A restauração da dinastia (por Marcos Magalhães)
Caso as urnas confirmem a vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais, no dia 25, teremos por aqui uma espécie de versão tropical da restauração de uma dinastia. O que coroaria com ares franceses o retorno da família ao poder.
Em 1792, a Revolução Francesa derrubou o rei Luís XVI, executado no ano seguinte. Era um momento de combate aos privilégios da velha aristocracia, que deslizou para o terror e depois para a Primeira República Francesa.
Em 1804 foi a vez de Napoleão Bonaparte instituir o primeiro império do país. Mas esse império não durou muito. Dez anos e muitas guerras depois chega a vez da Restauração, e Luís XVIII se torna o rei da França.
A família Bourbon retomava o controle do país. Não foi exatamente como antes, pois o novo rei foi forçado pelo Congresso a adotar uma Constituição. Mas a família permaneceu no poder até a Revolução de 1830.
Por aqui, como sabemos, não há monarquia. Mas o sobrenome Bolsonaro pode vir a designar uma espécie de dinastia republicana. Tanto que já há planos para além do mandato de quatro anos que Flávio ainda nem conquistou.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já se entusiasmou com a ideia de fazer de Jair Bolsonaro o sucessor do filho Flávio, nas eleições de 2030.
“O Jair Bolsonaro pode ser um forte candidato daqui a quatro anos”, apostou Costa Neto, um dia depois do primeiro turno das eleições. “O povo vai querer Jair Bolsonaro”.
Daí se pode compreender um pouco a promessa feita por Flávio de não buscar a reeleição em 2030. Podia ser um jeito de atrair a simpatia do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, desde já pré-candidato ao Palácio do Planalto.
Mas não. O senador herdeiro do sobrenome poderia apenas manter por quatro anos o poder em mãos da dinastia, até que seu pai estivesse apto, depois de condenado por tentativa de golpe de Estado, a disputar novamente eleições.
Jair Bolsonaro costumava dizer, no auge de seu poder, que só deixaria o Palácio do Planalto “bem lá na frente”. Ou seja, mirava na primeira reeleição e talvez em uma segunda, que poderia se tornar viável por uma emenda à Constituição.
Não foi assim que funcionou. O patriarca da dinastia perdeu as eleições, ainda como presidente, para Luiz Inácio Lula da Silva, que já havia sido inquilino do Palácio da Alvorada por oito anos.
Jair não gostou do resultado, tramou um golpe e acabou na cadeia. De onde Flávio pretende tirá-lo no primeiro dia de seu possível mandato como presidente. Uma vez livre, leve e solto, Jair estaria pronto para compor a equipe do filho, já em preparativos para a sucessão em família em 2030.
O tsunami de votos em candidatos ultraconservadores no último domingo foi amplamente interpretado como esmagadora vitória da extrema direita. E foi. Mas pode também ter representado o primeiro passo para a Restauração Bolsonaro.
Em tese, a não ser pela idade ou por motivos de saúde, o ex-presidente poderia disputar eleições em 2030 e, se vitorioso, em 2034. A não ser que representantes de uma nova geração da extrema direita reivindiquem prioridade na definição de candidaturas.
O maior exemplo pode ser o próprio Tarcísio de Freitas, que teria dificuldades em apoiar daqui a quatro anos uma nova candidatura do capitão – quando ele mesmo estará concluindo o segundo mandato como governador de São Paulo.
Até lá, senadores e deputados eleitos na onda da restauração poderão dar início ao trabalho de moldar o país, mais uma vez, ao estilo Bolsonaro de ser.
Podem estar com os dias contados programas de inclusão social, defesa do meio ambiente e estímulo à cultura. E talvez voltem à moda as motociatas ao estilo de Mussolini e as declarações a aliados no cercadinho do Alvorada.
Os tsunamis costumam ser seguidos de muita destruição.