Cássio supera preconceito com psicólogo e rebate críticas a jogadores: "Não é dinheiro"

25 de Out de 2026 - 13:00
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O goleiro Cássio revisitou fases delicadas da carreira. Aos 39 anos, o jogador do acumula momentos de glória, mas também enfrentou períodos em que não conseguia manter o desempenho dentro de campo. Entre problemas com álcool e a luta contra a depressão, Cássio relembrou os desafios que enfrentou, a importância de quebrar o tabu em torno da saúde mental e as mudanças necessárias para evitar que a carreira chegasse ao fim precocemente.

O ano era 2016 quando Cássio percebeu que o consumo de álcool estava comprometendo seu desempenho como atleta. O técnico Tite, então no comando do Corinthians, teve papel importante para que o goleiro entendesse a gravidade da situação.

- Algumas pessoas já tinham me alertado e eu não conseguia enxergar. Eu acabei perdendo a minha posição em 2016 e tive uma conversa bem franca com o Tite, que era treinador na época. Eu lembro que no começo, quando ele me tirou do time, eu não aceitei. Eu achei que que que ele estava errado. Mas, com o tempo, você vai vendo que estava indo para o fundo do poço.

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Na época, o goleiro Walter assumiu a titularidade no Corinthians. Depois de muitas conversas com a esposa, Janara, e com o então treinador, Cássio reconheceu os prejuízos que o álcool causava à carreira e o risco de precisar abandonar o futebol precocemente.

- Eu consegui entender que a maneira que eu vivia, o estilo de vida já não estava sendo saudável para mim como atleta, como profissional de alto nível. Eu lembro que eu acabei perdendo a posição. E chegou a um ponto que eu falei cara, eu vou parar de beber porque se não vai acabar com a minha carreira.

"Para tudo você tem que pagar um preço e eu entendia que a bebida já não fazia parte do meu dia a dia e estava me destruindo. Eu tinha que ter uma mudança."

Ameaças e depressão

Após mudar os hábitos, Cássio voltou a conquistar títulos pelo Corinthians. Foi campeão brasileiro em 2017 e paulista em 2019. Anos mais tarde, porém, enfrentou outro período delicado. Em meio à queda de rendimento da equipe e às críticas direcionadas a ele, o goleiro e a família passaram a sofrer ameaças, situação que afetou sua saúde mental.

- O elogio em excesso acaba te atrapalhando, assim como a crítica excessiva também te leva a outras situações. Eu tive alguns problemas de ameaças. A minha esposa também foi ameaçada em um certo momento lá no clube. O clube me deu o amparo.

"A gente normaliza algumas coisas que não são normais e, quando você vai falar isso, do meu ponto de vista, tudo se remete a você ganha muito bem."

Cássio, goleiro do Corirnthians, e a esposa recebem ameaças

As dificuldades dentro e fora de campo fizeram parte de um período ainda mais delicado na vida de Cássio. Em meio a uma temporada conturbada, o goleiro enfrentou a depressão. Ele relembrou um episódio em que não conseguiu conter o choro antes de uma partida.

- Eu estava num momento tão difícil assim que eu não conseguia evoluir. Eu lembro até um episódio que aconteceu que eu fui aquecer num jogo, acabei meu aquecimento, sentei e não consegui controlar. Eu comecei a chorar espontaneamente. Eu estava tão carregado. Eu acho que fiquei carregado, eu chorei ali e eu me lembro que o treinador era o Antônio, Antônio de Oliveira, ele tinha chego há pouco tempo, ele ficou meio assustado com a situação. Depois eu me arrumei e fui jogar. Só que eu não estava legal.

Em 2024, na reta final do contrato com o Corinthians, Cássio convivia com críticas intensas, vaias e atuações abaixo do esperado. Foi nesse contexto que reconheceu a necessidade de buscar ajuda profissional para cuidar da saúde mental.

- E eu confesso que tipo eu sempre fui meio: ah, psicólogo? Mas foi a melhor escolha que eu fiz: achar uma profissional que eu respeitava e ela me ajudou muito, me encaminhou para um psiquiatra e aí a gente começou um tratamento. Depois eu comecei um tratamento com a psicóloga e, graças a Deus, eu consegui reverter a situação que eu estava vivendo.

Cássio jogador do Cruzeiro durante aquecimento antes da partida contra o Athletico-PR no estádio Mineirão pelo campeonato Brasileiro A 2026 — Foto: Gilson Lobo

Já no Cruzeiro, Cássio também teve momentos de desabafo. Em 2024, quando o time atravessava um período de instabilidade, o goleiro falou após a vitória sobre o Vasco:

- A gente é ser humano. Erramos e acertamos. Nunca fui de me omitir sobre as coisas, mas a gente vive momento em que as pessoas se preocupam mais em dar pedradas na gente, tentar humilhar as pessoas. Vamos ficar doentes, o ser humano está ficando doente.

O goleiro ainda lidava com os efeitos da depressão e destacou que a recuperação não acontece de forma imediata. Também ressaltou que a condição não está relacionada à situação financeira e que o dinheiro não é capaz de resolver o sofrimento emocional.

- O cara que passa por essa situação, não quer saber de dinheiro, não pensa em dinheiro. Essa é a última coisa que pensa. Não é dinheiro. Você não vai numa loja comprar um carro novo e vai melhorar da depressão. Tu não vai numa loja comprar ou fazer alguma coisa ou fazer uma viagem de repente e e vai curar isso.

"Tento ajudar os outros"

Depois de enfrentar esses momentos difíceis, Cássio passou a defender a importância dos cuidados com a saúde mental. O goleiro reconhece que o preconceito ainda é uma barreira para quem precisa de acompanhamento psicológico e usa a própria experiência para incentivar outras pessoas, incluindo atletas, a buscar ajuda.

- Eu acabei entrando em depressão. Passei por um momento bem difícil, mas, para mim, foi um grande aprendizado de crescimento como pessoa. E hoje eu olho para trás e tento ajudar os outros. Eu vejo que muitas pessoas passam por isso e não conseguem sair porque tem um pouco de preconceito de pedir ajuda. Eu consegui pedir ajuda, consegui confiar nos profissionais que me ajudaram naquele momento que foi a Lisandra, psicóloga, que a gente começou um trabalho.

Aos 39 anos, em uma fase diferente da carreira, Cássio quer transformar as experiências difíceis em uma forma de ajudar quem enfrenta situações semelhantes. Mais do que relembrar os problemas, o goleiro destaca o aprendizado e a importância de reconhecer os próprios limites.

- Eu acho que a gente passa por as diversidades na vida que não são fáceis. Mas o importante é você depois, como eu estou conversando muito tranquilo com vocês hoje, entender o que eu passei por lá e saí muito mais fortalecido. Tenho certeza que que hoje eu estou muito bem, estou muito feliz e vou poder ajudar muita gente. Quando acontecer algo semelhante ao que eu passei, eu posso dar o testemunho do que eu estou falando aqui para essas pessoas. Eu entendi o que eu vivi naquele momento e saio muito mais fortalecido.

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