Argentina: risco-país renova nível mais alto em um ano e reacende dúvida sobre ativos

O aumento da aversão dos investidores à Argentina elevou o risco-país aos níveis mais altos em cerca de um ano, reacendendo dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação dos ativos locais.
Na terça-feira, o indicador EMBI+ da Argentina, calculado pelo JPMorgan, chegou a tocar 710 pontos-base durante o pregão, antes de encerrar próximo de 672 pontos, ainda perto das máximas desde outubro de 2025.
O movimento ocorre em meio a preocupações com a liquidez do mercado, o cenário externo mais desafiador e as incertezas sobre o quadro político para as eleições presidenciais de 2027.
Apesar da deterioração do sentimento dos investidores, o Itaú BBA argumenta que a ampliação recente dos spreads soberanos não encontra respaldo em uma piora proporcional dos fundamentos macroeconômicos do país. Segundo relatório divulgado nesta terça-feira, o risco-país argentino está equivalente a 3,4 vezes a média da América Latina, o maior prêmio relativo observado nos últimos 12 meses.
O banco destaca que os principais indicadores fiscais e externos continuam relativamente sólidos. O governo de Javier Milei acumulou superávit primário equivalente a 0,3% do PIB nos nove primeiros meses do ano, enquanto o superávit comercial alcançou US$ 26,5 bilhões em 12 meses até setembro. Além disso, houve sinais iniciais de estabilização da inadimplência entre famílias após vários meses de deterioração.
Por outro lado, parte dos dados econômicos recentes trouxe mais cautela ao mercado. Os preços no atacado aceleraram em setembro, influenciados pela alta do petróleo e do gás natural, enquanto indicadores de atividade mostraram enfraquecimento da construção civil e da indústria. O índice de confiança no governo também recuou para um dos níveis mais baixos dos últimos três anos.
Na avaliação do Itaú BBA, as maiores preocupações dos investidores estão relacionadas à continuidade da agenda econômica após 2027, especialmente em temas como disciplina fiscal, abertura comercial e desregulamentação. Também pesam dúvidas sobre a capacidade do país de recuperar acesso duradouro aos mercados internacionais, reconstruir reservas cambiais e atravessar um cenário global potencialmente menos favorável.
Ainda assim, os estrategistas avaliam que os preços atuais dos ativos argentinos parecem embutir um cenário mais negativo do que o sugerido pelos dados econômicos disponíveis. Segundo o banco, as ações negociam em níveis compatíveis com um risco-país entre 800 e 1.000 pontos-base, acima dos níveis atuais. Caso os temores mais extremos não se materializem, haveria espaço para uma compressão gradual dos spreads soberanos e uma reprecificação positiva dos ativos.
O relatório aponta que, em um cenário de longo prazo em que o risco-país convergisse para uma faixa entre 400 e 500 pontos-base, mais alinhada a uma economia estabilizada, o potencial de valorização das ações argentinas poderia variar entre 40% e 110%, dependendo do setor e da companhia analisada. Bancos e empresas financeiras aparecem entre os segmentos com maior potencial de recuperação nesse cenário.
Para o Itaú BBA, a volatilidade deve permanecer elevada nos próximos trimestres, em linha com o histórico de países com classificação de crédito na faixa “B-“. No entanto, o banco avalia que os desequilíbrios fiscais e externos que costumam preceder períodos de forte estresse financeiro estão ausentes no momento, o que sugere que parte do pessimismo atual pode ser excessiva.
(com Reuters)
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