Vencedora da eleição parlamentar de 2024, esquerda da França implode com protestos violentos
A Nova Frente Popular (NFP), ampla aliança de partidos de esquerda, foi o grupo que obteve mais cadeiras na Assembleia Nacional da França na eleição legislativa antecipada de 2024, ainda que longe de obter maioria na casa. Dois anos depois, os protestos violentos registrados no país nas últimas semanas parecem ter implodido a aliança, que já enfrentava problemas internos.
Em março de 2025, Sandrine Rousseau, deputada do partido Verde na Assembleia Nacional representando Paris, disse em entrevista à revista americana The Nation que “a NFP não está morta, mas respira por aparelhos”.
A análise pessimista refletia resultados eleitorais decepcionantes da esquerda após a eleição de 2024 e divergências sobre o orçamento do governo francês.
Agora, a esquerda está rachada devido aos protestos contra o aumento do custo de vida e pedindo mais investimentos na educação, que tiveram início em setembro e descambaram para a violência, com saques, invasões, depredações e incêndios de prédios públicos e privados, confrontos com a polícia e cerca de 2,4 mil pessoas presas no fim de semana.
Enquanto o partido A França Insubmissa (LFI, na sigla em francês), uma das legendas mais radicais da NFP, tem tido uma posição leniente a respeito dos manifestantes, setores mais moderados da esquerda estão se opondo à violência.
Após o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, ter culpado o LFI pelos tumultos e exigido que o partido “escolha um lado” entre o país e os manifestantes violentos, o líder da legenda, Jean-Luc Mélenchon, disse em entrevista à emissora LCI que essa escolha “é detestável”.
“A escolha se dá entre uma população e sua juventude mergulhadas em uma crise profunda e um governo que utiliza sempre os mesmos métodos: a putrefação e a violência cega”, afirmou Mélenchon.
Porém, os prefeitos de Paris, Marselha e Lyon, de outros setores da NFP, condenaram a violência dos protestos e afirmaram, em um artigo publicado pelo jornal Libération, que no fim de semana tiveram “pela primeira vez a sensação de que partes inteiras de nossas cidades ficaram sem proteção”.
Emmanuel Grégoire, prefeito socialista de Paris, pediu no X “uma reação em defesa da República” diante “da violência e dos atos de destruição” do fim de semana. “Àqueles que gostariam de nos dividir, devemos contrapor a nossa unidade”, afirmou.
Raphaël Glucksmann, que no último dia 11 foi escolhido por uma coalizão formada pelo Partido Socialista, pelo Place Publique e pela Esquerda Republicana e Socialista – integrantes da NFP – para ser candidato presidencial em 2027, prega um afastamento do LFI e em post publicado no X no sábado (17) condenou a violência dos protestos de forma inequívoca.
“Esses milhares de vândalos não estão nem aí para o movimento social em curso ou para as reivindicações dos estudantes. Eles estão lá apenas para agredir, queimar e destruir”, escreveu.
Essa fragmentação da esquerda pode ajudar candidatos de outros espectros políticos na eleição presidencial de abril.
Marine Le Pen, do partido de direita nacionalista Reagrupamento Nacional (RN), tem liderado as pesquisas, com Glucksmann e Mélenchon disputando a segunda posição com Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro do governo do presidente Emmanuel Macron.