A santa que tira o sono de Flávio Bolsonaro
Na falta de um candidato com inteligência afiada e o mínimo de sensibilidade política, não haverá no entorno de Flávio Bolsonaro quem o possa guiar com argúcia e sabedoria para que não saia pisando em todas as cascas de banana que vê pela frente? Espanta que um bolsonarista de berço como ele, acostumado a disseminar notícias falsas contra os outros, não saiba se defender quando é alvo de uma.Notícia falsa, de pé à cabeça, foi a tal do “Kit Gay”, que ajudou Jair Bolsonaro a se eleger presidente em 2018. Publicações em redes sociais afirmavam que o governo de então, associado ao candidato do PT, Fernando Haddad, que fora ministro da Educação, pretendia distribuir livros com conteúdo sexual explícito para crianças de seis anos. Até um livro foi apresentado como se fizesse parte do kit.Outra notícia falsa usada contra Haddad na mesma eleição tornou-se conhecida como “A mamadeira de piroca”. Consistia em um vídeo gravado por um homem que segurava uma mamadeira cujo bico de borracha tinha o formato de um pênis. No vídeo, o autor afirmava que o artefato estava sendo distribuído pelo PT e por Haddad em creches públicas sob o pretexto de “combater a homofobia”.A primeira mentira mais repetida pelo presidente Jair Bolsonaro ao longo de quatro anos de mandato foi a de que não havia um só caso de corrupção no seu governo; a segunda, a de que o Supremo Tribunal Federal o impediu de agir com acerto no combate à pandemia de Covid-19, retirando-lhe poderes. De 2020 para cá, o vírus infectou 39,2 milhões de pessoas no Brasil, matando mais de 716 mil.Desconhece-se até aqui uma fala de Flávio na qual ele anuncie ou admita que, se eleito, retirará de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Ele desmente tal coisa. Há cerca de um mês, no entanto, o candidato do Partido Liberal à Presidência da República disse que pretende “declarar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Os bispos da Igreja Católica não gostaram de ouvir isso.Flávio é evangélico. Em 12 de outubro de 1995, o pastor evangélico Sérgio Von Helder, na época bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou e proferiu insultos contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O ato foi transmitido ao vivo durante o programa religioso O Despertar da Fé, exibido pela Rede Record na madrugada do feriado nacional dedicado à padroeira do Brasil.Ajudou a fomentar a história que agora abala a candidatura de Flávio o rumor de que poderá ser desarquivado no Congresso o projeto de lei apresentado em 2007 por um pastor, o então deputado Victorio Galli, que rebaixaria Nossa Senhora Aparecida à condição de apenas “padroeira dos católicos do Brasil”, não mais do país. Galli foi assessor do governo do pai de Flávio. Evangélicos não veneram imagens.Ninguém mais do que o próprio Flávio obrou para dar protagonismo à Senhora Aparecida nesta reta final das eleições. Quando o assunto começou a repercutir nas redes, ele se apressou a fazer “um pronunciamento à Nação” para negar tudo. Em seguida, pediu à Justiça que censurasse as mensagens postadas a respeito. Foi atendido pelo ministro André Mendonça. O ministro Flávio Dino, porém, cassou a decisão do seu colega de toga.Não bastasse, Flávio atacou ontem a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), instituição permanente que reúne e congrega todos os bispos da Igreja Católica Apostólica Romana no país, acusando-a de colaborar com o PT para espalhar boatos. Em resposta, os bispos publicaram uma nota na qual dizem:“A CNBB não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral. […] Mentira não se combate com outra mentira”.Para desespero de Flávio, não há sinais de que a Senhora Aparecida sairá da cena política tão cedo. O recomendável seria que a deixassem em paz.Acesse todas as colunas do Blog do Noblat no Metrópoles