Como a crise bancária afeta os investimentos dos brasileiros no Paraguai
A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, ocorreu em meio ao colapso do Ueno Bank, o maior banco digital do país, que teve o mandatário como sócio até março de 2025. A instituição contava com 3 milhões de clientes e US$ 4,2 bilhões em ativos, além de captar quase 9% dos depósitos bancários do país. O episódio foi classificado pela BBC Brasil como "caso Master do Paraguai".
Para entender o tamanho da instituição, vale olhar para o sistema financeiro do Brasil. O Ueno atendia cerca de 63% da população adulta no Paraguai. No Brasil, o Nubank atende cerca de 61%.
O Paraguai não é o maior parceiro comercial do Brasil, mas o Brasil é o maior parceiro comercial do Paraguai. Dados de 2025 apontam que nosso país possui US$ 2,2 bilhões em investimento direto no país, respondendo por 15% do investimento estrangeiro direto. O investimento dos Estados Unidos, por exemplo, gira em torno de US$ 1,26 bilhão.
O mercado tem precificado uma repercussão baixa, mas existente nos negócios brasileiros. O especialista em comércio exterior Jackson Campos avalia que o impacto pode vir na forma de pedidos menores, exigência de pagamento antecipado e pressão financeira que exigiria um capital de giro maior das empresas brasileiras.
"A mudança de presidente não extingue automaticamente a legislação, embora a incerteza possa adiar novos investimentos. O Brasil deve preservar o diálogo e a continuidade comercial, enquanto as responsabilidades são apuradas pelas instituições paraguaias", afirma.
O Banco Ueno administrava aproximadamente US$ 850 milhões de entidades públicas, incluindo recursos da previdência e da saúde. Com a participação de Peña na Ueno Holding, houve suspeitas de conflito de interesses.
Em meio à crise política, houve também uma movimentação econômica com impactos na população: o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu encerrar as operações da Ueno após constatar o colapso no caixa da instituição. Com isso, milhões de pessoas tiveram seus depósitos bloqueados.
Maquila: o que é e como é impactada
Os especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo destacam o regime de Maquila. O mecanismo surgiu para atrair empresas estrangeiras para produzir com mão de obra do país. Na prática, uma empresa brasileira pode abrir uma unidade no Paraguai, levar temporariamente as matérias-primas e ferramentas para o país, produzir e depois exportar o produto pronto.
Em 2025, uma atualização na Maquila modernizou o sistema, passando a explicitar a possibilidade de inclusão da exportação de serviços, inclusive digitais, fixando regras de investimento e capacitação e o prazo de 20 anos para as concessões, com possibilidade de renovação.
A diretora comercial da B&T XP, Roberta Folgueral, lembra que todo esse sistema não depende apenas de equipamentos e funcionários para funcionar, sobretudo diante dos incentivos fiscais oferecidos. Os bancos entram na cadeia por meio das transferências de recursos, pagamento de salários, fornecedores, tributos, entre outras movimentações.
"Uma empresa pode ter uma operação industrial saudável, contratos de exportação em andamento e demanda por seus produtos, mas enfrentar dificuldades se não conseguir acessar os recursos necessários para cumprir seus compromissos financeiros", completa.
Agora, avalia a especialista, a dúvida dos empresários brasileiros deve girar em torno das incertezas quanto à sobrevivência do banco do qual depende para movimentar o caixa, uma vez que "competitividade e segurança operacional precisam caminhar juntas". Em outras palavras, a pergunta passa a ser: "como manteriam a operação funcionando se a instituição financeira da qual dependem deixasse de operar?".
Mercado financeiro
O Paraguai possui um equivalente ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o Fundo de Garantia de Depósitos (FGD). A cobertura é de investimentos de até 228,3 milhões de guaranis, cerca de R$ 200 mil por pessoa física ou jurídica, parecido com o limite de R$ 250 mil no Brasil.
A liberação das garantias, porém, não é automática. A primeira etapa cobrirá investimentos equivalentes a cerca de R$ 9 mil, e não contemplará quem só tinha conta no Ueno Bank. O Economista e diretor da VLGI Asset Matheus Portela recomenda que os brasileiros com valores no banco guardem os extratos e comprovantes para aguardar o lançamento do canal oficial do BCP para o ressarcimento.
Portela, no entanto, vê um impacto maior na imagem, uma vez que a atratividade construída nos últimos anos pode dar lugar ao temor diante de uma instituição colapsada com "muito dinheiro público concentrado e supervisão que agiu tarde".
"Se o país responder bem, com pagamento rápido aos correntistas, responsabilização e fiscalização mais forte, o episódio fica como um caso isolado. Se não, a promessa paraguaia perde força justamente com quem foi atraído por ela", pontua.
Para André Matos, CEO da MA7 Capital, o investidor brasileiro no Paraguai deve avaliar o banco e a natureza dos investimentos, observando o limite da garantia. O risco de problemas em outros bancos, em sua visão, é menor, mas existe, isso porque a instabilidade pode derrubar o valor do Guarani e tornar o crédito mais caro. Retirar todo o saldo de outros bancos do país também não seria estratégico: Matos lembra que esta operação pode gerar custos desnecessários com câmbio e transferências. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, recomenda diversificação da carteira.