8 tecnologias ÓBVIAS que foram inventadas tarde demais
Gostamos de acreditar que a evolução tecnológica como um todo é linear, mas algumas tecnologias surgem antes de seu tempo, e outras só aparecem bem mais tarde. É frustrante ver algo óbvio e viável, que não existia antes.

Os ferreiros medievais poderiam ter produzido um computador? (Spoiler: Não) (Crédito: Krea 2)
Richard Bach, autor de Fernão Capelo Gaivota e direto responsável por eu gostar de escrever, tem um artigo onde defende que “Os Egípcios Poderiam Voar”.
O argumento é que o antigo Egito tinha tecnologia -madeira, tecidos, etc- para construir um planador, que lançado de uma das montanhas do país, poderia voar por muitos quilômetros. Ele está correto, mas errado.
Eu gosto de usar o exemplo dos quadrinhos. Comparando os gibis da Era de Ouro (1938-1956) com os atuais, a diferença é gritante; os quadrinhos modernos são muito mais complexos, as imagens são realistas, os cenários são detalhados. Os antigos eram... primários. Fundos chapados, enquadramentos primários, mas faço a pergunta: Os ilustradores eram fundamentalmente diferentes, do ponto de vista fisiológico?
Claro que não, ambos são humanos, a diferença é que o ilustrador moderno tem todo um treinamento em arte realista, que inclui conceitos como perspectiva, descoberto por Filippo Brunelleschi, em 1415.

Brunelleschi criou as regras de perspectiva, algo até então inexistente entre os artistas (Crédito: Domínio Público)
Antes dele pinturas e ilustrações eram chapadas, por algum motivo ninguém antes havia tentado pintar uma paisagem tridimensional. Só que se você mostrar a um pintor do Século XIII uma pintura moderna, e explicar os conceitos, ele conseguirá reproduzi-la.
Sem a bagagem tecnológica, ficamos reféns do nosso próprio tempo, e muitas invenções refletem isso. Elas são criminosamente tardias, mas não funcionariam se surgissem antes.
Vamos a algumas dessas invenções, e como são obviamente óbvias, agora que temos o benefício da visão retrospectiva.
1 – Rodinhas em malas
Essa é a mais óbvia de todas. Por Séculos, viajantes ricos levavam seus pertences em baús e caixas pesadas de madeira, que eram carregados por servos ou escravos. Quando as malas rígidas individuais começaram a aparecer no final do Século XIX, tinham que ser carregadas na mão.

Bem, TECNICAMENTE as malas estão sobre rodas (Crédito: Domínio Público)
Somente em 1970, Bernard D. Sadow, um executivo americano da empresa de bagagens U.S. Luggage, teve a idéia de colocar quatro rodinhas em uma mala, que era puxada por uma correia, mas a solução era desajeitada em qualquer terreno que não fosse 100% plano.
17 anos depois, em 1987, piloto americano Robert Plath teve a idéia que seria o padrão moderno: Ele projetou uma mala com alça telescópica e duas rodinhas.

Mala moderna (Crédito: Reprodução Internet)
As malas com quatro rodinhas girando 360 graus, que podem ser puxadas ou empurradas em qualquer direção? Só surgiram em 2004.
2 – Borracha na ponta do lápis
É absolutamente óbvio, não é preciso tecnologia de outro mundo. Faz todo o sentido biológico um lápis com uma borracha na ponta, certo?
Bem, o lápis moderno, um núcleo de grafite envolto em madeira, pode ser traçado até Simonio e Lyndiana Bernacotti, um casal italiano que por volta de 1560 criou o primeiro lápis de carpinteiro. Depois a produção de grafite artificial popularizou a ferramenta, mas a primeira borracha especificamente projetada para apagar traços de lápis só surgiu em 1770. Até então todo mundo usava coisas como miolo de pão.

Algo simples assim, levaram uma eternidade pra criar (Crédito: Krea 2 Turbo)
Ainda assim ninguém havia pensado no óbvio: Colar uma borracha na ponta do lápis. Isso só veio a acontecer em 30 de março de 1858, quando o inventor americano Hymen L. Lipman patenteou o lápis com borracha na ponta.
3 – Containers de Carga
O comércio naval é quase tão antigo quanto a Humanidade. Arqueólogos acham todos os dias naufrágios com navios levando bens, produtos e artes de terras distantes. Não importa o tamanho do navio, ou a época, a faina era sempre a mesma: Navio atracava, um exército de estivadores subia para retirar a carga nos ombros. Nos portos maiores, guindastes auxiliavam com as cargas maiores.
Alguns produtos eram enviados em caixas, outros em sacos, barris, não havia padronização. Descarregar e carregar um navio levava dias e dias. Organizar os porões era um imenso jogo de Tetris. Por milênios, ninguém pensou em melhorar isso. Até que no final dos anos 1950, Malcom McLean, um empresário americano, decidiu economizar dinheiro enviando caminhões inteiros com carga, em navios. Ele achava que ganharia tempo descarregando o caminhão de uma vez.

Every Glory, navio de mais de 200 mil toneladas carregando acima de 20 mil containers (Crédito: By kees torn - Aankomst Ever Glory, groen gestuwd 20.000 TEU containerschip)
Malcom entretanto não levou sua idéia adiante. Ele viu que perderia dinheiro e espaço, levando o caminhão inteiro. Bateu a cabeça por um bom tempo, e chegou à conclusão que se só levasse o baú do caminhão, teria o melhor de dois mundos: Sua carga de forma rápida e acessível, sem o peso extra do caminhão, desde que do outro lado houvesse um caminhão para o transporte.
Entusiasmado, em 1956 ele conseguiu um empréstimo de US$22 milhões (que na época era uma senhora grana), comprou um navio de carga e o modificou para levar os containers de carga. Os sindicatos de estivadores odiaram a invenção, e com razão.

Antes dos containers, era tudo na mão (Crédito: Reprodução Internet)
O custo de manuseio de carga em um navio da época custava US$5.86 por tonelada. Com o uso de contêiners, o valor caía para US$0.16 por tonelada. O tempo de descarga caía de dias para horas.
Ele investiu nos terminais de carga e descarga, e seu preço era metade do da concorrência. Mesmo assim os containers demoraram a “pegar”. Portos são entidades conservadoras, e sindicatos de estivadores não são exatamente fãs de qualquer coisa que diminua a necessidade de mão de obra.

Malcom McLean em seu navio com seus containers (Crédito: Reprodução Internet)
Em 1967 o Governo dos EUA se interessou e contratou os serviços dele para transportar cargas para o Vietnã, e o resto é História. Hoje basicamente todo o transporte de cargas não-bulk no mundo é feito com containers de metal corrugado, em formatos e dimensões padronizados. Qualquer porto do mundo recebe qualquer navio e manuseia qualquer container.
Malcom McLean viveu para ser sua invenção mudar e dominar o mundo, vindo a falecer apenas em 2001, aos 87 aos de idade.
4 – Numeração de Rua
Não digo aqueles endereços indecifráveis de Brasília, mas a numeração comum de rua é algo incrivelmente recente. O Sistema Francês, com números pares de um lado da rua, ímpares do outro, crescendo a partir de um rio ou praça, surgiu na França Napoleônica de 1805.
Até então, endereços eram na base das referências. “Casa vermelha na esquina na rua do açougue", “Terceira cabana na Estrada do Lobo, a feita de tijolos”. Indicação precisa não era um problema real, a Aldeia ainda não era global. Até hoje no Interior, todo mundo se orienta assim, mas as cidades começaram a crescer, e os governos queriam mais CONTROLE. Queriam saber quantas pessoas moravam em quais casas, quanto imposto cobrar, quantos soldados convocar. Na hora de tabelar os recursos, endereços precisos eram mais práticos.
Por causa disso houve muita resistência, governos que tentavam impor numerações nas casas descobriam que os moradores apagavam os números, a ponto do ato se tornar ilegal.
No final, o crescimento das cidades tornou a numeração inevitável. Com 50 mil habitantes não havia mais como todo mundo conhecer todo mundo, e isso também levou a outro problema a ser resolvido: Padronização e organização dos nomes de ruas. Em 1853 Londres tinha 25 Ruas Albert e 25 Ruas Victoria. Coitado do carteiro.
5 – Saquinho de Chá
Bebe-se chá desde que o mundo é mundo, os primeiros registros vêm da China de 2700AC, café apareceu na Etiópia do Século IX. Durante todo esse tempo, o procedimento era o mesmo: Folhas trituradas dentro da chaleira, fervia, peneira, xícara. Não havia uma porção individual, que só foi aparecer bem depois, com os infusores metálicos.
Somente em 1880 um tal Thomas Fitzgerald patenteou uma espécie de “meia” de musselina para colocar folhas de chá, mas não pegou. Em 1901, Roberta Lawson e Mary McLaren, de Milwaukee, patentearam uma bolsinha de tela para chá, mas ninguém deu bola.

Earl Grey é um chá muito gostoso, pena que é caaaaro... (Crédito: Paramount)
Em 1908, Thomas Sullivan, um importador de Nova York queria economizar nas caras latas metálicas de chá, e passou a enviar amostras em saquinhos de seda individuais, as instruções eram abrir o saquinho e colocar o chá no infusor ou chaleira. Um cliente não leu as instruções (oh surpresa) e colocou o saquinho na xícara, e adicionou a água quente. Achou muito prático, e logo vários clientes começaram a pedir seus chás assim, mas havia um problema: Assim como Ruby, os saquinhos de seda não escalavam. Eram feitos manualmente, e seda ainda era cara.
O saquinho de chá continuou como uma curiosidade cara para o público comum, mas nos Anos 30 surgiram os papéis porosos, e em 1929 um alemão chamado Adolf (não aquele, esse era Rambold) inventa a empacotadora automática de saquinhos de chá, invenção apreciada por outro Adolf (aquele), pois facilitava a distribuição de chá nas rações dos soldados.
O Reino Unido, tradicional como sempre, só foi aceitar o chá em saquinho em 1939, quando tudo estava racionado, incluindo seda e metal. De lá para cá, o chá em saquinho se tornou comum no mundo todo, e o Adolf do Bem viu isso acontecer, ele só morreu em 1996, aos 95 anos.
6 - dnɥɔʇǝʞ op ɐdɯɐʇ ∀
O ketchup tem suas origens na China, por volta de 300AC, e foi sendo adaptado por viajantes por Séculos e Séculos, até 1812, quando James Mease publicou a primeira receita americana, com tomates. Durante esse tempo todo, sempre houve o problema do armazenamento.
Uma das piores sensações do Universo era pegar uma garrafa de ketchup, esquecer de agitar, despejar no seu cachorro-quente e sair aquela água rosada nojenta, basicamente pus.
E ainda havia o problema da consistência. A temperatura variava e o ketchup não descia da garrafa nem por um decreto. Você acabava dando tanto tapa na bundinha que a garrafa ou se apaixonava ou chamava Maria da Penha.

As embalagens de cabeça para baixo inicialmente eram muito estranhas. Depois acostumamos (Crédito: Reprodução internet)
As garrafas de plástico melhoraram isso, mas criaram o problema do efeito cômico quando você apertava demais e além da agüinha nojenta, vir um jato de ketchup sujando todo mundo na mesa.
Um belo dia, no final dos Anos 80, um empresário e inventor chamado Paul Brown decidiu resolver esse problema, e começou a pesquisar. Ele percebeu que uma garrafa de cabeça para baixo eliminaria os problemas de resíduos e ar. Só precisava de uma válvula que fechasse em condições normais, e abrisse sob pressão.
Ele gastou uma fortuna, estourou todos os cartões de crédito, pediu dinheiro pra família, e produzir 111 protótipos mal-sucedidos. Então recebeu uma ligação de um cliente em potencial, que viria em três dias. Ele e um funcionário viraram uma noite de sexta, chegando ao 112º protótipo. E esse funcionou tão perfeitamente, que quando viu funcionando o cliente já fez uma encomenda. A tampa “mágica” de Paul Brown foi parar até na NASA, e em 1991 ele licenciou sua tampa para a Heinz, mudando para sempre as embalagens de Ketchup. Em 1995 ele vendeu a empresa e as patentes pelo equivalente a US$32 milhões em 2026, pagou todas as dívidas e foi curtir a aposentadoria.
7 – A Bicicleta – Parte 1
Não estou falando de ciclistas, mas do veículo. Energeticamente a bicicleta é extremamente eficiente, e seus componentes são simples; cremalheiras, corrente, pedais, uma armação. Uma equipe de artesãos e ferreiros conseguiria criar uma bicicleta rudimentar mesmo no Século XVII, talvez antes. Não seria prática, não seria útil, mas poderia ser aperfeiçoada em um veículo adequado para sua época, mas não foi feito.
Nunca houve nenhum veículo terrestre individual até 1817, quando surgiu a Draisine, uma geringonça incompreensível com um nome saído direto do Gerador de Nome de Pobre do Morróida. É uma bicicleta sem pedais, sem freios, sem pneus de borracha, sem sentido.

Essa desgraça é uma drasine (Crédito: Reprodução Internet)
Inventada pelo Barão alemão Karl Drais, a Draisine é tida como a precursora da bicicleta. Com absoluta certeza, ela é a criadora do CICLISTA, como podemos ver nesta deliciosa e atemporal citação da Wikipedia:
“Ficou evidente que as estradas estavam tão sulcadas pelas carruagens que era difícil manter o equilíbrio no veículo por muito tempo; por isso, os condutores de velocípedes passaram a utilizar as calçadas e a trafegar em velocidade excessiva, colocando em risco os pedestres. Consequentemente, as autoridades da Alemanha, da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e até mesmo de Calcutá proibiram o seu uso.”
Entretanto, o que veio depois da Draisine foi bem diferente.
8 – A Bicicleta – Parte 2 – A Missão
Imagina-se que a Draisine evoluiu para a bicicleta moderna, certo? ERROU MANÉ, os inventores, talvez bebendo da mesma água dos designers da Nokia do começo do Séc XXI, criaram os veículos mais estapafúrdios. Pedais nas rodas da frente, sem catraca, então ou você pedalava o tempo todo ou quebrava os pés; rodas de tamanhos diferentes, com a lógica de que se você quisesse ir mais rápido, precisava de uma roda maior. Sim, aparentemente séculos de tecnologia de engrenagens foram esquecidos.

Como diabos alguém acha isso minimamente razoável? (Crédito: Domínio Público)
O resultado culminou em 1870 nas famigeradas Penny-Farthings, aquelas bicicletas cômicas dos filmes antigos, com uma roda gigantesca na frente, e que mataram mais gente que a Peste Negra (carece de fontes).
COMO alguém achou aquilo prático, ou sequer viável, eu nunca vou entender.
As Penny-Farthings continuaram seu silencioso genocídio da elite européia, até o final da década de 1880, quanto surgiram as “Bicicletas de Segurança”, inicialmente ainda lembrando as armadilhas mortais do passado, mas rapidamente adotaram o modelo moderno de rodas baixas de diâmetro idêntico, pedais, corrente e em raros casos, até freios.

Uma bicicleta de segurança de 1885. Absolutamente comum e sem-graça (Crédito: Domínio Público)
As Bicicletas de Segurança são essencialmente as bicicletas modernas, e para refletir o estado atual dos ciclistas, removemos a parte de segurança e só chamamos de bicicletas mesmo.