Cinco fatores que podem definir as eleições de meio de mandato nos EUA

2 de Nov de 2026 - 05:10
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Cinco fatores que podem definir as eleições de meio de mandato nos EUA

Os eleitores americanos vão às urnas na próxima terça-feira (3) para renovar as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 do Senado. Pela primeira vez desde a volta de Donald Trump à Casa Branca, os republicanos correm o risco de perder o controle do Congresso.

As principais pesquisas de intenção de voto apontam os democratas como favoritos na Câmara e dão ao partido chances menores, mas concretas, no Senado.

Geralmente, eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, conhecidas como midterms, funcionam como uma espécie de prova de avaliação do governo que está no poder. Não é incomum, inclusive, que os partidos que ocupam a Casa Branca sofram derrotas em eleições de meio de mandato.

No caso do segundo governo Trump, o quadro é mais complexo. Enfrentando os piores de aprovação de sua carreira política, o republicano terá que convencer a população a manter a sua base de apoio, ainda que a inflação esteja em alta nos EUA, impulsionada pelos efeitos da guerra contra o Irã promovida por Trump. Outra pauta cara ao eleitorado que vai às urnas na semana que é econômica e tem a ver com decisões de natureza comercial: as tarifas alfandegárias impostas por Washington desde o ano passado a uma lista de países, incluindo o Brasil.

Para entender o que está em jogo na eleição que pode definir a governabilidade de Trump nos próximos ano, o InfoMoney apresenta, em cinco pontos, os principais eixos do pleito.

1 – O comando do Congresso

Os republicanos têm maioria de 218 cadeiras na Câmara, e 53 no Senado. Há, ainda, dois congressistas independentes que, não raro, costumam votar com a oposição. Alguns dos principais modelos de projeção de voto, como o Decision Desk HQ, dão aos democratas em torno de 80% de chance de saírem vencedores na Câmara, e cerca de 60% no Senado.

No caso do Senado, a conta é mais apertada para o partido de oposição, uma vez que não bastaria igualar o número de cadeiras dos republicanos. Nos EUA, em caso de empate em um plenário dividido, o voto decisório cabe ao vice-presidente americano. O cargo é ocupado por JD Vance.

Com maioria na Câmara, a oposição passaria a comandar comissões importantes, a exemplo da Comissão de Relações Exteriores, que dá o aval para operações militares e tem alta influência no comando dos EUA. 

Outra frente importante da eleição tem a ver com o futuro de Trump no poder: uma hipotética maioria poderia levar a um impeachment do republicano. Nesse caso, a abertura do processo exige maioria simples na Câmara, mas a condenação depende de 67 votos no Senado. 

De toda maneira, democratas atuantes no Congresso, como o líder do partido na Câmara, Hakeem Jeffries, apontam que a pauta do impeachment poderá estar em alta nos próximos tempos. Funcionando, na prática, como um instrumento de pressão a Trump e de mobilização das forças de oposição. 

2 – O custo de vida

Antes do início da guerra no Oriente Médio, em fevereiro deste ano, o galão de gasolina nos EUA custa pouco menos de US$ 3. Dados da associação automobilística AAA, porém, apontam que o valor saltou para cerca de US$ 4,30 em outubro.

O motivo é basilar: buscando salvar-se, o Irã fechou a circulação no Estreito de Ormuz, uma das principais vias de circulação de petróleo no mundo. Além disso, a Rússia passou a segurar as exportações de diesel, dado o conflito com a Ucrânia. Nas últimas semanas, Trump vem pressionando as ações no leste europeu, na tentativa de impedir uma interrupção mais aguda do fluxo de combustíveis.

Com a gasolina mais alta no país, a população americana tem sentido no bolso. Em setembro, a inflação ao consumidor acelerou para 3,7% em doze meses. Para o historiador James N. Green, presidente do Conselho Diretivo do Washington Brazil Office, o aumento do custo de vida é central para o eleitorado que vai às urnas na semana que vem.

“O mais importante é a questão de controlar a inflação e o alto custo de vida. Além das guerras sem fim, ou seja, como a que acontece no Irã. Ela causou aumento de combustíveis e aumento de preço de alimentação e transporte”, explica. 

3 – A guerra contra o Irã

Os eleitores vão às urnas tendo em conta as questões internas, mas não ignoram o que se passa no mundo. Essa não é exatamente uma novidade na política americana: em 2002, diante da sua primeira eleição de meio de mandato, o ex-presidente George W. Bush acabou se tornando um caso excepcional neste século a não sofrer derrota na composição do Congresso. Um ano antes, os EUA enfrentaram os ataques às Torres Gêmeas no 11 de Setembro.

Agora, o conflito contra o Irã pode ser o principal fator externo para a perda de popularidade de Trump. Para o ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, a guerra é determinante porque, “desde os últimos meses, por causa do ataque de Israel e dos Estados Unidos e Irã, e o problema no Estreito de Ormuz, o preço da energia, dos fertilizantes, subiu muito”. “O Congresso vai ser muito mais crítico em relação à guerra do Irã”, explica. 

4 – O tarifaço

Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA decidiu, por 6 votos a 3, que a lei de emergência econômica usada por Trump não autoriza a criação de tarifas. O governo, então, substituiu as taxas derrubadas por outras, baseadas em leis comerciais. Alvo dessa iniciativa, o Brasil passou a pagar uma tarifa própria de 25%.

“Se ele perder o controle de uma das Casas, ou perder as duas Casas, acho que a questão do tarifaço vai ser questionada, por isso é de competência do Congresso”, avalia Barbosa. 

Uma lei para revogar as tarifas precisaria de aprovação no Congresso. O grande desafio é que Trump poderia vetar a iniciativa. Para derrubar o veto, o Congresso precisaria da votação de dois terços das duas Casas. Tudo vai depender do quão enfraquecido Trump poderá sair das midterms. 

5 – Imigração

As prisões do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês) entraram na disputa pelo voto latino.

“Boa parte das pessoas que eles estão prendendo são pessoas que não cometeram nenhum crime, nenhuma ação que não fosse de entrar nos Estados Unidos e ficar além do tempo que tinha direito”, diz James Green. 

Para o historiador, “a repressão tão forte contra a comunidade latino-americana chocou e mudou a opinião pública”. Nesse quadro, o rechaço às ações do ICE “foi compartilhado por pessoas norte-americanas e cidadãos que também ficaram chocados com a violência, essa abordagem contra as pessoas andando nas ruas”. “A maioria das pessoas está contra a política migratória de Donald Trump e vai votar contra ele, também, por essa razão”, explica.

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