direitos dos trabalhadores.
Seja por suas grandes divergências, pela conjuntura especial do continente ou pelas enormes dimensões do Brasil, especialistas alertam que este segundo turno irá repercutir muito além das fronteiras do país.
"É uma eleição crucial para a região", afirma à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, o professor de ciências políticas Edgar Franco-Vivanco, diretor do Centro de Eleições da América Latina da Universidade de Michigan, nos .
Existem três motivos que explicam a relevância destas eleições.
1. A onda de direita
As sete eleições presidenciais realizadas na América Latina de 2025 para cá foram vencidas por candidatos de direita, um fenômeno insólito que receberia seu principal impulso caso Flávio seja eleito.
"O Brasil não é apenas o maior país [da América Latina] em termos de população, mas também a economia mais importante", explica Franco-Vivanco. "Por isso, sua eventual união a esta onda de direita geraria muitas mudanças."
Fim da Promoção Resultados eleição 2026
Flávio traz diversas semelhanças com os direitistas radicais que hoje governam a região, aliados ao presidente .
Seus planos para a segurança pública incluem a mobilização de militares contra grupos criminosos e a construção de prisões de segurança máxima. Elas são inspiradas no , construído para membros de gangues pelo presidente de El Salvador, , apesar das denúncias de grandes abusos ocorridos no local.
Flávio também prevê a aplicação de um ajuste fiscal com drásticos cortes de gastos, como vêm fazendo o presidente da Argentina, — que participou do lançamento da campanha do candidato brasileiro —, e o presidente do Chile, .
Conjuntamente, este poderá constituir o maior esforço de redução do Estado em países da região, desde as reformas neoliberais do final do século passado.
Flávio também evitou explicar como procederá ao corte dos gastos públicos de 1,5% do PIB que ele defende. Alguns economistas duvidam que o ele consiga atingir esta redução sem diminuir os gastos sociais, mesmo tendo maioria no .
"Se ele decidir tocar no salário mínimo, nas aposentadorias e nos programas sociais, o país será um caos", defende Mônica de Bolle, principal pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional. "Existe nas ruas uma porção de pessoas destacando que não irão aceitar um ajuste por este caminho."
A eleição poderá influenciar até mesmo o meio ambiente na região.
Especialistas dizem que, sob um eventual governo de Flávio, o poderá aumentar, como ocorreu durante o mandato do seu pai, com a redução dos controles governamentais e maior tolerância às atividades agropecuárias ou mineradoras.
Por outro lado, durante o atual governo Lula, a destruição da maior floresta tropical do planeta diminuiu este ano, atingindo o menor nível registrado em quase quatro décadas, segundo dados oficiais.
A Avaliação da Declaração Florestal reúne grupos civis que monitoram o desmatamento e indicou em outubro que "as mudanças derivadas das recentes eleições na e no , bem como as próximas eleições no Brasil, poderiam ameaçar a proteção das florestas em países que passaram por avanços recentes".
"A Amazônia engloba diversos países e, por isso, o avanço da extrema direita é relevante, pois ela não tem agenda ambiental compatível com as ideias de preservação do meio ambiente e transição energética", declarou De Bolle à BBC News Mundo.
No âmbito comercial, Flávio defendeu que o Brasil "se libere das amarras do Mercosul", buscando acordos com países como os Estados Unidos, como fez Milei na Argentina — que integra o bloco, ao lado do e do —, gerando críticas do governo Lula.
2. O peso de Donald Trump na região
Um eventual triunfo de Flávio também permitiria a Trump estender a quase toda a América do Sul o predomínio hemisférico que ele busca desde que voltou à Casa Branca, em janeiro do ano passado.
Sob seu mandato, os Estados Unidos ameaçaram e castigaram governos da região; interferiram em eleições de alguns países a favor dos seus aliados; atacaram a para , , e controlar a indústria petrolífera do país; e mataram mais de 230 pessoas ao em águas do e do oceano Pacífico em nome da guerra contra as drogas.
"Desde o início de 2025, observamos esta presença cada vez mais violenta e agressiva dos Estados Unidos na região. E o Brasil é uma peça fundamental", destaca a professora de relações internacionais Carolina Pedroso, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Da mesma forma que o , o Brasil, até agora, ficou à margem da aliança criada por Washington junto com 14 países do continente, chamada de . Seu primeiro objetivo declarado é combater as organizações de narcotraficantes.
Alguns dos associados americanos, como o e a Colômbia, aceitaram que os Estados Unidos realizem operações militares conjuntas nos seus territórios.
O governo Lula observou com receio esta ofensiva de Washington, bem como a inclusão do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como , entendendo que a medida poderia abrir as portas para ações dos americanos nas fronteiras ou dentro do próprio território nacional.
"O Brasil ", declarou Lula à Assembleia Geral das Nações Unidas () em setembro. O presidente também alertou sobre "tentações hegemônicas" na região.
Por outro lado, Flávio declarou, em recente conversa com o presidente da Colômbia, , que deseja fazer parte do Escudo das Américas "para combater as facções narcoterroristas", em cooperação com os países que integram a aliança.
Jair Bolsonaro foi aliado próximo de Trump. No ano passado, o presidente americano pressionou o Brasil, sem sucesso, para deter o julgamento do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado, defendendo que se tratava de perseguição política.
"Uma derrota de Lula, neste sentido, seria uma grande vitória para Trump, para essa agenda [...] de aumentar a presença militar e econômica dos Estados Unidos na região", segundo Pedroso.
A professora destaca que um triunfo de Flávio Bolsonaro também poderia facilitar a promoção de interesses americanos no Brasil, como a , que incluem elementos fundamentais para a alta tecnologia e para a .
O Escudo das Américas já indicou que busca ampliar sua agenda para outras áreas estratégicas.
Os países da coalizão declararam em setembro sua intenção de empreender ações para fortalecer "a cooperação econômica" e "proteger as cadeias de fornecimento de minerais críticos, através de um abastecimento diversificado e confiável".
3. O ato final de Lula
A eleição brasileira também determinará o ato final do presidente Lula, um dos políticos mais importantes da América Latina no século 21.
Prestes a completar 81 anos de idade, o homem que nasceu na pobreza, foi torneiro mecânico, líder sindical durante a e, em 2002, tornou-se o primeiro ex-operário a ser presidente do Brasil, indicou que esta é a sua última eleição.
Seus dois primeiros mandatos chamaram a atenção do mundo e orientaram outros governos de esquerda, devido aos programas sociais que retiraram milhões de brasileiros da pobreza, em meio a um boom econômico gerado pelos altos preços das matérias-primas.
Diferentemente de alguns líderes latino-americanos de esquerda que o presidente brasileiro evitou criticar com firmeza, Lula respeitou as regras democráticas e deixou a Presidência em 2011 com popularidade de mais de 80%.
Mas os governos do PT também sofreram escândalos de corrupção. O próprio Lula passou 19 meses preso entre 2018 e 2019, devido a uma condenação por erros processuais e por falta de imparcialidade do ex-juiz Sergio Moro, responsável pela condenação.
Em 2022, Lula voltou ao poder aliado a setores da centro-direita, frente aos temores de uma guinada autoritária do então presidente Jair Bolsonaro, aliada ao drama de uma crise econômica e à devastadora pandemia de covid-19.
Desde então, o Brasil recuperou certa normalidade e estabilidade, mas sem os altos índices de crescimento econômico dos primeiros mandatos de Lula, além dos preocupantes níveis de endividamento do governo e das famílias.
No primeiro turno das eleições deste ano, Lula manteve forte apoio dos mais pobres, mas em quase todas as classes sociais em relação a 2022.
Este resultado indica que, para o presidente octogenário, está cada vez mais difícil sustentar sua antiga conexão com os brasileiros e vencer a onda de votos contrários aos partidos no poder que se espalhou pela América Latina.
Uma vitória de Lula neste domingo teria, para ele, um sabor especial e manteria sob o controle da esquerda o governo dos dois países mais populosos da América Latina: o Brasil e o .
"Seria um dos triunfos mais importantes de Lula na sua longa carreira", defende Franco-Vivanco. "Dar a virada em três semanas, do primeiro para o segundo turno, parece muito complicado. Mas talvez só um político como Lula poderia fazer isso. Definitivamente, seria um respiro para a esquerda."
Do contrário, o presidente brasileiro deixaria o poder derrotado. E o desamparo inundaria a esquerda latino-americana.