A região brasileira com 350 produtores de cachaça artesanal, mas só 15 legalizados

1 de Nov de 2026 - 09:50
 0  0
A região brasileira com 350 produtores de cachaça artesanal, mas só 15 legalizados

O Circuito das Águas Paulista reúne 350 produtores de cachaça artesanal, e apenas 15 deles são legalizados — a informação é da Associação de Produtores de Cachaça de Alambique do Circuito das Águas Paulista (APCCAP). É nesse cenário que a região conquistou recentemente a Indicação de Procedência (IP), um selo de origem certificada que os produtores esperam converter em credibilidade, valor agregado e turismo rural.

Pela quantidade de alambiques, o circuito é uma das regiões mais conhecidas do país quando o assunto é cachaça artesanal. O setor movimenta o turismo gastronômico, com guias e degustações.

A história de Jorge Luís Benedetti — presidente da Associação de Produtores de Cachaça de Alambique do Circuito das Águas Paulista (APCCAP) e sócio da Fazenda Benedetti — com a cachaça começou antes de ele nascer.

Por volta de 1880, a família saiu da Província de Trento, no norte da Itália, em busca de uma vida melhor no Brasil. Chegou a Amparo e Serra Negra, no interior paulista, onde trabalhou como meeira na cafeicultura até comprar a fazenda.

Com a crise de 1929, veio a virada. “Receberam como parte do pagamento de uma dívida um engenho para processamento de cana-de-açúcar e um alambique de cobre com capacidade para 80 litros”, conta Benedetti. A produção, a princípio, era para consumo próprio.

Depois passou a ser vendida aos vizinhos. “A fama da cachaça se espalhou e a produção cresceu naturalmente ao longo das décadas.”

Hoje na quarta geração, os Benedetti produzem cachaças brancas e envelhecidas em barris de madeiras como umburana, bálsamo, carvalho europeu, americano e francês, cabreúva, louro-canela e amendoim. “Cada madeira entrega ao destilado notas, aromas e complexidades únicas”, diz Benedetti.

O que a Indicação de Procedência muda para os produtores de cachaça artesanal

Para Benedetti, o selo deu ao produto mais credibilidade e impulsionou o turismo rural, ao estimular visitas aos alambiques. “Quando o visitante chega ao Circuito das Águas e sabe que está consumindo uma cachaça com origem certificada, a experiência ganha outro significado”, afirma.

Segundo ele, isso movimenta hotéis, restaurantes, feiras e lojas, e gera empregos diretos e indiretos. Benedetti destaca ainda o apoio do Ministério da Agricultura e Pecuária no processo de certificação, que considera essencial para dar visibilidade e credibilidade à região.

Prêmios

A Fazenda Benedetti acumula reconhecimentos regionais, nacionais e internacionais:

Uma rota com 11 alambiques em cinco cidades

Para atrair visitantes, foram criadas no ano passado as Rotas da Cachaça de São Paulo, que integram 11 estabelecimentos em Amparo, Monte Alegre do Sul, Piracaia, Serra Negra e Socorro. Participam pequenos produtores que preservam a tradição da cachaça autoral e valorizam o território: o clima, a qualidade da cana e os saberes passados entre gerações.

Segundo Benedetti, integrar os alambiques a roteiros turísticos estimula a circulação entre os municípios, a compra direta e a distribuição dos benefícios econômicos. “Os alambiques guardam histórias e modos de fazer que ajudam a contar a formação dos territórios”, diz.

A secretária de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, Ana Biselli, afirma que a rota amplia as experiências para quem visita o estado e fortalece os pequenos negócios, “da hospedagem à gastronomia”.

A produtora que planta a própria cana

Uma das participantes da rota é a Cachaças da Torre, no bairro Areia Branca, em Amparo. À frente dela está Viviane Baldin, há 21 anos no setor e vice-presidente da APCCAP. A empresa existe há 28 anos e soma mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais.

Viviane planta a própria cana e produz a cachaça branca que dá origem a uma linha de 30 produtos. Entre eles estão licores cremosos à base de frutas e de leite, feitos com jabuticaba, banana, cambuci, maracujá e figo. Na fermentação, usa levedura selecionada, que dá sabor, características sensoriais e padronização à destilação.

Cachaça branca da produtora Viviane Baldin dá origem a uma linha de 30 produtos.

Como a maioria dos produtores, ela sustenta a família com a cachaça. “Tive que buscar informações sobre o plantio, produção e qualidade. Com o tempo ganhamos conhecimento e nos tornamos uma referência.”

Os obstáculos de quem produz

Apesar da valorização do mercado nacional e internacional, os produtores apontam entraves: carga tributária elevada, concorrência com a produção industrial em larga escala, clandestinidade e dificuldade de acesso a mercados mais amplos. Viviane acrescenta a falta de mão de obra e o custo de análises laboratoriais e equipamentos.

A legalização é o ponto central. “É necessário ser legalizado perante o Ministério da Agricultura, ter autorização oficial para a venda, trazendo segurança ao consumidor”, diz Viviane.

Para ela, a IP certifica a tradição e abre portas para o pequeno produtor chegar a “áreas exclusivas”. Em complemento, Benedetti acrescenta a opinião de que o caminho é a autenticidade. “A cachaça não é apenas uma bebida, mas um motor econômico e cultural que sustenta famílias, preserva tradições e coloca o nome da região no mapa.”