As notícias ruins da política podem estar sabotando seu cérebro, mostra estudo
Seja você de esquerda, direita ou neutro, uma coisa é certa: acompanhar as reviravoltas na política brasileira e mundial, em um cenário de polarização, não tem sido fácil para ninguém.
E se você é do time que, nestas eleições, tem começado o dia com um jornal e um café em mãos, já deve desconfiar que as decisões de nossos gestores e legisladores afetam a sua saúde mental.
A novidade é que a ciência analisou esse impacto e mostra que ele pode alcançar, até mesmo, o nosso desempenho no trabalho.
É o que mostrou um novo estudo, feito com 308 trabalhadores dos Estados Unidos durante o período das eleições presidenciais primárias de 2024. A análise foi realizada pela Universidade Texas A&M e publicada este mês na revista Computers in Human Behavior.
A pesquisa descobriu que, nas semanas com maior circulação de notícias políticas percebidas como negativas, os funcionários apresentavam níveis mais altos de ansiedade e menor engajamento no contexto profissional.
Já nos dias de notícias consideradas boas, a turma trabalhou com mais pique, sensação de esperança e até mais disposição para ajudar os colegas.
“O estudo fala, portanto, em momentos políticos significativos e que geram esse estresse, o que é bem o que estamos vivendo agora no Brasil”, explica o psicólogo Francisco Nogueira, membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e colunista da VEJA SAÚDE.
Ou seja, segundo a análise, mesmo que você não fale de política no trabalho, ela vai te acompanhar até o escritório.
Como o estudo foi feito
A pesquisa acompanhou trabalhadores durante nove semanas das eleições primárias presidenciais dos Estados Unidos de 2024, entre 19 de janeiro e 15 de março.
Para participar, era necessário trabalhar em período integral, morar nos Estados Unidos e interagir com outros funcionários no trabalho.
A cada semana, os participantes respondiam a questionários sobre o consumo de informações políticas e suas experiências no ambiente profissional.
Inicialmente, 813 indivíduos foram recrutados. No entanto, após a exclusão de voluntários por respostas consideradas descuidadas ou não terem seguido até o fim do acompanhamento, a amostra final foi composta por 308 funcionários, totalizando 2.772 observações semanais.
Em cada uma das nove semanas, os participantes informavam com que frequência haviam consumido, durante o seu tempo livre, informações políticas que percebiam como positivas ou negativas em televisão e YouTube, redes sociais, podcasts e jornais.
Eles também relatavam a frequência de sentimentos de ansiedade e esperança e aspectos da experiência profissional, como de ajuda e engajamento no trabalho.
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Mais resultados
Os pesquisadores não têm dúvidas de que o cenário político pode afetar a saúde mental, o que eles chamam, aliás, de “estresse político“.
Além dessa convicção, eles consideraram que, quando uma pessoa consome mais notícias ruins do que o seu padrão habitual em uma determinada semana, a ansiedade aumenta.
Mas veja bem: isso não significa que quem ama um noticiário seja mais “surtado” ou menos dedicado do que os outros no geral. O efeito, mostrou a pesquisa, costuma ser temporário e concentrado nas semanas com piores notícias.
O psicólogo João Gabriel Modesto, doutor em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), explica que a ansiedade é uma resposta do nosso organismo a uma situação de incerteza futura, o que também se aplica em cenários políticos instáveis.
“Por sua vez, é plausível que também sejamos afetados no contexto laboral, afinal, o trabalho não é uma bolha isolada dos outros acontecimentos de nossa vida”, comenta.
A sensação de que aspectos importantes da própria vida podem estar ameaçados por decisões políticas ou pela possibilidade de vitória de partidos com os quais se discorda pode ser outro fator capaz de explicar esse impacto na rotina.
“Quando a gente começa a ler muitas notícias que apontam para um cenário político no qual o indivíduo acredita que poderá perder muitos recursos, ele entra num estado de ansiedade e, inevitavelmente, vai ter dificuldades para engajamento no trabalho”, explica Nogueira.
Apesar disso, curiosamente, nem todo mundo afunda no estresse, segundo a pesquisa. Perante a angústia provocada pela política, alguns profissionais passam, por exemplo, a buscar mais ajuda dos colegas (enquanto as notícias positivas levam ao oferecimento de apoio).
Além disso, as semanas com notícias ruins também levaram a um comportamento mais “politicamente correto” e mais cuidadoso nas conversas no trabalho.
“As pessoas relataram que deixavam de fazer certas falas e ter certos comportamentos”, comenta Nogueira. Uma possível explicação, segundo os autores, é que os funcionários tentassem controlar o que diziam para evitar conflitos ou não afastar colegas que pensassem diferente.
Os autores consideram essas reações compatíveis com a possibilidade de algumas pessoas canalizarem o desconforto para comportamentos construtivos.
Ademais, apesar dos resultados, os pesquisadores fazem algumas ressalvas. A principal é que os participantes avaliaram por conta própria se consideravam as informações “positivas” ou “negativas”.
Portanto, o estudo não prova que as notícias sobre política causam ansiedade ou mudanças no comportamento profissional, já que os dados foram baseados em autorrelatos e o desenho não estabeleceu claramente a ordem temporal entre todas as variáveis.
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Quando é melhor dar uma pausa no noticiário?
Os pesquisadores ressaltam que os achados não significam que funcionários devem parar de acompanhar a política e não devem ser usados para que empregadores tentem influenciar as informações que os trabalhadores consomem.
Apesar disso, os psicólogos ouvidos pela VEJA SAÚDE destacam alguns contextos em que cada pessoa pode escolher desligar a TV ou desconectar os telefones para preservar a própria saúde mental.
“Afinal, estudos mostram que o crescimento da polarização política tem afetado os índices gerais de saúde mental das pessoas como um todo no mundo”, comenta Modesto.
Nesse cenário, um bom sinal de que é melhor se desligar um pouco é quando acompanhar as atualizações deixa de ser apenas uma forma de se informar e começa a atrapalhar o sono, o trabalho ou o bem-estar.
Nogueira explica que dar uma pausa nas notícias também pode ser uma forma de se preservar e cuidar de si. “Da mesma maneira que a gente recomenda fazer ginástica, dormir bem e se alimentar direito, nessa época do ano é muito importante também fazer uma higiene do noticiário político.”
Mas é preciso saber dosar esse intervalo, visto que manter-se por dentro dos acontecimentos é fundamental para a cidadania.
“A política é um elemento central para o desenvolvimento do nosso país. Assim, quando você percebe que o excesso de informação está gerando um desgaste emocional acentuado, talvez seja a hora de buscar um equilíbrio entre acompanhar a situação do país e manter a saúde mental”, orienta Modesto.
Como empresas lidar com o estresse político?
Ao fim do artigo da Universidade Texas A&M, os autores destacam que os resultados demonstram a importância de reconhecer que a informação política pode ser emocionalmente desgastante.
Por isso, eles recomendam que, em períodos de maior tensão política, as empresas adotem medidas para reduzir a ansiedade e preservar os recursos emocionais dos funcionários.
Isso pode incluir oferecer apoio à saúde mental, criar espaços para diálogos construtivos e facilitar o engajamento cívico, por exemplo, com folgas para votar ou oportunidades de voluntariado.
Outra possibilidade é permitir horários de trabalho mais flexíveis, de modo que os funcionários consigam conciliar o acompanhamento da política com momentos de descanso e recuperação.
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No âmbito individual, a ideia é equilibrar o acompanhamento dos acontecimentos com atividades que ajudem na recuperação, como lazer, descanso, atividade física, sono adequado e práticas de atenção plena.
Por fim, os autores levantam a possibilidade de equilibrar o contato com notícias negativas com informações políticas que despertem esperança.
Essa, porém, não é apresentada como uma recomendação para que empresas indiquem aos funcionários quais conteúdos devem consumir, mas como uma das possíveis formas de lidar individualmente com os efeitos do noticiário.