Lula terá que quebrar tabu sul-americano para vencer Flávio

5 de Out de 2026 - 20:50
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Lula terá que quebrar tabu sul-americano para vencer Flávio

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputará o segundo turno da eleição presidencial com Flávio Bolsonaro (PL) no próximo dia 25, precisando superar um tabu que reflete a ascensão da direita em pleitos nas Américas nos últimos anos.

No primeiro turno, realizado no domingo (4), o petista teve cerca de 45% dos votos, ficando atrás do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), que obteve 47%.

Desde a vitória de Gabriel Boric na eleição presidencial do Chile, no final de 2021, um candidato de esquerda que ficou em segundo lugar no primeiro turno de uma disputa presidencial na América do Sul não consegue reverter a desvantagem no segundo turno e vencer o pleito.

Naquela ocasião, Boric teve 26% dos votos da primeira votação, contra 28% do conservador José Antonio Kast, no primeiro turno realizado em novembro. No mês seguinte, o esquerdista conseguiu 56% dos votos válidos e foi eleito.

Antes da eleição brasileira deste ano, houve, desde então, outros três casos em que candidatos de esquerda sul-americanos à presidência foram para o segundo turno em desvantagem: a correísta Luisa González, no Equador, em 2025; Roberto Sánchez, no Peru, em 2026; e Iván Cepeda, na Colômbia, também neste ano.

Os três acabaram derrotados por Daniel Noboa, Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella, que já haviam liderado no primeiro turno.

Para piorar o histórico recente da esquerda sul-americana, três candidatos desse espectro político que foram os mais votados em primeiro turno acabaram sendo derrotados na segunda votação nos últimos anos: González em 2023 no Equador, na eleição para complementar o mandato do conservador Guillermo Lasso (que havia renunciado); o peronista Sergio Massa na Argentina em 2023; e a comunista Jeannette Jara no Chile, em 2025.

Noboa, Javier Milei e Kast, respectivamente, conseguiram reverter a desvantagem das primeiras votações e foram eleitos contra esses adversários.

O petista tem outro tabu a enfrentar, este interno: desde a redemocratização, nunca um candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno (seja de esquerda ou de direita) foi eleito presidente do Brasil.

Direita vem atropelando esquerda em eleições na América do Sul

No início de 2023, quando Lula assumiu seu terceiro mandato, a América do Sul tinha oito mandatários de esquerda (na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Guiana, Suriname e Venezuela) e apenas quatro de direita (Equador, Paraguai, Peru e Uruguai).

Hoje, o jogo político foi revertido: o subcontinente está dividido entre sete governos de direita (Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru) e cinco de esquerda (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai).

Mesmo entre governos de esquerda sul-americanos, há maior aproximação com o governo de direita de Donald Trump nos Estados Unidos do que com a gestão Lula.

A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, atende a todas as demandas do republicano e sua gestão desde a captura de Nicolás Maduro vem sendo descrita como uma “tutelagem” do secretário de Estado americano, Marco Rubio.

Apesar de ter um presidente de esquerda (Irfaan Ali), a Guiana aderiu ao Escudo das Américas, um plano de segurança de Trump ao qual Lula se opõe.

Marcos José Zablonsky, relações públicas, especialista em opinião pública e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse em entrevista à Gazeta do Povo que, nos movimentos pendulares da política latino-americana, a nova onda de direita substitui a predominância de governos de esquerda de alguns anos atrás, captando a insatisfação com quem está governando.

Ainda que cada país tenha suas peculiaridades, alguns temas em comum têm permeado os processos eleitorais na América do Sul.

“A primeira grande questão é que a segurança pública ganhou uma enorme importância, tanto no Brasil quanto na América Latina e em termos globais. A imigração tornou-se um tema central em alguns países. Tivemos a questão dos haitianos, dos venezuelanos, além de outras demandas que vêm aparecendo. Há também uma preocupação com a inflação, custo de vida, crescimento econômico e eficiência do Estado”, disse Zablonsky.

“Um componente novo que apareceu dentro desse cenário são as redes sociais. A direita sul-americana conseguiu construir uma comunicação digital muito eficiente. Aqui no Brasil, inclusive, eles são muito mais eficientes do que a esquerda, principalmente com o público mais jovem e com eleitores insatisfeitos com as instituições e com a política tradicional”, afirmou o analista.

Zablonsky destacou que as amplas bancadas que a direita brasileira conseguiu emplacar no Congresso Nacional também indicam como esse espectro político “conseguiu transformar força eleitoral e presença nas redes sociais em força institucional”.

“Aquilo que estava só nos corredores e no dia a dia das pessoas hoje está formalizado tanto no Senado quanto na Câmara Federal, além do número de governadores e deputados estaduais”, afirmou.

A respeito da campanha do segundo turno, Zablonsky disse acreditar que Trump, o grande inspirador dessa tendência, não deve se manifestar abertamente a favor de Flávio antes dos resultados do dia 25, apesar da amizade do presidente americano com a família Bolsonaro.

“Ele percebeu que, se se posicionar abertamente agora, pode criar um fato novo e gerar resistência no próprio eleitorado por causa da temática da soberania [do discurso petista]. Se tivesse que dizer algo mais direto, [Trump] teria dito logo após o primeiro turno”, pontuou.