Quem é o ex-peronista que virou a casaca, abandonou Lula e comemorou vitória de Flávio no primeiro turno
O político argentino Daniel Scioli foi, em poucos anos, do posto de entusiasta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o de grande apoiador da família Bolsonaro.
“Parabenizo meu querido amigo Flávio Bolsonaro por esta vitória no primeiro turno, e todo o povo brasileiro por esta grande jornada democrática”, escreveu Scioli no X no domingo (4), após Flávio Bolsonaro (PL) ter sido o mais votado no primeiro turno da eleição presidencial brasileira e passado ao segundo turno com Lula.
O post foi acompanhado de uma foto de Scioli ao lado do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022).
“No decorrer de pouco mais de uma década, o ex-governador da província de Buenos Aires e embaixador no país vizinho passou de elogiar Luiz Inácio Lula da Silva por seu trabalho em prol da ‘Pátria Grande’ ao lado de Néstor e Cristina Kirchner, a celebrar a vitória do seu ferrenho opositor, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro”, destacou o jornal La Nación em reportagem publicada nesta segunda-feira (5).
Filiado ao Partido Justicialista, legenda do peronismo, entre 1997 e 2024, Scioli exerceu cargos importantes em governos de esquerda na Argentina.
Ele foi vice do então presidente Néstor Kirchner entre 2003 e 2007 e governador da província de Buenos Aires entre 2007 e 2015.
Naquele ano, concorreu à presidência como o candidato do peronismo, mas foi derrotado no segundo turno por Mauricio Macri. Na ocasião, recebeu apoio de Lula.
Post em que Scioli comemorou a votação de Flávio no primeiro turno
“Tive uma relação extraordinária com Néstor Kirchner, e também tenho com Cristina [esposa de Néstor e presidente argentina em 2015]. Então, do Brasil, obviamente torço para que Cristina consiga eleger o sucessor que ela quer ver na presidência. E ainda mais quando o sucessor é Scioli. Torço para que Scioli vença as eleições”, disse o petista ao jornal Página 12.
Meses antes daquela eleição, Scioli visitou Lula no instituto em São Paulo que leva o nome do presidente e descreveu o petista como “uma grande referência latino-americana e um grande protagonista de todas essas mudanças e transformações da região, que, junto com Néstor e agora com Cristina, vem trabalhando por esta Pátria Grande”.
Em 2020, com o peronismo de volta à Casa Rosada, Scioli foi designado pelo então presidente Alberto Fernández para a Embaixada da Argentina no Brasil, cargo que deixou de exercer por algumas semanas para ser ministro de Desenvolvimento Produtivo em 2022, antes de retornar à representação diplomática em Brasília.
No Brasil, apesar da relação tensa entre os governos Jair Bolsonaro e Fernández, teve uma relação amistosa com o então presidente brasileiro, a ponto de ter repartido um bolo com o mandatário em agosto de 2021, para comemorar um ano da sua nomeação como embaixador em Brasília.
Mesmo com essa relação, em maio de 2021, Scioli se reuniu com Lula em Brasília depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações do petista no âmbito da Operação Lava Jato.
Em outubro de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro na eleição presidencial daquele ano, Scioli comemorou o resultado.
“Do ponto de vista político, isso é maravilhoso, pois representa um novo tempo de esperança e de maior integração, além do forte compromisso que Lula tem com o Mercosul e a América Latina. E, especialmente, pela relação particular que mantém com o presidente Alberto Fernández e com a vice-presidente [Cristina Kirchner]”, afirmou à época.
Tudo mudou em dezembro de 2023, quando o libertário Javier Milei, desafeto de Lula e amigo dos Bolsonaro, chegou à Casa Rosada.
No mês seguinte, o mandatário argentino designou Scioli para a Secretaria de Turismo, Meio Ambiente e Esportes da Argentina. Scioli deixou o peronismo e se filiou ao A Liberdade Avança (LLA, na sigla em espanhol), partido de Milei.
Sua aproximação com o libertário causou revolta no peronismo, especialmente no círculo próximo de Sergio Massa, derrotado por Milei na eleição de 2023 e desafeto de Scioli.
“Com fé e esperança, os oportunistas, aproveitadores, especuladores e extorsionadores são os opositores! Mas foi para isso que os elegeram! Ah... não. Não sei o que dizer. Fim!”, escreveu à época no X o hoje deputado Sebastián Galmarini, cunhado de Massa, fazendo referência a Scioli.
A designação de Massa como ministro da Economia de Fernández, em 2022, forçou Scioli a voltar ao cargo de embaixador no Brasil.
Além disso, ele considerou que a primeira candidatura de Massa à presidência, em 2015, serviu para rachar o eleitorado de esquerda e colaborar para sua derrota para Macri.