Seis efeitos que o consumidor deve sentir com o El Niño muito forte

13 de Out de 2026 - 21:50
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Seis efeitos que o consumidor deve sentir com o El Niño muito forte

Depois de uma trégua de três meses, a voltou a acelerar. Os preços tiveram alta de 4,58% nos 12 meses encerrados em setembro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E a intensificação do El Niño na primavera e no verão pode piorar o cenário.

Segundo o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (CPC/NOAA, na sigla em inglês), a tendência é de que o El Niño continue ganhando força nos próximos meses. As projeções para que chegue à categoria forte a muito forte no primeiro trimestre de 2027 são de 83%, podendo ser um dos maiores desde 1950.

Os principais efeitos no campo são o aumento de umidade e de chuvas no Sul, precipitação intermitente no Centro-Oeste e secas no Norte. Especialistas consultados pela Gazeta do Povo apontam que o principal efeito será a menor oferta de alimentos.

Segundo o economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz, o fenômeno deve acrescentar 0,40 ponto percentual ao IPCA (índice oficial de inflação do país) acumulado. No cenário mais severo, o impacto pode chegar a 1,2 ponto percentual até o primeiro semestre de 2027. Essa pressão ocorre em um contexto econômico e institucional já fragilizado.

“A constatação de descontrole fiscal e a falta de ancoragem das metas são os fatores mais relevantes, mas conflitos internacionais e eventos climáticos, como o El Niño, geram volatilidade nos preços de commodities estratégicas ao tempo que afetam safras agrícolas e a geração de energia”, avalia Gustavo Caciatori, diretor de operações (COO) do Banco Bari.

Os efeitos chegam ao bolso em velocidades diferentes: primeiro os alimentos frescos, depois os industrializados e as carnes, e por fim os custos de energia, combustíveis e bens industriais.

1. Hortifrutigranjeiros e alimentos in natura: os primeiros efeitos no bolso

Os itens in natura lideram as altas por se tratarem de lavouras de ciclo curto e produtos de alta perecibilidade. O coordenador de Índices do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), André Braz, explica que o gargalo inflacionário não decorre apenas da ausência de água, mas da desorganização do volume e da distribuição das chuvas.

No Sul, o excesso de precipitação e os vendavais provocam danos mecânicos em folhosas e encharcamento do solo. O cenário compromete o desenvolvimento de tubérculos e dificulta a colheita mecânica de itens essenciais na mesa do brasileiro. No IPCA de setembro, hortaliças e legumes já registraram disparadas fortes, com destaques para o tomate (+37,8%), a batata-inglesa (+24,1%) e a cebola (+10,1%).

O gerente de Suprimentos do Grupo Risotolândia, Pedro Ferraz, ressalta que o maior desafio do setor é administrar a incerteza da oferta e a volatilidade de padrões. “A combinação de alta umidade com temperaturas elevadas cria o ambiente ideal para a proliferação de fungos e pragas, reduzindo a vida útil do produto e exigindo atenção redobrada no campo”, afirma Ferraz.

2. Grãos e alimentos industrializados: efeito defasado nas prateleiras

A produção de grãos como soja e milho absorve os impactos do clima com atraso, conforme o calendário das safras. Historicamente, episódios severos de El Niño provocam quebras de produtividade no Centro-Oeste e na região do Matopiba (área de produção no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) devido à estiagem prolongada. Já o excesso de chuvas no Sul dificulta o manejo e a qualidade dos grãos colhidos.

A menor disponibilidade global de grãos impulsiona as cotações das commodities agrícolas nos mercados internacionais. O repasse dessa alta de custos atinge diretamente a indústria de alimentos processados. Derivados como óleos vegetais, farinhas e panificados sofrem pressão em cascata. O movimento é amplificado pelo aumento da demanda por biocombustíveis e pela elevação dos custos de frete e embalagem em toda a cadeia de suprimentos.

Analistas do Rabobank observam que os preços da soja e do milho já tiveram saltos acentuados no atacado em setembro. A alta superou os 5%.

3. Carnes devem aumentar mais do que no final de 2025

Outro grupo de alimentos que tem um aumento gradual nos preços devido ao El Niño é o de carnes. Braz, do FGV Ibre, destaca que a seca severa prejudica a qualidade das pastagens, reduz o ganho de peso do gado e encarece a suplementação alimentar do rebanho.

Simultaneamente, a alta nos preços do milho e do farelo de soja eleva drasticamente os custos da avicultura e da suinocultura. Como a ração representa cerca de metade dos custos operacionais da produção de aves, o aperto nas margens dos produtores acaba sendo transferido ao consumidor final.

No atacado, a pressão já é visível. O Rabobank observou uma alta de 3,4% nos preços da carne bovina contra o mês anterior. A XP Investimentos projeta que, para o quarto trimestre de 2026 e início de 2027, haverá uma “alta dos preços de carnes que deve superar significativamente as observadas no final do ano anterior”.

4. El Niño obriga uso de fontes mais caras de geração de energia

A tarifa de elétrica é um dos canais mais sensíveis à dinâmica climática. Braz adverte que o El Niño não resulta automaticamente em aumento na conta de luz, mas depende de onde as chuvas se concentram e do nível dos reservatórios hidrelétricos.

Quando a estiagem reduz o nível dos reservatórios em bacias importantes, o sistema nacional de energia é forçado a acionar usinas térmicas. Por utilizarem gás natural e carvão, essas fontes têm custos de geração elevados, o que aciona as bandeiras tarifárias — a sobretaxa na conta quando a geração fica mais cara — e eleva a fatura residencial.

Na inflação de setembro, a energia elétrica residencial já pesou: subiu quase 8%, após o término do Bônus de Itaipu (crédito na conta de luz no período chuvoso) e a vigência da bandeira amarela, com o maior efeito individual sobre o índice do mês.

5. Combustíveis: a alta nos postos não vem só do El Niño

O efeito sobre os combina fatores climáticos domésticos e pressões do mercado internacional de energia. No ambiente interno, secas prolongadas ou chuvas fora de época nas regiões produtoras de cana-de-açúcar afetam o rendimento do canavial e a oferta de etanol.

Braz pondera, porém, que o preço do etanol no posto não depende isoladamente do clima, mas também do tamanho da safra, da composição da produção das usinas (divisão entre açúcar e etanol), do volume dos estoques e da paridade de preços em relação à gasolina.

O Itaú BBA destaca ainda que a expansão das regras de mistura obrigatória de biodiesel no diesel e o avanço da produção de etanol de milho conectam os combustíveis diretamente aos choques agrícolas do El Niño. Quebras de safra de soja e milho reduzem a margem de esmagamento (a diferença entre o custo da soja e a receita do óleo e do farelo) e elevam o custo do insumo renovável.

Do lado externo, a cotação do petróleo Brent, estabilizada ao redor de US$ 105 por barril, com alta de 65,5% em 12 meses, mantém os preços dos derivados em níveis elevados.

Análises da XP Investimentos e do Bradesco reforçam que a recente valorização do real frente ao dólar amortece parte dos choques vindos de fora — e o governo conteve repasses imediatos pelos mecanismos tributários. Mas a persistência das tensões geopolíticas, somada às incertezas climáticas, limita o alívio na bomba no médio prazo.

A segunda frente do efeito é logística. A seca nos rios da bacia Amazônica prejudica a navegação de barcaças que transportam combustíveis. No Norte (como no polo industrial de Manaus), o nível baixo dos rios impõe restrições de calado — a profundidade mínima que os navios precisam para navegar. Para contornar a redução da capacidade de carga dos navios, as empresas precisam realizar viagens fracionadas, transbordos e pagar sobretaxas de navegação, elevando o consumo e os custos de transporte. Na ponta, os custos extras de transporte se espalham pela distribuição de alimentos e de produtos industriais.

6. Dificuldade para escoar a produção afeta eletroeletrônicos feitos em Manaus

O mesmo gargalo da seca no Norte que encarece o transporte de combustíveis — viagens fracionadas, transbordos e sobretaxas — atinge em cheio a produção industrial concentrada na Zona Franca de Manaus, que depende da navegação fluvial para escoar seus produtos aos grandes centros consumidores do Sul e Sudeste.

Braz detalha que o transporte fluvial mais caro força as indústrias a adotar soluções de emergência. “Qualquer mudança na logística encarece o preço do produto final”, pontua o economista. Diante da inviabilidade ou do atraso no transporte pelos rios, a alternativa emergencial para produtos de alto valor unitário — como smartphones, notebooks, televisores e motocicletas — é a migração para o modal aéreo.

Essa rota de fuga logística, porém, esbarra no custo do querosene de aviação (QAV): o combustível subiu 11,8% em outubro, puxado pelo Brent e pela geopolítica citados acima, e está 74% acima do preço de 1º de março. O frete mais caro chega às prateleiras desses itens. É mais um elo entre o El Niño e o bolso do consumidor.