Sertanejos devem perguntar se Flávio Bolsonaro dará suas obras a big techs

12 de Out de 2026 - 16:40
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Sertanejos devem perguntar se Flávio Bolsonaro dará suas obras a big techs

O marco da inteligência artificial que tramita no Congresso vai seguir um caminho ou outro dependendo do resultado de 25 de outubro. Entre outras coisas, ele define se empresas de tecnologia poderão usar de graça a obra de compositores, cantores, intérpretes e jornalistas.

O governo Lula defende uma espécie de Ecad da inteligência artificial, um sistema que garanta pagamento aos autores cujas obras são usadas para treinar as máquinas.

Falta saber o que pensa Flávio Bolsonaro. E poucos têm tanta legitimidade para cobrar essa resposta quanto os sertanejos que o apoiam.

O parceiro de Trump

Flávio nunca escondeu de que lado está. Na CPAC, no Texas, se apresentou como “Bolsonaro 2.0” e prometeu ser um parceiro confiável de Trump. Disse também que o Brasil pode ser a saída para os Estados Unidos deixarem de depender da China em minerais críticos. Nesse discurso, o país aparece como território a oferecer, e não como alguém com interesses próprios.

Lobby e as portas fechadas

Além das terras raras e dos data centers, as big techs estão de olho no marco legal da IA, o PL 2338, que hoje está na Câmara. O Brasil é um dos maiores consumidores de redes sociais, buscadores e chatbots do mundo, e essas empresas detestam qualquer lei que as limite. Em setembro de 2025, deputados da comissão especial que analisa o projeto viajaram ao Vale do Silício numa missão da Frente Parlamentar pelo Livre Mercado, comandada por parlamentares do PL. A frente é assessorada pelo Instituto Livre Mercado.

Na Califórnia, a comitiva visitou diversas big techs. O pouco que se sabe dessas reuniões está num telegrama do consulado brasileiro em São Francisco ao Itamaraty. Os deputados responsáveis por escrever a lei estiveram com Sam Altman, da OpenAI, Anthropic, Apple, Nvidia, xAI, Palantir, Scale AI, Credo.AI e 1X. Uma visita documentada ao Spotify ficou de fora do registro do Itamaraty.

Quem paga pela matéria-prima da IA

Para treinar uma IA, as empresas usam milhões de músicas, livros, imagens e reportagens. A questão é se precisam pedir licença e pagar por isso. O Senado disse que sim. O texto aprovado em dezembro de 2024 garante remuneração a quem tiver a obra usada em sistemas comerciais de IA. Paula Lavigne liderou a mobilização dos artistas e acompanhou a votação no plenário com Paula Fernandes, Otto e Paulo Betti.

O jornalismo está do mesmo lado. Os resumos feitos por IA nos buscadores entregam a notícia sem que o leitor precise clicar no veículo que a apurou, e isso agrava a crise da imprensa. Quem apura acaba alimentando as máquinas que depois disputam com ele a atenção do público.

As big techs dizem que a cobrança pode inviabilizar a IA no Brasil, e senadores do PL apresentaram emendas para liberar o uso de conteúdo sem pagamento. Na Câmara, o lobby quer um sistema em que o próprio autor tem de pedir para ficar de fora. Na prática, a obra vira insumo gratuito e o artista que se vire. O projeto segue sem data para votação, e o Instituto dos Advogados Brasileiros já alertou que a Câmara pode suprimir toda a seção sobre direitos de autor.

Os sertanejos e os Bolsonaro

É aí que o problema bate na porta do sertanejo. Poucos setores da cultura se aproximaram tanto da família Bolsonaro, e poucos têm tanto a perder se o Brasil passar a seguir a agenda de Washington sem pesar os próprios interesses. Em 2022, no segundo turno, Gusttavo Lima, Chitãozinho, Zezé Di Camargo, Leonardo e Fernando, da dupla com Sorocaba, subiram ao lado de Bolsonaro no Palácio da Alvorada. A relação sobreviveu à derrota. Flávio defendeu Gusttavo Lima nas redes quando o cantor foi investigado, e em 2026 almoçou de chapéu com Amado Batista em Goiás e saiu de lá com o apoio declarado do cantor.

O sertanejo vive de direito autoral, da execução nas rádios, nos shows e nas plataformas. Por ser o gênero mais tocado do país, é também o que oferece mais material para treinar máquinas capazes de criar canções “no estilo” de qualquer dupla. Se a remuneração aprovada no Senado cair na Câmara, essas composições podem virar matéria-prima de graça para empresas americanas.

Na posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, quem ocupou a primeira fila não foram operários nem agricultores do Meio-Oeste. Foram Musk, Bezos, Zuckerberg, Pichai e Cook, donos das empresas que disputam a liderança da IA. Quem se alinha a Trump acaba alinhado a eles também. Os sertanejos que emprestam a voz aos Bolsonaro não precisam mudar de lado para cobrar uma resposta. Basta perguntar a Flávio, antes do dia 25, o que ele pretende fazer com a obra deles.