The Wargame: a melhor série que você não vai ver em lugar nenhum
The Wargame é uma daquelas pérolas que a gente acha quando está passeando por áreas menos respeitáveis da internet, e que jamais acharíamos em meio à profusão de conteúdo oferecida pelos canais de streaming.
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O bicho está pegando (Crédito: Reprodução/Sky One/Comcast)
O conceito é meio Guerra dos Mundos, meio mockumentary, com uma pitada de Reality TV, o resultado é algo extremamente realista, deprimentemente preciso e é como se estivéssemos nos ombros de Winston Churchill durante a Segunda Guerra. OK, Tony Blair...
A série surgiu de um podcast do canal britânico Sky, concebido pelo Dr. Robert Johnson, da Universidade de Harvard, e Deborah Haynes, editora de Segurança e Defesa da Sky News.
O podcast e a série seguem a mesma premissa: um Jogo de Guerra (daí o nome) criado pelo Dr. Johnson e outros especialistas em Defesa, Geopolítica, História e tecnologia militar simula uma situação aonde um navio russo “civil” sofre um acidente (ou é autossabotado intencionalmente), forçando uma situação de tensão, explorada pelos russos.
As tensões vão crescendo, a Rússia acusa o Reino Unido de ter afundado o navio intencionalmente. Um navio de guerra britânico próximo é afundado em retaliação por um submarino russo, e agora os ingleses precisam decidir: Afundam o submarino em resposta, ou não fazem nada, sabendo que os russos irão entender isso como sinal de fraqueza?
A série se passa principalmente no COBRA (Cabinet Office Briefing Room A), um comitê de Defesa e Gerenciamento de Crise com o primeiro escalão do Governo, incluindo Secretário de Defesa, Primeiro-Ministro, etc.
The Wargame intercala as reuniões com cenas de mídias sociais e reportagens de TV, mostrando a reação do público, a insegurança, a dúvida e incerteza de uma guerra que ninguém sabe como começou.
The Wargame – O Pulo do Gato
A diferença da série para a maioria das outras é o extremo realismo, e isso tem um motivo: os políticos e militares falam como políticos e militares, porque eles SÃO políticos e militares.
O Primeiro-Ministro é interpretado por Michael Gove, membro da Câmara dos Lordes, foi membro do Parlamento pelo Partido Conservador, e liderou o partido algumas vezes. Kim Darroch, ex-embaixador Britânico nos EUA faz o Conselheiro de Segurança Nacional, cargo que ele já exerceu de verdade.

Michael Gove, como o Primeiro-Ministro (Crédito: Reprodução/Sky One/Comcast)
George Robertson, membro do Partido Trabalhista e secretário-geral da OTAN de 1999 a 2003 faz – você já está pegando o jeito, sim – o secretário-geral da OTAN.
Até a equipe da assessoria de imprensa é feita por gente do ramo. Zoë Grünewald, que foi oficial de mídia e comunicações sênior da Câmara dos Comuns de 2019 a 2021 faz a chefe da assessoria de imprensa do governo.
O prestígio dos produtores da série, para conseguir que um monte de figurões políticos se reunissem para uma história de ficção onde a Rússia é a vilã, nos momentos delicados que vivemos, é imenso. Até Anthony Scaramucci, ex-Diretor de Comunicações de Trump aparece, como Secretário de Estado dos EUA.
Os Elefantes na Sala
O plano russo envolve isolar o Reino Unido, com deep fakes irritando o presidente dos EUA, que é grande amigo da Rússia, e se recusa a atender as ligações do Primeiro-Ministro britânico, e se nega a ativar o Artigo 5 da Carta da OTAN, que prevê ajuda caso um membro seja atacado. E sem os EUA, os outros membros não querem se envolver.
Do lado russo, sabemos que é tudo ideia do “presidente” deles, mas nem Trump nem Putin são citados nominalmente. Claro, são eles, é óbvio, mas o dedo na cara da série tem limites.
A IA Adolescente
The Wargame é uma série excelente, com um ritmo angustiante, um texto de primeira, mas é uma série da Sky, então eles tem que se virar com orçamento de conserto de geladeira.
Há muita cena de arquivo, como protestos de rua, imagens aéreas, prédios. Reportagens antigas são adaptadas, e as cenas de ação em sua maioria são feitas com IA, mas atenção: NÃO SÃO POBRES.
Existem dois problemas hoje em dia com vídeos feitos com IA. O primeiro, é a pobreza. Em sua maioria são feitos de qualquer jeito, sem nenhum esmero ou capricho, é na base “o que sair está bom”, por isso tantas gostosas artificiais de Instagram com mais dedos que Pepe Le Pew no Hello Kitty World.
The Wargame usa cenas de IA para ilustrar a história, tipo mostrar um navio no mar, não é a IA a estrela ou o foco. Também usam truques como mostrar imagens de câmeras de segurança, simular cenas filmadas com celulares, mostram imagens em telas ao invés de diretamente.
O segundo erro é querer abraçar o mundo com uma tecnologia que ainda está sendo desenvolvida. Claro que é ambicioso usar IA em uma série em 2026, e teria tudo para dar errado se os produtores pensassem em The Mandalorian, O Resgate do Soldado Ryan, O Senhor dos Anéis.
Em The Wargame a IA é usada de forma parcimoniosa. O torpedeamento do HMS Loughborough é visto em tempo real por uma câmera de segurança do navio. Não há tomadas épicas nível Titanic, com marinheiros na água, múltiplas explosões, reaction shots.
Nesta cena por exemplo vemos o torpedo sendo lançado de um P-8 Poseidon, através de uma câmera posicionada -bem- de um ponto impossível, mas viável, como se um tripulante estivesse segurando um pau de selfie da janela. É uma cena curta, com cara de vídeo ao vivo de baixa qualidade.

Crédito: Reprodução/Sky One/Comcast
Somente um daqueles nerds insuportáveis apontariam que esse "torpedo" não existe, e que a baia interna de um P-8 é diferente da imagem gerada por IA.

O torpedo da imagem da série não existe e a baia interna do P-8 Poseidon é diferente, como podemos ver na imagem acima (Crédito: Reprodução Internet)
A IA não é uma vitrine para a IA, não é “vejam, estamos usando esta nova e revolucionária tecnologia”. Ela é um meio para um fim; contar uma história.
A Triste Realidade
A Grã-Bretanha não é mais o que era. Por décadas a OTAN como um todo dependeu dos EUA para o grosso de sua defesa, negligenciando investimentos militares, que o público considera antipáticos. Trump puxou o tapete da OTAN, ameaçando sair da organização mais de uma vez, e hoje os ingleses não conseguem mais defender seus interesses no Oriente Médio, ou em qualquer lugar.
A Marinha Real tem mais almirantes que navios de guerra. Acha que estou exagerando? Estes são TODOS os meios navais de combate do Reino Unido, em set/2026:
| Tipo | No papel | Operacionais |
| Porta-aviões | 2 | 2 |
| Contratorpedeiros Type 45 | 6 | 3 |
| Fragatas Type 23 | 5 | 4 |
| Submarinos de ataque Astute | 6 | 0-2 |
| Submarinos lançadores Vanguard | 4 | 1 |
E é isso. Acabou.
Em 1982, durante a Guerra das Falklands, excluindo o comboio logístico, só em embarcações de combate o Reino Unido enviou para o outro lado do mundo:”
| Tipo | Enviados |
|---|---|
| Porta-aviões | 2 |
| Contratorpedeiros e fragatas | 23 |
| Navios de assalto LPD | 2 |
| Submarinos | 5-6 |
The Wargame explora isso; a Guerra com a Rússia é uma guerra perdida, sem ajuda dos aliados. Como vão sobreviver? Irão sobreviver? Eu não sei, a série não acabou ainda, e sinceramente eu gostaria que nunca acabasse.
Cotação:
5/5 Churchill Kawais
Trailer:
Onde Assistir:

É o jeito (Crédito: Grok)
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