Campeão mundial com o Corinthians, ex-Cruzeiro e Seleção venceu fome e relembra "resgate" de Marcelinho

1 de Out de 2026 - 03:30
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Campeão mundial com o Corinthians, ex-Cruzeiro e Seleção venceu fome e relembra "resgate" de Marcelinho

João Carlos desistiu da carreira de treinador de futebol e virou assessor parlamentar no interior de Minas Gerais.

Campeão mundial com o Corinthians relembra vestiário com Marcelinho Carioca e Luxemburgo

João Carlos é daqueles jogadores que param, ao fim da carreira, e pensa: venci no (e por meio do) futebol. Hoje com 54 anos, o ex-zagueiro - multicampeão pelo Cruzeiro e Corinthians e com passagens pela Seleção - passou dificuldades para se alimentar, proibição de entrar até no vestiário no começo de carreira e uma arritmia ao fim dela - para alcançar um currículo que poucos conseguem.

Talvez alguns não se lembrem, mas o ex-zagueiro é um dos poucos que podem se orgulhar de ter sido campeão mundial de clubes. Foi pelo Corinthians, em 2000, clube pelo qual foi multicampeão e construiu história vitoriosa.

Em 1997, zagueiro João Carlos faz a festa para o Cruzeiro contra o Corinthians por 1 x 0

Com a parada na carreira em 2016, João Carlos também desistiu da carreira de treinador e voltou para Sete Lagoas, cidade em que nasceu. Virou assessor parlamentar e treina crianças no futsal de uma escola particular.

Em entrevista ao ge, o zagueiro relembrou passagens que marcaram na sua carreira. Supercampeão com o Corinthians - Brasileiro 1999, Mundial de Clubes 2000 e Paulista 2001 - João Carlos tem 92 jogos pelo clube, com nove gols marcados. Atuou ao lado de grandes da história do Timão, como Edilson, Marcelinho Carioca, Luizão, Vampeta, Ricardinho, entre outros.

"O resgate de Marcelinho"

Chegou a ser capitão da equipe e relembra uma passagem que teve de segurar o ímpeto de Vanderlei Luxemburgo e Marcelinho Carioca.

- Fomos jogar a Copa do Brasil contra a Ponte Preta, em São José do Rio Preto (na verdade, Presidente Prudente). Vanderlei e Marcelinho brigavam muito. E na preleção, nada de Marcelinho, cadê o Marcelinho? Entramos no ônibus, Marcelinho estava lá, Oswaldo (Oliveira) também, e o Vanderlei falou assim: "ó, Marcelinho está fora', e nós: 'pronto, perdemos o nosso craque'.

João teve que argumentar com Vanderlei Luxemburgo e tentou contornar a situação de Marcelinho Carioca.

"Chegamos ao vestiário, e a pressão dos caras, dos jogadores em mim, né? 'Você tem que ir ao Vandeco, o Marcelinho tem que jogar'. Falei: 'Vanderlei, preciso com falar com você. Nós precisamos do Marcelinho"

- Ele (Luxemburgo) ficou olhando pra minha cara um minuto. Ele falou assim: 'Marcelinho vai para o jogo, mas se ele fizer merda, for expulso, você que é culpado e você que vai embora'. Chamei o Marcelo, pedi para ele não arrumar encrenca, não arruma confusão, somente jogar futebol. Resumindo 3-0, 3 gols do Marcelinho 3 gols de falta (1 dele, na verdade).Ele tinha uma personalidade fora e outra dentro do campo ele tinha outra personalidade, sabe? Então é realmente era muito preocupante. Era o craque nosso, mas era muito preocupante, né?

Luizão, Caçapa, joão carlos, Guilherme e Curê, Corinthians x Atlético-MG, Final Brasileiro 1999 — Foto: Agência Estado

Fome no início

João Carlos contou que, até chegar ao Cruzeiro, não teve facilidade na vida. Citou que passou fome no início de carreira no Democrata de Sete Lagoas.

- Passei muita dificuldade, passei fome no meu início de carreira, não tenho vergonha nenhuma de falar para os meus filhos. Éramos 9 irmãos. Todos tinham que trabalhar pra poder ajudar em casa. Então quando eu comecei no Democrata, eu trabalhava. Eu tive parar de trabalhar pra poder jogar, porque o treinamento era de manhã e à tarde e meu pai não aceitava. Ele não aceitava isso porque ele queria que a gente trabalhasse. Ele falava que não. 'E jogar futebol é coisa de vagabundo, sabe? É coisa de malandro, tem que trabalhar, pegar no pesado', sabe? Ele sempre falava assim.

João Carlos ex-zagueiro jogando pelo Corinthians — Foto: Arquivo / FOLHAPRESS

Comprado pelo Cruzeiro em 1994, o zagueiro foi reemprestado nos anos seguintes até conseguir um espaço no time com Nelsinho Baptista em 1997, após o título da Libertadores da Raposa. Até este momento...

Proibido no vestiário

- Quando o Paulo Autuori chegou, ele começou a tirar (jogadores) e começou a trazer o jogador deles, que é normal, o treinador, né? E quem me garantiu foi o Perrella, falou que não iria me emprestar, que iria treinando separado aqui (na Toca). E eu fiquei uns 2, 3 meses treinando separado, sabe com o preparador físico. Eu não podia trocar de roupa junto com os outros. Eu chegava mais cedo. Eu trocava de roupa mais cedo, treinava mais cedo, acabava o treino, tomava banho. Eu tinha que ter saído do vestiário, sabe, quando os outros chegavam? Então, assim foi muito difícil - contou o jogador.

Zagueiro João Carlos — Foto: Arquivo Pessoal/João Carlos

Virada na carreira e polêmica do bicho no Mundial

Nelsinho Baptista foi o treinador que promoveu a virada na carreira do defensor. Foi com que João Carlos ganhou espaço na zaga do Cruzeiro e virou destaque no cenário nacional. Ainda em 1997, jogou a final do Intercontinental contra o Borussia Dortmund, no Japão

Para a decisão, o Cruzeiro foi ao mercado e fez contratos de três meses com quatro jogadores: Alberton Valentin, Gonçalves, Donizete Pantera e Bebeto.

- O que atrapalhou tudo foram aquelas contratações, né? A gente não pode falar do atleta, né? Da pessoa do atleta, mas o o grupo estava legal, estava fechadinho, sabe aí, né? Levou o Gonçalves, o Donizete Pantera, Bebeto e Alberto, né? Quando fizeram essas 4 contratações aí desmartelou tudo, porque essas contratações elas elas foram feitas só para o Mundial.

"Eu lembro que lá no Japão nós tivemos uma reunião. O Donizete chamou o grupo, falou pessoal, 'estou vendo vocês virados pra mim aí, mas eu não tenho culpa. O seu presidente foi lá e me contratou e eu estou aqui para ajudar e vou ajudar'.

Em 1997, Bebeto, Donizete e Gonçalves reforçam o Cruzeiro para a final do Mundial

A premiação pelo eventual título também mexeu com o grupo, segundo João Carlos.

- O Cruzeiro queria dar um valor. Os jogadores não aceitavam, queriam um valor maior, e o Cruzeiro não abriu mão. Então foram vários fatores aí que envolveu eh. Toda a situação pra chegar naquele resultado ali, né? E ainda pra mim não foi um jogo ruim do Cruzeiro, né?.

Pela Seleção, João Carlos participou de 10 jogos. Foi campeão da Copa América 1999, no Paraguai, atuando como titular. Também foi vice da Copa das Confederações, no México.

"Ganhava 12 mil"

João Carlos afirma ter feito um bom "pé de meia" no futebol. Mas só ganhou dinheiro com a venda para o Corinthians, na metade de 1999.

- Quando eu fui convocado para a seleção, que eu fui para a Copa América, ganhava R$ 12 mil. E o zagueiro, que era a minha dupla de zaga, que era o Gotardo e o Marcelo Djian, os dois tinham salários de R$ 100 mil e R$ 80 mil. A diferença era muito grande, muito grande. Depois que eu fui pra Seleção, né, que eu fui vendido pro Corinthians, aí eu passei a ter um bom salário, sim - relembrou.

Quase na Europa, por algumas vezes...

João Carlos nem jogaria no Corinthians. Ele tinha uma proposta em mãos do Monaco, da França. Mas a proposta do time paulista acabou sendo melhor na época. Em 2001, após saída do Corinthians e voltar ao Cruzeiro por empréstimo, o jogador contou ter sido monitorado pelo Milan.

- Depois teve outra situação para a França, né? Pro Lyon e acabou não dando certo. Pro PSV, da Holanda, também. Eu tive para ir para a Itália também pro Milan, né? E estava Corinthians e acabou indo o do Palmeiras, o Roque Júnior. Nós fomos jogar contra o Palmeiras no Parque Antartica, e um time japonês estava lá para ver dois jogadores do Palmeiras. O Marco Aurélio era o nosso treinador. Ele falou que o japonês tinha gostado demais. E eles foram no domingo pra ver o jogo, né? E era Cruzeiro e Inter. Aí nós jogamos contra o Inter. Vencemos o Inter de 4 a 2 e eles gostaram, e acabei indo pro Japão.

Por que não vingou como treinador?

João tentou a carreira de treinador. Rodou o interior de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e até o Amapá. Depois de 11 anos e investimentos na carreira, decidiu parar. Não pela falta de oportunidades:

- Foram 11 anos rodando, né? Rodando, investindo que não é fácil, né? Início de treinador. Aí meus filhos crescendo, meus filhos estudando, né? Com meus filhos indo para a faculdade, a minha esposa me chamou para conversar. E falou ó, os filhos estão fora. Estão estudando, eu tô aqui sozinho, você sai pra trabalhar, é 3, 4 meses fora. Mas pra mim isso não é vida de marido e mulher, né, cada um vivendo pra um lado e eu acabei concordando com ela.

João Carlos em atuação pelo Corinthians contra o Santos — Foto: Agência Gazeta Press

“Um ensinamento que tive da minha mãe sempre falou quando eu fui para o Cruzeiro, minha mãe falou, falou meu filho, vá, cresça, busca seus sonhos, procure crescer, mas nunca esqueça das suas origens”

João Carlos desistiu da carreira de treinador de futebol e virou assessor parlamentar no interior de Minas Gerais.

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