A China aprendeu a domar o deserto para proteger uma linha de trem. Agora, os tabuleiros de palha estão fazendo a vegetação voltar

20 de Out de 2026 - 08:00
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A China aprendeu a domar o deserto para proteger uma linha de trem. Agora, os tabuleiros de palha estão fazendo a vegetação voltar

Em 1958, a expansão da malha ferroviária chinesa encarou um desafio árido: atravessar as dunas do deserto sem que a areia danificasse ou enterrasse os trilhos.

A previsão era que, ao posicionar a malha no local desejado, ela ficaria completamente submersa em até 30 anos. Durante a implementação, foi necessário suspender as obras 11 vezes por conta das tempestades de areia.

A solução encontrada não apenas permitiu que a ferrovia operasse até hoje, mas também transformou a agricultura em climas desérticos. Ao redor dos trilhos, o verde já começou a tomar conta.

O problema não era a areia

À televisão estatal China Global Television Network, o então diretor da estação de pesquisa Shapotou Desert Research and Experiment Zhang Zhishan resumiu o desafio: “Para garantir o sucesso da ferrovia, o deserto precisaria ser domado”.

O primeiro passo para superar o obstáculo foi entender que o “inimigo” não era necessariamente a areia; e sim, o vento que a transportava até os trilhos. Se fosse possível barrar as correntes de vento que sopravam logo acima das dunas, seria o fim do problema.

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A ciência entra em cena

Um centro de pesquisa aberto poucos anos antes da expansão da ferrovia foi quem assumiu a responsabilidade por solucionar o problema. O Instituto de Pesquisa do Deserto de Shapotou, ligado à Academia Chinesa de Ciências, estudou diversas formas já existentes de controlar o deserto. A mais efetiva já estava sendo usada por pequenos fazendeiros chineses na região de Zhongwei.

Para garantir que suas plantações não fossem cobertas por areia, mulheres na zona rural posicionavam “tapetes” de palha em padrões quadriculados nas margens da fazenda. Depois, os homens vinham com pás para enterrá-los parcialmente, deixando a maior parte exposta.

A estratégia reduz o movimento das camadas mais superficiais de areia. Com o passar do tempo, a umidade cria uma crosta superior que reduz ainda mais a interferência do vento; em condições normais de clima, esta proteção pode durar até 30 anos.

Além da palha, os cercados podem ser feitos com grama, arroz e outras vegetações rasteiras. Quando irrigados, estes quadrados podem até começar a florescer, transformando a paisagem árida com manchas verdes.

Por que os tabuleiros de palha funcionam?

Quase 50 anos depois da implementação das cercas orgânicas no deserto chinês, um estudo publicado no Journal of Arid Environments em 2004 testou sua efetividade em bloquear a passagem do vento.

Colunas de palha instaladas em quadrados com um metro de lado, com alturas entre 10 e 20 centímetros, aumentavam a tração da superfície e reduziam em até 99,5% a intensidade do vento.

O teor de umidade do solo nas bordas dos tabuleiros chega a ser 10,91% maior do que no centro dos quadrados e 18,56% maior do que no solo desprotegido. A areia se transforma em solo, permitindo a instalação de microrganismos, a captação de sementes trazidas no vento e a fixação da vegetação.

Com o passar dos anos, a própria palha vai se decompondo e se transformando em matéria orgânica que fertiliza o solo; as manchas verdes aumentam, mas cria-se a necessidade de renovar as cercas para garantir que a areia não volte a se mover.

“A técnica tem diversas vantagens: um efeito notável de fixação das dunas, fácil construção, resultados rápidos e zero poluição ambiental”, diz o artigo. “No entanto, o custo da mão-de-obra na implementação e nas substituições a cada três ou cinco anos são problemas.”

Tabuleiros de palha no deserto com manchas verdes crescendo
Mais de 20 mil hectares de deserto já estão cobertos por tabuleiros de palha na China • Reprodução/CGTN

Implementação barata, mas difícil

O trabalho de posicionar e enterrar a palha pode parecer simples, mas a extensão necessária para o tabuleiro funcionar e as condições climáticas extremas o tornam exaustivo e perigoso.

Os agricultores são recrutados das aldeias vizinhas ao deserto, no distrito de Shapotou. Eles vestem chapéus e máscaras para proteger o rosto do sol intenso e das tempestades de areia ao distribuir a palha. Para descansar, contam com tendas improvisadas com lençóis e estacas de madeira, fixadas com sacos de areia.

Um secretário do Partido Comunista da China na vila de Heilin, Fang Wensheng, disse à agência de notícias do governo em 2018 que os trabalhadores recebem entre 60 e 70 mil yuans, cerca de R$ 52,9 mil, na cotação atual, por ano. Até aquele ano, mais de 24 mil hectares de deserto com os tabuleiros foram cobertos.

Nos últimos anos, foram desenvolvidas máquinas capazes de posicionar e enterrar as faixas de palha ou grama na areia, reduzindo a necessidade do trabalho manual.

Por que os tabuleiros de palha não são usados em todos os desertos?

Apesar de ser um dos métodos mais efetivos e ecológicos contra a desertificação, o tabuleiro de palha tem limitações que impedem sua aplicação universal.

Em 1977, a China compartilhou sua técnica com o resto do mundo em uma conferência das Nações Unidas sobre desertificação em Nairóbi, no Quênia; a partir de então, outros países começaram a testá-la.

Em áreas com precipitação mais elevada, a palha apodrece rápido demais para conseguir estabilizar o solo. Em locais com rajadas extremas de vento em alta velocidade, as correntes orgânicas são destruídas.

Alternativas já implementadas em ambientes do tipo incluem tabuleiros de pedra e cercas plásticas.